domingo, outubro 17, 2010

A polícia, o Estado, a população e Tropa de Elite 2


Pedro Aleixo, vice presidente de Costa e Silva em 1968, foi o único a recusar-se a assinar o AI 5. “O senhor teme que o presidente faça mal uso desse instrumento?” Respondeu: “Não. Eu temo o guarda da esquina. Quando a moral se deteriora a partir do presidente, ela contamina até o guarda. E este eu temo.”

O contexto era outro, é verdade, mas o raciocínio se aplica a qualquer situação que envolve abuso de poder.

Inácio Araújo, crítico da Folha de S. Paulo, escreveu um belíssimo post em seu blog a respeito de Tropa de Elite 2. Segue o link:

Acaba de sair em DVD um dos filmes italianos mencionados por ele que serviu de referência para a construção de Tropa de Elite 2: Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (1970), de Elio Petri. Ajuda a jogar mais lenha na fogueira.

sexta-feira, outubro 15, 2010

A França e seus fantasmas

Não faz nem cinco anos que a imprensa francesa relatava em seus noticiários - com uma boa dose de inconformismo - as queimas de carros que se passava em suas periferias. O movimento, que ficou conhecido como motim francês, trouxe à tona um fantasma que vez ou outra infla as publicações jornalísticas e que costuma servir de explicação reducionista para condutas injustificáveis: a xenofobia. Esse sentimento costuma vir associado a um problema, mais amplo e complexo, de ordem social.

O assunto voltou à pauta dos jornais nos últimos meses. Dessa vez, chamou a atenção da opinião pública internacional o caminho adotado pelo governo Francês, em caráter legal, de expulsar os ciganos de seu território e proibir o uso do véu islâmico em lugares públicos. Agora é oficial: a xenofobia está em vias de se tornar lei.

Eu já tive a oportunidade de visitar a França em duas ocasiões e como qualquer turista que conhece Paris pela primeira vez não há como não ficar impressionado com a riqueza e dimensão histórica da cidade: trata-se de um livro de história a céu aberto. Não deixa de ser irônico notar que a mesma terra que já deu luz a pensadores iluministas como Rousseau e Voltaire, responsáveis pelos valores difundidos pela Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade – se encontre hoje nesse beco sem saída de intenções e princípios equivocados. Do discurso formulado à prática, existe um abismo.

Como o espaço foi criado para se falar de cinema, a ideia é aproveitar esse gancho pra comentar brevemente quatro recentes produções francesas que dão voz a esses estrangeiros, imigrantes, desempregados, refugiados e marginalizados que povoam os grandes centros urbanos da França. Nenhum dos filmes trata especificamente dos episódios relatados no início dessa postagem, ainda assim, em todos, preconceito e desprezo são os sentimentos prevalecentes. Os quatro filmes oferecem um panorama bem realista do que é a França hoje em dia; em alguns a língua francesa soa estrangeira, tamanha a influência desses “novos cidadãos franceses”.


Entre os muros da escola (Entre le murs, 2008), de Laurent Cantet

Esqueça os filmes norte-americanos que abordam a relação professor-aluno num tom sentimentalista como Ao mestre com carinho (1967). O cineasta Laurent Cantet opta por um registro realista, semi documental, seguindo o dia-a-dia de um professor de uma escola da periferia de Paris e sua difícil tarefa de educar os jovens nos dias de hoje. Ao deixar a sessão de cinema, minha esposa, que já foi professora na periferia brasileira comentou: “No Brasil é bem pior”. Não duvido que seja, a questão é outra: em matéria de cinema não existe filme mais honesto, complexo, humano e denso do que este ao tratar uma jornada escolar. Não há concessões sentimentalistas, a realidade é dura. Quem dá as caras é a França multi étnica e racial. O professor não ensina apenas, ele também aprende.


O Profeta (Un Prophète, 2009), de Jaques Audiard

Um dos melhores filmes a que assisti no ano. A trama se passa em uma prisão francesa, onde curiosamente não há franceses como prisioneiros. Os internos são todos estrangeiros que se organizam de acordo com as suas crenças religiosas e brigam pelo controle de poder. A França é o palco dessas diferenças que são resolvidas por meio da violência. A improvável história de superação do jovem Malik e sua ascensão ao mundo do crime é tão apaixonante que desarma o espectador de qualquer resquício de preconceito. O filme dá voz àqueles que talvez tenham sido os protagonistas do motim francês. Duas cenas memoráveis: o primeiro assassinato em que Malik ganha a confiança do poderoso chefão do presídio e a matança em uma rua parisiense à luz do dia.


Bem vindo (Welcome, 2009), de Philippe Lioret

O mais sentimental dos quatro filmes, nem por isso o menos sério ou o menos urgente. Um jovem iraquiano refugiado tenta entrar na Inglaterra, através da Normandia, do jeito mais difícil: cruzando o Canal da Mancha a nado. Seu objetivo: reencontrar a jovem iraquiana por quem se apaixonou e que agora habita Londres junto à família na condição de imigrante. A relação que o filme constrói a partir da aproximação de Bilal, o refugiado, e Simon, um ex-campeão de natação francês, trilha caminhos inesperados. O filme mostra a ação opressiva do estado sobre os imigrantes e refugiados.


O pecado de Hadewijch (Hadewijch, 2009), de Bruno Dumont

O filme lida com o radicalismo religioso e suas possíveis consequências. Da aproximação entre uma católica fervorosa e um muçulmano fundamentalista brota uma relação improvável de interesses complementares. Mesmo se tratando do filme que menos se encaixa na proposta inicial, os passeios da câmera pela Paris ora rica, ora marginal, denunciam uma França fragmentada. Sob a superfície calma, paira um mundo em ebulição.
Próximo da França, na vizinha Bélgica, os irmãos Dardenne, Jean Pierre e Luc, também retratam as condições de vida dos imigrantes nos ótimos A Promessa (1996) e O silêncio de Lorna (2008). Imperdíveis!

domingo, setembro 26, 2010

Plan 9 from outer space (Edward D. Wood, Jr, 1958)


“You know, it's an interesting think when you consider...the Earth people, who can think, are so frightened by those who cannot: the dead.”

“Do you still believe it impossible we exist? You didn't actually think you were the only inhabited planet in the universe? How can any race be so stupid?”



A graça do filme de Edward D. Wood, Jr. vem, involuntariamente, do tom de seriedade que afeta toda a produção; as falas reproduzidas acima, e outras que compõem o filme, são proferidas como se estivéssemos em um filme de Ingmar Bergman.

Pra quem, como eu, que só conheceu o cinema de Edward D. Wood, Jr. depois do filme de Tim Burton, Ed Wood (1994), é praticamente impossível não sentir compaixão pelo realizador. Mesmo diante da tosquice das produções do diretor, ao invés de rejeitá-las, quero me aproximar delas, compreendê-las. É como se perdoasse seus excessos e falta de talento. O encontro entre Ed Wood e Orson Welles, idealizado no filme de Burton, amplifica esse sentimento.


Não sei se Ed Wood foi em vida tão caloroso, dedicado e apaixonado como a figura retratada por Tim Burton, no entanto, essa imagem dele que ganhou força com o filme de Burton é a que permanece conosco. Talvez se não houvesse Ed Wood, o filme, Ed Wood, o cineasta, estaria esquecido.


Bela Lugosi em Plan 9 from outer space, de Ed Wood

Ele tinha uma inabilidade tremenda para lidar com o material filmado. O tom empregado em seus filmes era raramente o mais apropriado. A cena em que Bela Lugosi, em Plan 9 from outer space, sai de casa lentamente e pega uma flor no jardim ao som do voice over

“The grief of his wife's death became greater and greater agony. The home they had so long shared together, became a tomb. A sweet memory of her joyous living. The sky to which she had once looked, was now only a covering for her dead body. The ever-beautiful flowers she had planted with her own hand, became nothing more than the lost roses of her cheeks. Confused by his great loss, the old man left that home, never to return again.”

Martin Landau (Bela Lugosi) e Johnny Depp (Ed Wood)
em Ed Wood, de Tim Burton
soa patética nas mãos do diretor, já em Ed Wood, resulta emotiva e delicada (pelo menos na minha memória!).

Deu até vontade de assistir Ed Wood!

terça-feira, setembro 21, 2010

Polícia, Adjetivo (Corneliu Poromboiu, 2009)



A intenção incial era de escrever um post sobre a França, os imigrantes e os filmes, ideia que não foi ainda de todo descartada. Aproveitando o assunto, mas focado no outro lado da história, resolvi me atualizar na onda de cinema romeno que tomou de assalto as últimas edições do festival de Cannes e que tem apresentado filmes bem conceituados. Até então, havia visto apenas 4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007), de Cristian Mungiu.

Fiquei chapado com Polícia, Adjetivo (2009), de Corneliu Poromboiu. As longas tomadas, as longas esperas, o tom minimalista, a câmera estática, os tempos mortos, tudo isso possibilita ao diretor recriar com precisão o ritmo de vida do cidadão romeno. As famosas instituições estatais herdadas do tempo do comunismo caberiam perfeitamente em um romance de Kafka. Não são poucos os momentos em que nos perguntamos se não estamos diante de um documentário. O filme faz jus a grande tradição do cinema documental do leste europeu ao registrar a peregrinação do protagonista pela cidade romena em que habita à procura de evidências que possam incriminar um provável distribuidor de drogas. O enredo, sintetizado acima, soa como um típico filme policial norte americano.

Na realidade, são as escolhas do diretor para a elaboração do roteiro que enriquecem a experiência do filme. O que parece fortuito ao longo da projeção, que inclusive fornece ao espectador uma boa dose de pistas falsas - com alguns momentos cômicos despretensiosos - aos poucos começa a fazer sentido, se encaixar, até culminar na longa cena final dentro da sala do chefe de polícia. É nela que se concentra a força do filme: ali se encontram a palavra e seu significado, a Romênia comunista e a Romênia contemporânea, o homem-indivíduo e o homem-cidadão. A direção não nos prepara para o desfecho sublime que o roteiro nos reserva; na verdade, isso potencializa o seu impacto. Um dos melhores filmes que eu vi neste ano.

quarta-feira, setembro 15, 2010

A Força do Mal (Abraham Polonsky, 1948)






Faz umas três semanas que assisti ao filme A Força do Mal (1948), de Abraham Polonsky e não consigo me desvencilhar das imagens reproduzidas acima. Elas recriam, praticamente, seus últimos minutos.

É curioso notar que o filme se passa basicamente dentro de interiores, sobretudo de salas, escritórios e restaurantes, onde a interação entre os personagens é construída. A tensão permanente que permeia a projeção se ampara nas interpretações, no famoso diálogo poético escrito à perfeição e na iluminação baixa e bem contrastada (esplêndido preto e branco). No entanto, somente quando o filme parte para as tomadas em locação, que não são muitas além dessas, captadas com todo o rigor geométrico que as imagens ilustram, é que o discurso do filme assume a dimensão proposta. Nelas, os personagens estão sempre posicionados em perspectiva em relação aos arranha céus e highlights de Nova York: o indivíduo aparece sempre esmagado por essas paisagens, que se mostram belas na forma, porém corruptas na essência.


O casting não poderia ser mais perfeito: John Garfiel, pequeno, magro, voraz e corrupto e Thomas Gomez, grande, gordo, sensível e honesto. Dois improváveis irmãos. P... filme!!!


domingo, setembro 12, 2010

Adieu Claude Chabrol: colaborador da Cahiers du Cinéma e fundador da Nouvelle Vague


(24/07/1930 - 12/09/2010)

O trecho abaixo foi extraído da Introdução do livro Hitchcock/Truffaut, Entrevistas (1966) com tradução de Rosa Freire d’Aguiar.

“Tudo começou com um tombo na água.

Durante o inverno de 1955, Alfred Hitchcock veio trabalhar em Joinville, no estúdio Saint-Maurice, na pós-sincronização de Ladrão de Casaca, cujas externas tinha filmado na Côte d’Azur. Meu amigo Claude Chabrol e eu resolvemos ir entrevistá-lo para o Cahiers du Cinéma. Tínhamos pedido emprestado um gravador para registrar a entrevista, que gostaríamos que fosse longa, precisa e fiel.

Estava bastante escuro naquele auditório onde Hitchcock trabalhava, enquanto na tela desfilava sem parar, como que rolando, uma cena curta do filme que mostrava Cary Grant e Brigitte Auber pilotando um barco a motor. No escuro, Chabrol e eu nos apresentamos a Alfred Hitchcock, que nos pede que o esperemos no bar do estúdio, do outro lado do pátio. Saímos, ofuscados pela luz do dia e, comentando com a empolgação de verdadeiros fanáticos por cinema as imagens hitchcockianas que víramos em primeira mão, dirigimo-nos, sempre em frente, para o bar que ficava logo ali, a quinze metros. Sem perceber, nós dois pulamos no mesmo passo a borda estreita de um laguinho congelado, da mesma cor cinza do asfalto do pátio. O gelo quebrou imediatamente e fomos para no fundo, com água até o peito, aparvalhados. Pergunto a Chabrol: “E o gravador?”. Ele ergue devagar o braço esquerdo e tira da água o aparelho, pingando.

Como num filme de Hitchcock, era uma situação sem saída: naquele laguinho inclinado, em declive muito suave, era impossível alcançarmos a beira sem escorregar de novo. Foi preciso a mão prestativa de um passante para nos tirar dali. Finalmente saímos, e uma roupeira, na certa com pena de nós, levou-nos para um camarim onde pudéssemos nos despir e secar as roupas. No caminho, disse-nos: “Puxa! Meus filhos, coitados! Vocês são figurantes de Rififi chez lês hommes?”. “Não senhora, somos jornalistas”. “Então, nesse caso, não posso cuidar de vocês!”

Portanto, foi tiritando dentro de nossas roupas encharcadas que minutos depois nos apresentamos diante de Alfred Hitchcock. Ele olhou para nós sem fazer comentários sobre nosso estado e propôs um novo encontro para aquela noite, no hotel Plaza Athénée. No ano seguinte, quando voltou a Paris, nos identificou de imediato, Chabrol e eu, no meio de um grupo de jornalistas parisienses, e nos disse: “Cavalheiros, penso em vocês toda vez que vejo pedras de gelo chocando-se num copo de uísque”.

Anos mais tarde eu seria informado de que Alfred Hitchcock havia floreado o incidente, enriquecendo-o com um final bem a seu jeito. Na versão Hitchcock, tal como ele a contava aos amigos de Hollywood, quando nos apresentamos depois do nosso tombo no laguinho Chabrol estava vestido de padre e eu de policial!”

sábado, agosto 28, 2010

Se nada mais der certo (José Eduardo Belmonte, 2008)



“A gente é educado pra não roubar, mas não é educado pra não ser roubado”

É uma tarefa difícil classificar o filme de José Eduardo Belmonte, Se nada mais der certo (2008), como bem reconheceu o próprio diretor no bate papo que rolou no Cine Cauim em Ribeirão Preto no programa Mostra Permanente de Cinema Brasileiro. Bem mais fácil é gostar do filme. O entrosamento do elenco é tão afinado e a escolha dos atores tão certeira que o que vemos na tela não são meras representações, mas sim a radiografia de seres humanos errantes vivendo uma situação limite.

Na contramão da avalanche de produções recentes que retratam apenas a pobreza do nosso país, o filme se presta a observar a classe média brasileira: desesperançada e órfã de um estado acolhedor. Lembra um pouco o clima instaurado pelo filme Terra Estrangeira (1996), de Walter Salles. Assistimos a uma dolorosa, ainda que bem humorada, reflexão sobre nosso tempo. A carga política nesse caso é mais presente, mas ainda assim o diretor consegue equilibrar bem sua influência sobre as relações afetivas que unem os personagens. Felizmente ela nunca se sobrepõe, e configura ainda o pano de fundo perfeito para aproximar indivíduos de realidades tão díspares.

Mais uma vez, toda ação perpetrada pelos personagens é decorrência do desespero, do estado anestésico, letárgico imposto pelo estado opressor. O trio protagonista - um jornalista falido, um motorista de taxi e uma golpista - parte para uma vida de pequenos delitos sem refletir sobre a decisão moral dessa escolha. Isso é compreensível, até justificável, uma vez que a massa corrupta que governa nosso país se vale da mesma moeda: aqui o diretor não economiza imagens e nem suaviza o discurso para denunciar essa prática. Essa moral, tão cara à consciência da nação, é jogada às traças em nome da sobrevivência. Bem como em Caçadores de Emoção (1991), o grande roubo do qual os protagonistas fazem parte é realizado com as máscaras dos presidentes Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, numa clara referência à corrupção dos seus mandatos.

Duas grandes cenas: a primeira quando o grupo desce a serra rumo à praia ao som de Little Wing, de Jimi Hendrix, e a segunda quando se dá o grande roubo ao som dos Saltimbancos. Em ambos é a música que dá o tom; na primeira alivia a tensão permanente que paira sobre os personagens e na segunda faz um comentário irônico elegante sobre aquilo que se vê.

Existem desempenhos tão marcantes de atores desconhecidos em início de carreira que nos levam a segui-los por todas as produções que trazem seus nomes nos créditos, mesmo que  sejam em filmes de reputação duvidosa. Desde o lançamento de Cinemas, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes, vimos o surgimento de um talento nato: João Miguel. Pra nossa sorte, o que veio depois disso foi só pra confirmar essa percepção. Como bem disse Belmonte, ele é o porto seguro da produção, o ator, mesmo jovem, mais experiente da turma.

Cauã Reymond, que sempre habitou o território seguro das telenovelas, prova mais uma vez, depois do excelente Falsa Loura (2008), que seu talento vai além do seu sex appeal. Novamente, o galã presta serviços valiosos ao seu personagem. A intenção inicial do diretor era contar com Reynaldo Gianecchini; sem sombra de dúvidas, o filme ganhou com a sua ausência.

Por fim, a novata Caroline Abras. O personagem dela é o elemento central da trama, o pivô de toda a ação que se passa no submundo do crime. Ela é o coração do filme, carrega consigo toda a inocência perdida. Grande elenco, grande filme.

domingo, agosto 22, 2010

Adventureland (Greg Mottola, 2009)



Depois que John Hughes (Gatinhas e Gatões, O Clube dos Cinco, Mulher Nota 1000, Curtindo a Vida Adoidado) reinventou a adolescência na década de 80, retratando seus sonhos, angústias e comportamentos, virou praxe associar esse período de nossas vidas aos filmes criados por esse diretor. De fato, nos vemos refletidos em seus personagens. Esses registros foram tão fortes que serviram de molde para tudo o que foi produzido a partir de então. A indústria cinematográfica descobria um nicho de mercado a ser explorado e um público ávido por se ver retratado nas telas.

Desde então, pululam nos cinemas produções - em tom mais infantil - retratando esse período, e vez ou outra surge nas telas algum filme digno de consideração e respeito. Em sua segunda incursão pelo território arenoso da adolescência Greg Mottola, do ótimo Superbad (2007), dirige Frustadas Férias de Verão (Adventureland, 2009), que saiu direto em DVD. Aproveitando-se da contribuição de Hughes para o gênero, ele ambienta seu longa no ano de 1987, recheia a trilha sonora de músicas que marcaram o imaginário de toda uma geração e conduz um elenco juvenil com maestria. Não acrescenta nada de novo ao assunto, mas o trata com honestidade. Nada de mortes repentinas, sustos forçados e sexo, drogas e rock n’roll. Pensando bem, talvez uma dose comedida dos três últimos, suficiente para apimentar a trama e aflorar em seus personagens paixões enrustidas e declarações contundentes.

A ação se passa dentro desse parque de diversões chamado Adventureland, que bem poderia ser uma escola, ou um desses acampamentos de verão. Nesse parque, ao contrário do que somos levados a intuir, os personagens se encontram para trabalhar não para se divertir, mesmo estando em período de férias escolares. Ninguém está lá porque quer, e sim porque precisa. O trabalho surge da falta de opção, como um meio de se ocupar do tempo à espera da próxima estação. O tempo presente, moribundo, soa passado. A célebre frase de John Lennon “Life is what happens to you while you’re busy making other plans” parece traduzir bem o clima que toma conta do filme.

O tom meio amargo da produção, o tédio, os dias cinzentos, a condição depredada do próprio parque, nada disso impede que a graça emane dos seus personagens. Mesmo nesse estado indolente, são as emoções humanas em todas as suas formas que assumem o papel principal. Ama-se, chora-se, odeia-se, ri-se. Apesar do caráter melancólico da minha escrita o filme é divertidíssimo, tanto que os personagens rezam para o tempo passar logo enquanto a platéia roga pela sua permanência.

Acredito que desde John Hughes não surge nada tão interessante quanto esse filme. Mesmo o mentor de Greg Mottola, o diretor e produtor Judd Apatow, com seu talento incontestável, não produziu nada à altura de Adventureland.

sábado, agosto 14, 2010

A Origem (Chirstopher Nolan, 2010)



Difícil permanecer indiferente ao impacto causado pela sessão de A Origem (2010), de Christopher Nolan. Com poucos minutos de projeção somos introduzidos a complexa dinâmica de interações que rege o “mundo dos sonhos”: suas multicamadas, sua lógica própria, seu indecifrável enigma. Logo na primeira cena tudo que interessa aos personagens e ao espectador já está em jogo: o sonho, o real, o tormento, a esposa, os filhos. À medida que o filme avança esses elementos se embaralham, se confundem, se sobrepõem. Quem espera que eles se organizem, se expliquem ou se justifiquem deve se frustrar; a intenção não é esclarecer e sim plantar a semente da dúvida. O que atormenta os personagens passa a atormentar o espectador: quando começa o sonho e termina a realidade, ou, quando termina o sonho e começa a realidade?

Sabe-se que o diretor levou dez anos pra transformar essa história em objeto fílmico, e honestamente, considerando todos os detalhes de produção – escrever a história, estabelecer a sua lógica, a interação entre os personagens, convencer os executivos a bancar o projeto, o processo de filmagem, a edição minuciosa de som e imagem - e o resultado que se vê na tela, era de se esperar que o tempo fosse maior, tamanha a riqueza de detalhes e a quantidade de interpretações que o filme sugere. Mesmo quem não está muito habituado a perceber ou notar o caráter manipulador de um diretor sobre um filme, aqui ele se escancara e expõe todas as suas entranhas.

A história é sobre Dom Cobb (Leonardo di Caprio), sujeito que, profissionalmente, se utiliza da tecnologia e drogas para se infiltrar nos sonhos de outras pessoas e, pessoalmente, se encontra em crise por causa da culpa pela morte da sua mulher (Marion Cotillard). Por ser considerado o suspeito de tê-la matado, ele foge dos EUA largando os dois filhos sem que possa vê-los antes de provar a sua inocência.

A fim de realizar um trabalho que permita seu regresso aos EUA e a seus filhos, ele aceita a proposta de um milionário japonês (Ken Watanabe) que promete livrar a sua cara, contanto que ele “convença” o herdeiro do seu principal concorrente (Cillian Murphy) a partilhar seu império. Acostumado a penetrar nos sonhos alheios para roubar segredos e ideias, dessa vez a tarefa será inversa: inserir uma ideia na mente de outra pessoa. Como melhor explica o filme, esse trabalho é mais complicado do que o habitual e requer um time capacitado para realizá-lo; todos desempenham um papel relevante na história e cada qual tem a sua carga de responsabilidade nesse plano engenhoso.

Conforme sugere essa breve descrição é possível perceber que boa parte da projeção se passa dentro do “mundo dos sonhos”. É louvável e digno de nota o esforço do diretor para tornar crível esse mundo que nos assombra: aqui a tecnologia merece um capítulo a parte e seu emprego deveria servir de base para todos esses exemplos recentes de filmes em 3D que se utilizam desse recurso de maneira inócua. A cena em que todo o esplendor desse “mundo” se mostra em toda a sua magnitude se dá quando a personagem de Ellen Page, Ariadne, intitulada “arquiteta dos sonhos”, caminha pelas ruas de Paris ao lado de Leonardo di Caprio e transforma a paisagem urbana conforme suas projeções mentais. Ela vira a Cidade Luz, literalmente, de cabeça para baixo.

Mesmo se tratando do mundo sonhado, o filme não se apresenta como um registro onírico, que é próprio dos sonhos, ele se assemelha mais a uma realidade manipulada, fruto da imaginação do diretor Christopher Nolan. Isso enfraquece o efeito que o filme desperta sobre nós. Tudo se mostra tão bem calculado, arquitetado, que a noção de sonho, ao menos da forma como o conhecemos, se dissipa. Acreditamos “estar nos sonhos” porque os personagens o dizem, não porque “o reconhecemos”.

Essa materialização dos sonhos, ou representação da mente, se encontra bem presente na produção contemporânea, especialmente nos filmes roteirizados por Charlie Kaufman: Quero ser John Malkovich (1999), de Spike Jonze, Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004), de Michel Gondry e Sinédoque, Nova York (2008), do próprio Kaufman. A mente configura seu material fílmico por excelência; não basta filmar uma pessoa atormentada, é preciso dar forma a esse tormento. O caos instaurado e materializado na mente do personagem de Jim Carrey em Brilho Eterno é muito semelhante ao de Don Cobb em A Origem. Outro exemplo bem acabado é Matrix (1999), dos Irmãos Wachowski.

O cinema sempre flertou com a ideia de sonho e sempre houve grandes diretores que ficaram reconhecidos por explorar esse universo com desenvoltura: Luis Buñuel, Jean Cocteau, Alfred Hitchcock, Federico Fellini, Alan Resnais e David Lynch. Em boa parte de seus filmes a impressão de se estar em um sonho é recorrente: imagens desconexas, impactantes e incongruentes. Não existe uma razão aparente que justifique o agrupamento das cenas na ordem sugerida, daí que esses filmes resultem semelhantes a “experiência sonhada”.

Talvez o filme de Christopher Nolan não resulte em uma “experiência sonhada” autêntica; como já disse, existem exemplos mais bem acabados; no entanto, como gênero policial, pode-se dizer que o filme o subverte. É tudo tão original que se torna difícil classificar o filme. Se não fosse pelo excesso de explicações para justificar o paradeiro dos personagens – talvez necessário para se criar a ilusão de uma obra perfeita, bem amarrada – o filme ganharia mais fôlego pra trabalhar a emoção do espectador. Esse controle obsessivo pelo produto acabado anestesia qualquer manifestação emotiva.

domingo, agosto 08, 2010

Bate papo com Sergio Rezende



Imperdível! Não existe termo mais adequado para definir a sessão de Salve Geral (2009) na última quarta feira, 24 de fevereiro, no Cine Cauim, como parte do programa Mostra Permanente de Cinema Brasileiro na parceria do SESC de Ribeirão Preto com o Cineclube Cauim.

Eu não contei, mas acredito que havia mais de duzentas pessoas no auditório. Dava gosto de ver a sala repleta de gente. Contribuiu para esse número a presença do diretor do filme, Sergio Rezende, que ficou após a projeção para um bate papo com a platéia.

Particularmente gosto muito dessas experiências, já que me permitem entender um pouco das escolhas, dificuldades e motivações que levaram o autor a tocar adiante o seu projeto. Essa interação da platéia com o diretor de um filme é tão rara que, de todas as poucas vezes que tive a oportunidade de presenciar esse momento, nunca hesitei em faltar. É importante notar que no Cauim, como todas as sessões são gratuitas, o público que comparece nada tem a ver com os freqüentadores de cinema dos shoppings e afins. São pessoas que não tem o hábito de assistir aos filmes em tela grande, e normalmente o universo cinematográfico que lhes é familiar é o dos programas de fim de noite ou de final de semana da TV aberta, ou seja, basicamente o cinemão hollywoodiano. Filmes que normalmente não se prestam muito a reflexão.

Nessas circunstâncias, podemos enxergar de perto o que os filmes podem fazer pela vida das pessoas. Durante o bate papo um jovem sentado ao meu lado pediu o microfone e disse, “estou chocado, acabei de levar um soco na cara, no Brasil são duas facções (referência ao PCC retratado no filme e a polícia corrupta)... eu não vou matar, não vou roubar, vou tratar de estudar”. Depois desse comentário, passei a enxergar o filme sob outra perspectiva.

Fui conduzido pelas mãos do diretor Sergio Rezende e me concentrei no drama da mãe, interpretada pela ótima Andrea Beltrão, até mais do que na primeira vez que vi o filme. O filho, que é levado a cometer um crime involuntário e vai preso, me parecia apenas mais um jovem perdido, desocupado, sem perspectivas. Só depois do bate papo, me dei conta de que o filme só existe como conseqüência do crime praticado pelo filho. Vê quem quer.

OBS: Publicado em fevereiro de 2010 no site http://www.programapapodebuteco.com.br/