terça-feira, novembro 30, 2010

Os amantes de Pont Neuf (Leos Carax, 1991)



Nem mesmo depois do lançamento recente do longa metragem Os amantes de Pont Neuf pela ótima distribuidora de DVDs Lume Filmes eu me interessei por ele a ponto de querer assisti-lo. Confesso que ele nunca me despertou tanto a atenção assim. Não sei dizer exatamente o motivo, talvez seja a capa do DVD com uma foto pouco inspirada ou o Pont Neuf do título – não é um nome que soa muito bem, convenhamos, ainda que se trate da mais antiga ponte de Paris! Tantos são os filmes que levam amantes em seus nomes... Talvez depois do excepcional filme do James Gray no ano passado, Amantes, achei que não havia mais nada a acrescentar ao assunto. Não sei... o fato é que no meu ranking de prioridades sempre havia outro filme “mais interessante” a ser apreciado.

Felizmente o ciclo de cinefilia proposto pelo Belas Artes nesse mês de novembro resgatou a carreira da atriz Juliette Binoche promovendo a exibição de quatro filmes dessa grande atriz, dentre os quais Os amantes... Calhou de eu estar de passagem por São Paulo na semana de exibição do filme (pra ver o show do Paul McCartney) e não resisti aos encantos da proposta: assisti-lo em película de 35mm.

Bendito seja o programador do ciclo! Meu pré-julgamento novamente se mostrou infundado. Essas descobertas – pelo menos da minha parte – revigoram meu entusiasmo pela sétima arte. Em 1991, ano em que o filme foi lançado, meu universo cinematográfico girava em torno apenas do que se passava no cinema norte-americano, dessa forma, referência de qualidade era sinônimo de Oscars. Tudo que se encontrava fora desse mundo eu desconhecia. Foi a Lume Filmes e sua fantástica coleção de títulos em DVD que me apresentou esse filme. Hoje me pergunto, porque demorei tanto para assisti-lo?

Só depois de vê-lo é possível compreender o culto que se faz a ele. Basicamente se trata do encontro entre dois seres errantes que se tornam amantes de maneira bastante improvável e experimentam situações dignas dos melhores sonhos. Não há espaço para a razão, quem dita a regra é a emoção. O enredo é bastante simples, a força do filme advém das inventivas imagens criadas por seu diretor, Leos Carax.

Depois de um início de cunho documental, com imagens fortes e bastante sóbrias o filme muda de registro - que será adotado pelo resto da projeção - a partir da famosa cena onírica em que a garrafa aparece maior do que os personagens (imagem reproduzida acima - Juliette Binoche e Denis Lavant). Daí em diante basta embarcar na loucura dos amantes de Pont Neuf e se deliciar com a Paris em festa de Leos Carax.

Duas observações: 1. sem esse filme não haveria Spike Jonze, Michel Gondry e Charlie Kaufman e 2. o final recria a melhor cena da fantástica obra-prima francesa L’Atalante (1931), de Jean Vigo.

Filmaço!

terça-feira, novembro 16, 2010

A arte de mostrar x A arte de ocultar


A decisão para a escolha dos filmes que fazem parte do quadro Sessão Pipoca do Programa Papo de Buteco é normalmente pautada pelos lançamentos cinematográficos de cunho mais comercial das salas de cinema de Ribeirão Preto. Vez ou outra partimos para um plano de seleção alternativo, já que nem sempre a matéria para as nossas discussões se encontra nos filmes em cartaz. Às vezes, recorremos aos DVDs.

Fiquei bastante satisfeito quando o Gilles sugeriu que o assunto a ser abordado no próximo programa fosse de caráter político – fomos afinal de contas recém libertados de uma exaustiva campanha eleitoral - e pra representar esse tema elegeu o documentário de João Moreira Salles, Entreatos (2004). Em pouco mais de um ano de Papo de Buteco - se a memória não me falha - este será o primeiro documentário a integrar a nossa programação. Além de o filme ser brasileiro, o que sempre me agrada em nossas discussões, acredito não haver titulo mais apropriado para o momento. Mesmo que eu já o tenha visto sei que meus colegas ainda não o viram, bem como a grande maioria dos telespectadores.

Coincidentemente, no dia em que definimos a programação, a TV Cultura passou logo após o programa Roda Viva (o entrevistado era o psicólogo Contardo Calligaris) o último documentário do lendário Robert Drew, A President to Remember (2008) – uma coleção de imagens de seus filmes que tiveram JFK como objeto. Mesmo sendo tarde não consegui desgrudar da televisão antes que o filme terminasse. Robert Drew e seus colaboradores, Albert Maysles (Grey Gardens, 1975) e D.A.Peenebaker (Don’t Look Back, 1967), revolucionaram o gênero documentário a partir do lançamento de Primárias (1960). Neste belo trabalho ele e sua equipe seguiram bem de perto as campanhas primárias norte americanas que levariam o candidato democrata John F. Kennedy à presidência dos EUA. Foi a partir da influência desse filme que João Moreira Salles resolveu documentar a rotina do então candidato Luis Inácio Lula da Silva um mês antes das eleições presidenciais de 2002.

Com a memória ainda fresca da campanha presidencial brasileira somada a experiência proporcionada por esses belos documentários fica uma lição preciosa: sempre desconfie do que vir. Os 50 anos que separam esses episódios, que coincidem com o período em que a televisão reinou absoluta, evidenciam a crescente banalização do uso da imagem. Foi-se o tempo em que a imagem era sagrada: uma vez captada e transmitida não havia porque duvidar da sua existência. O seu conteúdo não era questionado. Hoje parece não existir compromisso com o espectador; vale tudo, inclusive ludibriar o público. Atualmente, não há como enxergar os políticos senão como fantoches de publicitários que moldam seus produtos de acordo com a necessidade da clientela.

Ao gravar as imagens para a produção dos seus documentários Robert Drew e sua equipe se propuseram a não interferir no processo de filmagem, apenas registrar o que se passava diante dos seus olhos – nesse caso, a câmera. Isso conferiu ao material um grau de autenticidade jamais alcançado. John F. Kennedy não interagia com a câmera, nem parecia se dar conta da sua presença. Lembremos que em 1960 a TV não era a mídia predominante, o rádio ainda ditava as regras. O marketing visual engatinhava, surgiria depois dessa campanha. Hoje o registro da imagem já não é mais de domínio exclusivo da mídia, até os celulares dispõem de câmeras digitais. Em Entreatos, o candidato Lula interage diversas vezes com a câmera, se dirige a ela, conversa com o espectador. Sua persona foi desde sempre moldada pela TV. Ao longo da sua carreira política ele “interpretou vários Lulas”. Em 2002, especialmente, a despeito de suas inegáveis virtudes como orador e líder, talvez tivesse sido impossível alcançar o posto máximo da carreira política sem os floreios de linguagem, postura e imagem proporcionados pela assessoria de marketing de sua campanha. O Lula do discurso ríspido, extremo e radical deu espaço ao famoso “Lulinha paz e amor”.

Existe uma ótima cena em Entreatos, esclarecedora da influência do marketing sobre os processos eleitoreiros, em que acompanhamos os bastidores de um debate televisivo. Enquanto os candidatos se digladiam na arena montada pela emissora de TV, os assessores de Lula monitoram as reações de um grupo de eleitores de tal forma que a sua conduta ao longo do programa sempre corresponda aos anseios deles. Supondo que esses eleitores representem a grande maioria dos telespectadores, a ideia é que o candidato se comporte sempre de modo a agradar o público. Isso contribui para esvaziar o conteúdo do discurso e valorizar a encenação do protagonista.

Em tom mais saudosista e muito bem humorado O último hurrah (1958), de John Ford, acompanha a última eleição de um candidato que não compreende mais as mudanças pela qual o mundo passa. O filme já anunciava o que as campanhas viriam a se tornar.

sexta-feira, novembro 05, 2010

34ª Mostra de Cinema Internacional em São Paulo

Apesar de dispor de apenas três dias para usufruir das centenas de opções que a Mostra de São Paulo oferecia, acredito ter feito boas escolhas durante o feriado de finados. Acabei completando a programação com alguns filmes em cartaz que certamente não chegarão aos cinemas de Ribeirão Preto. Meu único critério foi evitar filmes mais óbvios que já haviam garantido suas distribuições no circuito brasileiro. Ainda assim, como sempre, aquela sensação de que teria sido possível encaixar alguma coisa a mais na programação permanece. Fica pro ano que vem.

Arcadia Lost (2010), de Phedon Papamichael (GRÉCIA)

Parece-me uma boa idéia - não necessariamente nova - que não recebeu um tratamento à altura. Apesar de o diretor ser o fotógrafo de vários sucessos recentes – Sideways, À procura da felicidade, Johnny & June, etc – é no trabalho de câmera que o filme peca ao não conseguir criar a atmosfera requerida para dar conta do recado. Dá pena ver Nick Nolte se esforçando para tentar conferir alguma credibilidade ao filme. Em vão.

Eu matei minha mãe (2009), de Xavier Dolan (CANADÁ)*

Estréia promissora do jovem canadense Xavier Dolan como protagonista, escritor e diretor aos 22 anos. Apesar dos excessos do seu estilo um tanto quanto afetado, o filme é forte e constrói uma densa relação conturbada entre mãe e filho. Provavelmente será o filme a ser adotado pela geração dos anos 90. Obrigatório para toda a família. A Mostra trazia o segundo filme de Dolan, Os amores imaginários (2010), mas resolvi aguardar a sua estréia em circuito comercial.

O último cartucho (1917), de John Ford (EUA)

Esse deve ter um post só pra ele

Contos da Era Dourada (2009), de Cristian Mungiu e outros (ROMÊNIA)*

Esses romenos me surpreendem cada vez mais. São seis episódios dirigidos por Mungiu – 4 meses, 3 semanas e 2 dias - e seus convidados a partir de “lendas” da época de Nicolau Ciaucesco. Os episódios são filmados em tom bem alto astral, debochado e irônico. Os dois primeiros – das garrafas e das galinhas – terminam em tom amargo. Nenhum dos seis questiona a causa de forma direta; as pessoas não tinham escolha, elas simplesmente tentavam sobreviver sob o regime. Hilário. Lembra um pouco os filmes de Emir Kusturica.

Memórias de Xangai (I wish I knew, 2010), de Jia Zhang-Je (CHINA)

Toda vez que assisto a um filme de Jia me dá uma vontade tremenda de conhecer a China. Ninguém filma a China como ele. Ninguém filma os chineses como ele. Esse é o típico filme formatado para ser visto no cinema. Não cabe na tela da TV. Uma pena que eu não tenha conseguido ver o documentário China (1972), de Michelangelo Antonioni. Também fazia parte da Mostra. Os dois devem formar um díptico perfeito.

Caterpillar (2010), de Kôji Wakamatsu (JAPÃO)

O Japão e seus demônios da Segunda Guerra Mundial. O filme é sufocante ao extremo, o diretor não poupa o espectador. Não é pra menos: um combatente volta da guerra sem braços, pernas, surdo e mudo. Sobrevive sob os cuidados da esposa que é pressionada pelo povoado a exercer suas funções domésticas: dar de comer, de beber e fazer sexo. O resultado é surpreendente.

Aurora (2010), de Cristi Puiu (ROMÊNIA)

Mais um romeno. O tom minimalista de Polícia, Adjetivo (2009) prevalece. Confesso que as três horas de duração afetaram meu juízo tanto que dei uma avaliação regular, 2 – a Mostra convida seus espectadores a avaliar os filmes selecionados, de 1 a 5, na saída das sessões. Um dia depois, o filme não sai da minha cabeça. Quem filma uma cena em que uma senhora descasca dez batatas sem cortes de filmagem? Em casa talvez eu tivesse assistido ao filme em capítulos, o que prejudicaria a percepção do tempo que ele tanto preza. Não sei se assistiria de novo, mas gostei da experiência.

Um homem que grita (2010), Mahamat-Saleh Haroun (CHADE)

Uma grande descoberta. Filme com cara de pequeno, aparentemente simples e com poucos personagens em cena. Com limitados recursos em mãos e um talento enorme para sugerir que se veja além daquilo que é mostrado, o drama de uma família do Chade representa o drama do continente africano. Chora-se não pelo filho que o pai perdeu, mas pelos filhos que a África perdeu e pelos filhos que há de perder. O horror, o horror.

* Filmes que estavam em cartaz em São Paulo

Parabéns aos organizadores da Mostra. Do pouco que consegui acompanhar, a organização estava impecável.

domingo, outubro 17, 2010

A polícia, o Estado, a população e Tropa de Elite 2


Pedro Aleixo, vice presidente de Costa e Silva em 1968, foi o único a recusar-se a assinar o AI 5. “O senhor teme que o presidente faça mal uso desse instrumento?” Respondeu: “Não. Eu temo o guarda da esquina. Quando a moral se deteriora a partir do presidente, ela contamina até o guarda. E este eu temo.”

O contexto era outro, é verdade, mas o raciocínio se aplica a qualquer situação que envolve abuso de poder.

Inácio Araújo, crítico da Folha de S. Paulo, escreveu um belíssimo post em seu blog a respeito de Tropa de Elite 2. Segue o link:

Acaba de sair em DVD um dos filmes italianos mencionados por ele que serviu de referência para a construção de Tropa de Elite 2: Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (1970), de Elio Petri. Ajuda a jogar mais lenha na fogueira.

sexta-feira, outubro 15, 2010

A França e seus fantasmas

Não faz nem cinco anos que a imprensa francesa relatava em seus noticiários - com uma boa dose de inconformismo - as queimas de carros que se passava em suas periferias. O movimento, que ficou conhecido como motim francês, trouxe à tona um fantasma que vez ou outra infla as publicações jornalísticas e que costuma servir de explicação reducionista para condutas injustificáveis: a xenofobia. Esse sentimento costuma vir associado a um problema, mais amplo e complexo, de ordem social.

O assunto voltou à pauta dos jornais nos últimos meses. Dessa vez, chamou a atenção da opinião pública internacional o caminho adotado pelo governo Francês, em caráter legal, de expulsar os ciganos de seu território e proibir o uso do véu islâmico em lugares públicos. Agora é oficial: a xenofobia está em vias de se tornar lei.

Eu já tive a oportunidade de visitar a França em duas ocasiões e como qualquer turista que conhece Paris pela primeira vez não há como não ficar impressionado com a riqueza e dimensão histórica da cidade: trata-se de um livro de história a céu aberto. Não deixa de ser irônico notar que a mesma terra que já deu luz a pensadores iluministas como Rousseau e Voltaire, responsáveis pelos valores difundidos pela Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade – se encontre hoje nesse beco sem saída de intenções e princípios equivocados. Do discurso formulado à prática, existe um abismo.

Como o espaço foi criado para se falar de cinema, a ideia é aproveitar esse gancho pra comentar brevemente quatro recentes produções francesas que dão voz a esses estrangeiros, imigrantes, desempregados, refugiados e marginalizados que povoam os grandes centros urbanos da França. Nenhum dos filmes trata especificamente dos episódios relatados no início dessa postagem, ainda assim, em todos, preconceito e desprezo são os sentimentos prevalecentes. Os quatro filmes oferecem um panorama bem realista do que é a França hoje em dia; em alguns a língua francesa soa estrangeira, tamanha a influência desses “novos cidadãos franceses”.


Entre os muros da escola (Entre le murs, 2008), de Laurent Cantet

Esqueça os filmes norte-americanos que abordam a relação professor-aluno num tom sentimentalista como Ao mestre com carinho (1967). O cineasta Laurent Cantet opta por um registro realista, semi documental, seguindo o dia-a-dia de um professor de uma escola da periferia de Paris e sua difícil tarefa de educar os jovens nos dias de hoje. Ao deixar a sessão de cinema, minha esposa, que já foi professora na periferia brasileira comentou: “No Brasil é bem pior”. Não duvido que seja, a questão é outra: em matéria de cinema não existe filme mais honesto, complexo, humano e denso do que este ao tratar uma jornada escolar. Não há concessões sentimentalistas, a realidade é dura. Quem dá as caras é a França multi étnica e racial. O professor não ensina apenas, ele também aprende.


O Profeta (Un Prophète, 2009), de Jaques Audiard

Um dos melhores filmes a que assisti no ano. A trama se passa em uma prisão francesa, onde curiosamente não há franceses como prisioneiros. Os internos são todos estrangeiros que se organizam de acordo com as suas crenças religiosas e brigam pelo controle de poder. A França é o palco dessas diferenças que são resolvidas por meio da violência. A improvável história de superação do jovem Malik e sua ascensão ao mundo do crime é tão apaixonante que desarma o espectador de qualquer resquício de preconceito. O filme dá voz àqueles que talvez tenham sido os protagonistas do motim francês. Duas cenas memoráveis: o primeiro assassinato em que Malik ganha a confiança do poderoso chefão do presídio e a matança em uma rua parisiense à luz do dia.


Bem vindo (Welcome, 2009), de Philippe Lioret

O mais sentimental dos quatro filmes, nem por isso o menos sério ou o menos urgente. Um jovem iraquiano refugiado tenta entrar na Inglaterra, através da Normandia, do jeito mais difícil: cruzando o Canal da Mancha a nado. Seu objetivo: reencontrar a jovem iraquiana por quem se apaixonou e que agora habita Londres junto à família na condição de imigrante. A relação que o filme constrói a partir da aproximação de Bilal, o refugiado, e Simon, um ex-campeão de natação francês, trilha caminhos inesperados. O filme mostra a ação opressiva do estado sobre os imigrantes e refugiados.


O pecado de Hadewijch (Hadewijch, 2009), de Bruno Dumont

O filme lida com o radicalismo religioso e suas possíveis consequências. Da aproximação entre uma católica fervorosa e um muçulmano fundamentalista brota uma relação improvável de interesses complementares. Mesmo se tratando do filme que menos se encaixa na proposta inicial, os passeios da câmera pela Paris ora rica, ora marginal, denunciam uma França fragmentada. Sob a superfície calma, paira um mundo em ebulição.
Próximo da França, na vizinha Bélgica, os irmãos Dardenne, Jean Pierre e Luc, também retratam as condições de vida dos imigrantes nos ótimos A Promessa (1996) e O silêncio de Lorna (2008). Imperdíveis!

domingo, setembro 26, 2010

Plan 9 from outer space (Edward D. Wood, Jr, 1958)


“You know, it's an interesting think when you consider...the Earth people, who can think, are so frightened by those who cannot: the dead.”

“Do you still believe it impossible we exist? You didn't actually think you were the only inhabited planet in the universe? How can any race be so stupid?”



A graça do filme de Edward D. Wood, Jr. vem, involuntariamente, do tom de seriedade que afeta toda a produção; as falas reproduzidas acima, e outras que compõem o filme, são proferidas como se estivéssemos em um filme de Ingmar Bergman.

Pra quem, como eu, que só conheceu o cinema de Edward D. Wood, Jr. depois do filme de Tim Burton, Ed Wood (1994), é praticamente impossível não sentir compaixão pelo realizador. Mesmo diante da tosquice das produções do diretor, ao invés de rejeitá-las, quero me aproximar delas, compreendê-las. É como se perdoasse seus excessos e falta de talento. O encontro entre Ed Wood e Orson Welles, idealizado no filme de Burton, amplifica esse sentimento.


Não sei se Ed Wood foi em vida tão caloroso, dedicado e apaixonado como a figura retratada por Tim Burton, no entanto, essa imagem dele que ganhou força com o filme de Burton é a que permanece conosco. Talvez se não houvesse Ed Wood, o filme, Ed Wood, o cineasta, estaria esquecido.


Bela Lugosi em Plan 9 from outer space, de Ed Wood

Ele tinha uma inabilidade tremenda para lidar com o material filmado. O tom empregado em seus filmes era raramente o mais apropriado. A cena em que Bela Lugosi, em Plan 9 from outer space, sai de casa lentamente e pega uma flor no jardim ao som do voice over

“The grief of his wife's death became greater and greater agony. The home they had so long shared together, became a tomb. A sweet memory of her joyous living. The sky to which she had once looked, was now only a covering for her dead body. The ever-beautiful flowers she had planted with her own hand, became nothing more than the lost roses of her cheeks. Confused by his great loss, the old man left that home, never to return again.”

Martin Landau (Bela Lugosi) e Johnny Depp (Ed Wood)
em Ed Wood, de Tim Burton
soa patética nas mãos do diretor, já em Ed Wood, resulta emotiva e delicada (pelo menos na minha memória!).

Deu até vontade de assistir Ed Wood!

terça-feira, setembro 21, 2010

Polícia, Adjetivo (Corneliu Poromboiu, 2009)



A intenção incial era de escrever um post sobre a França, os imigrantes e os filmes, ideia que não foi ainda de todo descartada. Aproveitando o assunto, mas focado no outro lado da história, resolvi me atualizar na onda de cinema romeno que tomou de assalto as últimas edições do festival de Cannes e que tem apresentado filmes bem conceituados. Até então, havia visto apenas 4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007), de Cristian Mungiu.

Fiquei chapado com Polícia, Adjetivo (2009), de Corneliu Poromboiu. As longas tomadas, as longas esperas, o tom minimalista, a câmera estática, os tempos mortos, tudo isso possibilita ao diretor recriar com precisão o ritmo de vida do cidadão romeno. As famosas instituições estatais herdadas do tempo do comunismo caberiam perfeitamente em um romance de Kafka. Não são poucos os momentos em que nos perguntamos se não estamos diante de um documentário. O filme faz jus a grande tradição do cinema documental do leste europeu ao registrar a peregrinação do protagonista pela cidade romena em que habita à procura de evidências que possam incriminar um provável distribuidor de drogas. O enredo, sintetizado acima, soa como um típico filme policial norte americano.

Na realidade, são as escolhas do diretor para a elaboração do roteiro que enriquecem a experiência do filme. O que parece fortuito ao longo da projeção, que inclusive fornece ao espectador uma boa dose de pistas falsas - com alguns momentos cômicos despretensiosos - aos poucos começa a fazer sentido, se encaixar, até culminar na longa cena final dentro da sala do chefe de polícia. É nela que se concentra a força do filme: ali se encontram a palavra e seu significado, a Romênia comunista e a Romênia contemporânea, o homem-indivíduo e o homem-cidadão. A direção não nos prepara para o desfecho sublime que o roteiro nos reserva; na verdade, isso potencializa o seu impacto. Um dos melhores filmes que eu vi neste ano.

quarta-feira, setembro 15, 2010

A Força do Mal (Abraham Polonsky, 1948)






Faz umas três semanas que assisti ao filme A Força do Mal (1948), de Abraham Polonsky e não consigo me desvencilhar das imagens reproduzidas acima. Elas recriam, praticamente, seus últimos minutos.

É curioso notar que o filme se passa basicamente dentro de interiores, sobretudo de salas, escritórios e restaurantes, onde a interação entre os personagens é construída. A tensão permanente que permeia a projeção se ampara nas interpretações, no famoso diálogo poético escrito à perfeição e na iluminação baixa e bem contrastada (esplêndido preto e branco). No entanto, somente quando o filme parte para as tomadas em locação, que não são muitas além dessas, captadas com todo o rigor geométrico que as imagens ilustram, é que o discurso do filme assume a dimensão proposta. Nelas, os personagens estão sempre posicionados em perspectiva em relação aos arranha céus e highlights de Nova York: o indivíduo aparece sempre esmagado por essas paisagens, que se mostram belas na forma, porém corruptas na essência.


O casting não poderia ser mais perfeito: John Garfiel, pequeno, magro, voraz e corrupto e Thomas Gomez, grande, gordo, sensível e honesto. Dois improváveis irmãos. P... filme!!!


domingo, setembro 12, 2010

Adieu Claude Chabrol: colaborador da Cahiers du Cinéma e fundador da Nouvelle Vague


(24/07/1930 - 12/09/2010)

O trecho abaixo foi extraído da Introdução do livro Hitchcock/Truffaut, Entrevistas (1966) com tradução de Rosa Freire d’Aguiar.

“Tudo começou com um tombo na água.

Durante o inverno de 1955, Alfred Hitchcock veio trabalhar em Joinville, no estúdio Saint-Maurice, na pós-sincronização de Ladrão de Casaca, cujas externas tinha filmado na Côte d’Azur. Meu amigo Claude Chabrol e eu resolvemos ir entrevistá-lo para o Cahiers du Cinéma. Tínhamos pedido emprestado um gravador para registrar a entrevista, que gostaríamos que fosse longa, precisa e fiel.

Estava bastante escuro naquele auditório onde Hitchcock trabalhava, enquanto na tela desfilava sem parar, como que rolando, uma cena curta do filme que mostrava Cary Grant e Brigitte Auber pilotando um barco a motor. No escuro, Chabrol e eu nos apresentamos a Alfred Hitchcock, que nos pede que o esperemos no bar do estúdio, do outro lado do pátio. Saímos, ofuscados pela luz do dia e, comentando com a empolgação de verdadeiros fanáticos por cinema as imagens hitchcockianas que víramos em primeira mão, dirigimo-nos, sempre em frente, para o bar que ficava logo ali, a quinze metros. Sem perceber, nós dois pulamos no mesmo passo a borda estreita de um laguinho congelado, da mesma cor cinza do asfalto do pátio. O gelo quebrou imediatamente e fomos para no fundo, com água até o peito, aparvalhados. Pergunto a Chabrol: “E o gravador?”. Ele ergue devagar o braço esquerdo e tira da água o aparelho, pingando.

Como num filme de Hitchcock, era uma situação sem saída: naquele laguinho inclinado, em declive muito suave, era impossível alcançarmos a beira sem escorregar de novo. Foi preciso a mão prestativa de um passante para nos tirar dali. Finalmente saímos, e uma roupeira, na certa com pena de nós, levou-nos para um camarim onde pudéssemos nos despir e secar as roupas. No caminho, disse-nos: “Puxa! Meus filhos, coitados! Vocês são figurantes de Rififi chez lês hommes?”. “Não senhora, somos jornalistas”. “Então, nesse caso, não posso cuidar de vocês!”

Portanto, foi tiritando dentro de nossas roupas encharcadas que minutos depois nos apresentamos diante de Alfred Hitchcock. Ele olhou para nós sem fazer comentários sobre nosso estado e propôs um novo encontro para aquela noite, no hotel Plaza Athénée. No ano seguinte, quando voltou a Paris, nos identificou de imediato, Chabrol e eu, no meio de um grupo de jornalistas parisienses, e nos disse: “Cavalheiros, penso em vocês toda vez que vejo pedras de gelo chocando-se num copo de uísque”.

Anos mais tarde eu seria informado de que Alfred Hitchcock havia floreado o incidente, enriquecendo-o com um final bem a seu jeito. Na versão Hitchcock, tal como ele a contava aos amigos de Hollywood, quando nos apresentamos depois do nosso tombo no laguinho Chabrol estava vestido de padre e eu de policial!”

sábado, agosto 28, 2010

Se nada mais der certo (José Eduardo Belmonte, 2008)



“A gente é educado pra não roubar, mas não é educado pra não ser roubado”

É uma tarefa difícil classificar o filme de José Eduardo Belmonte, Se nada mais der certo (2008), como bem reconheceu o próprio diretor no bate papo que rolou no Cine Cauim em Ribeirão Preto no programa Mostra Permanente de Cinema Brasileiro. Bem mais fácil é gostar do filme. O entrosamento do elenco é tão afinado e a escolha dos atores tão certeira que o que vemos na tela não são meras representações, mas sim a radiografia de seres humanos errantes vivendo uma situação limite.

Na contramão da avalanche de produções recentes que retratam apenas a pobreza do nosso país, o filme se presta a observar a classe média brasileira: desesperançada e órfã de um estado acolhedor. Lembra um pouco o clima instaurado pelo filme Terra Estrangeira (1996), de Walter Salles. Assistimos a uma dolorosa, ainda que bem humorada, reflexão sobre nosso tempo. A carga política nesse caso é mais presente, mas ainda assim o diretor consegue equilibrar bem sua influência sobre as relações afetivas que unem os personagens. Felizmente ela nunca se sobrepõe, e configura ainda o pano de fundo perfeito para aproximar indivíduos de realidades tão díspares.

Mais uma vez, toda ação perpetrada pelos personagens é decorrência do desespero, do estado anestésico, letárgico imposto pelo estado opressor. O trio protagonista - um jornalista falido, um motorista de taxi e uma golpista - parte para uma vida de pequenos delitos sem refletir sobre a decisão moral dessa escolha. Isso é compreensível, até justificável, uma vez que a massa corrupta que governa nosso país se vale da mesma moeda: aqui o diretor não economiza imagens e nem suaviza o discurso para denunciar essa prática. Essa moral, tão cara à consciência da nação, é jogada às traças em nome da sobrevivência. Bem como em Caçadores de Emoção (1991), o grande roubo do qual os protagonistas fazem parte é realizado com as máscaras dos presidentes Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, numa clara referência à corrupção dos seus mandatos.

Duas grandes cenas: a primeira quando o grupo desce a serra rumo à praia ao som de Little Wing, de Jimi Hendrix, e a segunda quando se dá o grande roubo ao som dos Saltimbancos. Em ambos é a música que dá o tom; na primeira alivia a tensão permanente que paira sobre os personagens e na segunda faz um comentário irônico elegante sobre aquilo que se vê.

Existem desempenhos tão marcantes de atores desconhecidos em início de carreira que nos levam a segui-los por todas as produções que trazem seus nomes nos créditos, mesmo que  sejam em filmes de reputação duvidosa. Desde o lançamento de Cinemas, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes, vimos o surgimento de um talento nato: João Miguel. Pra nossa sorte, o que veio depois disso foi só pra confirmar essa percepção. Como bem disse Belmonte, ele é o porto seguro da produção, o ator, mesmo jovem, mais experiente da turma.

Cauã Reymond, que sempre habitou o território seguro das telenovelas, prova mais uma vez, depois do excelente Falsa Loura (2008), que seu talento vai além do seu sex appeal. Novamente, o galã presta serviços valiosos ao seu personagem. A intenção inicial do diretor era contar com Reynaldo Gianecchini; sem sombra de dúvidas, o filme ganhou com a sua ausência.

Por fim, a novata Caroline Abras. O personagem dela é o elemento central da trama, o pivô de toda a ação que se passa no submundo do crime. Ela é o coração do filme, carrega consigo toda a inocência perdida. Grande elenco, grande filme.