domingo, julho 18, 2010

Dois diretores, duas visões de mundo


Vício Frenético (1992), de Abel Ferrara, e Vício Frenético (2009), de Werner Herzog, dois ótimos filmes que tomam rumos diferentes a partir do mesmo ponto de partida. Ambos partem do mesmo argumento e cada qual se desenrola bem à maneira de seus realizadores: o senso trágico de Ferrara se vê representado no catolicismo do personagem de Harvey Keitel enquanto que o mundo desequilibrado de Herzog se vê representado na New Orleans pós Katrina. Quem mais, a não ser Herzog, filmaria um crocodilo morto em plena rodovia? Só fui atrás do primeiro quando soube que o segundo estava sendo apresentado, em setembro de 2009, no Festival de Veneza. Recomendo a todos que façam o mesmo, pena que o filme ainda não tenha saído em DVD. Tomara que o lançamento em DVD do filme do Herzog encoraje os distribuidores a fazer o mesmo com a película do Ferrara.

Os dois filmes são de seus realizadores tanto quanto de seus protagonistas. Não da pra pensar cada filme sem a contribuição preciosa dos atores Harvey Keitel (1992) e Nicolas Cage (2009). Aliás, enquanto assistia a primeira versão pensei comigo, por onde anda Harvey Keitel? No início da década de 90 ele deu boas contribuições aos filmes que participou: Cães de Aluguel (1992) e Pulp Fiction (1994), ambos de Quentin Tarantino, O Piano (1993), de Jane Campion, Cortina de Fumaça (1995), de Wayne Wang e Clockers (1995), de Spike Lee. Não espanta saber que Martin Scorsese elegeu o Vício Frenético de Abel Ferrara como um dos 10 melhores filmes da década de 90, afinal de contas o Bad Lieutenant de Harvey Keitel, em busca da redenção de sua alma, pode ser visto como a versão mais velha do personagem Charlie, de Caminhos Perigosos (1973) do próprio Scorsese, interpretado pelo mesmo Keitel. Imperdível!

OBS: Publicado em fevereiro de 2010 no site http://www.programapapodebuteco.com.br/

sábado, julho 17, 2010

Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009)


Enquanto os holofotes e a publicidade do filme Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino, valorizam a presença de Brad Pitt no elenco, deixamos a sala do cinema nos perguntando: quem é o sujeito que interpreta o oficial alemão apelidado de “Caçador de Judeus”? É o austríaco Christoph Waltz. O cara literalmente rouba a cena. Não foi à toa que recebeu, este ano, a Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes por sua atuação.

É impressionante o vigor com que Tarantino dirige todas as cenas do filme. São tão bem acabadas, decupadas, escritas, são tão únicas, que dariam todas, uma coleção de curtas metragens. Por mais que exista um eixo narrativo que agrupe todas as cenas, elas parecem existir independentes umas das outras. Tome a primeira cena como exemplo, uma verdadeira obra-prima.

Em um mercado desabituado a filmes falados em outra língua que não o inglês (vide o exemplo do que foi feito com os recentes Operação Valquíria (2008), de Bryan Singer, O leitor (2008), de Stephen Daldry e Um homem bom (2008), de Vicente Amorim), é louvável a coragem do diretor de escrever em alemão, francês e italiano e ainda assim fazer piadas do uso das mesmas. O próprio Christoph Waltz fala as quatro línguas. O diretor tem uma queda confessa pelo idioma francês, já que os franceses sempre o respeitaram e o reconhecem como um verdadeiro auteur. Não se trata de mera coincidência o fato da dona da sala de cinema no filme ser uma francesa.

Tarantino mais uma vez faz a alegria dos cinéfilos com seu mix de filme de guerra, western spaghetti, filmes de ação e comédia tresloucada e compartilha com o público seu gosto de fazer cinema recheando o filme de referências. Hitler como esse, apenas nos filmes de Ernst Lubitsch e Charles Chaplin. Mas não pense que o filme é uma comédia, só está repleto de humor, e dos bons.

OBS: Publicado em setembro de 2009 no site http://www.programapapodebuteco.com.br/