domingo, janeiro 30, 2011

Bresson, Romero e Eastwood

O dinheiro, de Robert Bresson

- Depois que eu terminei de escrever o post anterior fiquei com a sensação de que deu a entender que eu era o responsável por haver descoberto o gênio de Bresson. Não sei... leio o texto de novo e essa impressão permanece. Coitado de mim, apenas me junto a uma legião de admiradores que compartilham da mesma opinião. Na verdade, sempre que termino algum filme dele me pergunto por que demorei tanto para assistir a outro. Dos quatro que já vi, Diário de um Pároco de aldeia (1951), Pickpocket (1959), O Processo de Joana D’Arc (1962) e O dinheiro (1983) todos me impressionaram muito. Em um primeiro contato, o estilo minimalista do diretor chama tanto a atenção que às vezes chega a atrapalhar o nosso envolvimento com o filme. À medida que nos acostumamos a ele, passamos a nos ater ao essencial - daí surge o filme. A lugubridade de O dinheiro me cortou a alma, ao contrário da esperança promovida por Pickpocket. Teria sido essa uma constatação, por parte de Bresson, de que o mundo piorou de 1959 para 1983? Prefiro acreditar em Pickpocket, mas acho que estamos mais para O dinheiro.

O Exército do Extermínio, de George Romero

- Com George Romero é assim: desde o início existe o caos. Sempre caímos de pára-quedas no meio do conflito, da disputa, do mal entendido e como em uma guerra somos testados e confrontados com o horror. De quem mais se espera lucidez, racionalidade e bom senso (essa palavra é sempre perigosa!) recebe-se estupidez e ignorância. Como bem lembrou Filipe Furtado, Romero certamente tinha em mente fazer uma alegoria sobre a Guerra do Vietnã quando realizou O Exército do Extermínio (1974) – a cena do ritual de auto-imolação evidencia isso. Trinta e cinco anos depois, sua alegoria se tornou profética: o que você considera uma perda aceitável em favor do bem da comunidade? Assisti ao filme com a ocupação do Rio de Janeiro na cabeça. Como em outros exemplares de Romero a ameaça vem dos vivos, não dos mortos.

Além da Vida, de Clint Eastwood

- Primeira cena: a câmera passeia lentamente por uma suíte em um hotel a beira mar. Um homem na cama. Tudo calmo. Pela janela, vemos o mar. Ao som do primeiro acorde já sabemos: estamos em um filme de Clint Eastwood - Além da Vida (2009). Como de hábito, o tema da morte. Os personagens de Eastwood quando confrontados com a morte não fogem a ela, não temem o seu encontro; ao contrário, a partir dele se fortalecem, afirmando seus vínculos terrenos. Cada personagem só existe por uma razão, uma tarefa, uma missão, sem a qual não há propósito para permanecer vivo. Lembremos da fala do cherife Little Bill (Gene Hackman) pouco antes de morrer em Os Imperdoáveis (1992) / “I don’t deserve this...to die like this. I was building a house!” /, ou do sacrifício do veterano Walt Kowalski (Clint Eastwood) em prol de uma causa em Gran Torino (2008), ou mesmo dos soldados japoneses em Cartas de Iwo Jima (2006)Além da Vida me lembrou mais A Troca (2008), em que Christine Collins (Angelina Jolie) mesmo diante de parcos vestígios da existência de seu filho - sumido e dado como morto pelas autoridades - se envereda por uma busca infrutífera; é a esperança de vida que a mantém viva. Todos os personagens de Além da Vida são, cada um a sua maneira, tocados pela morte. Quanto mais eles buscam saber do mundo de lá, mais eles se firmam no mundo daqui. O filme é cético em relação aos de lá, mas crente em relação aos daqui.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

O dinheiro (Robert Bresson, 1983)


O enquadramento em Bresson é primoroso, preciso. Pleno de informação. Vejo seus filmes tão esvaziado de expectativas, quase como uma obrigação, e sempre, sempre, sempre, sou forçado a rever minha indiferença: ele é simplesmente um gênio.

Eu pensava que O dinheiro caminhava para um desfecho a la Pickpocket (1959), do mesmo Bresson, que aliás eu tenho em alta conta. Depois de uma hora de projeção, quando o verde toma conta da tela - a cidade sai de cena - e o campo empresta sua aura imaculada ao mundo sombrio que prevalecia até então, uma senhora em forma de anjo irrompe no quadro e desarma todo o preconceito que eu já começava a nutrir pelo protagonista. Em uma cena pra se guardar na memória, em registro idílico, autêntico, o herói se põe a coletar avelã para a senhora, enquanto ela pendura lençóis brancos em um varal ao sopro do vento vespertino.

Como dizia no início do post, o enquadramento em Bresson é tudo. Ao longo da projeção ele nos avisa qual será o paradeiro de seu herói. São inúmeras cenas de portas, grades, trincos, cadeados, gavetas. Está tudo confinado. Inclusive seu protagonista. Na verdade, todos nós.

Meu apreço por Aurora (2010), de Cristi Puiu, que eu não havia gostado tanto na ocasião da Mostra, até aumentou. Bendito seja Bresson!

domingo, janeiro 16, 2011

O que eu vi de melhor em 2010: nacionais

Viajo porque preciso, volto porque te amo (Marcelo Gomes e Karim Ainouz, 2009) – qualquer filme, curta ou documentário que traga o nome dos dois envolvidos nesse projeto deve ser programa obrigatório. Ao invés de se construir o filme a partir de um roteiro, criou-se o roteiro a partir de imagens captadas na filmagem de outros trabalhos. Não é para todos os gostos, mas o espectador que embarcar na empreitada será agraciado com uma autêntica experiência cinematográfica. Road árido movie!

As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzky, 2010) – parece que o cinema nacional começa a prestar atenção no seu público adolescente. Estou, naturalmente, desconsiderando os projetos anuais da Xuxa e as últimas tentativas de Renato Aragão. Antes disso, e ainda assim muito recentemente, só havia o Jorge Furtado. Laís consegue fazer um filme divertido, alto astral, competente e bastante honesto.

Os famosos e os duendes da morte (Esmir Filho, 2009) – a fotografia de Mauro Pinheiro Jr. é fundamental para conferir ao filme o clima fantasmagórico que ele requer. De certa forma o oposto do filme da Laís: introspectivo, lento e melancólico. É difícil não compará-lo com as últimas incursões de Gus Van Sant pelo universo adolescente. Bela estréia de Esmir Filho em longa metragem.

Antes que o mundo acabe (Ana Luiza Azevedo, 2009) – outro belo filme que retrata os adolescentes, produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre. A trupe de Jorge Furtado toma as rédeas do projeto e nos entrega mais do mesmo: um cinema jovem, no tema e na execução, cheio de vida e ávido para se comunicar. Do Rio Grande do Sul para o mundo. Uma pena ele não ter encontrado um público numeroso enquanto estava em cartaz. Merecia!

O homem que engarrafava nuvens (Lírio Ferreira, 2009) – a sessão que eu peguei do filme no Espaço Unibanco estava repleta de senhoras. A comoção ao final da projeção era geral. Tinha gente voltando pra assistir de novo. Não é pra menos: o filme traça um panorama amplo de uma fase de ouro da música popular brasileira e discute, conceitualmente, os dois grandes eixos em torno do qual essa música se articula – o samba e o baião. Nele, o nordeste é protagonista. O documentário faz jus a persona de Humberto Teixeira, fiel colaborador de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Já faz algum tempo que o melhor do cinema nacional vem do nordeste.

Dzi Croquettes (Raphael Alvarez e Tatiana Issa, 2009) – para pessoas como eu, que não sabia da existência do grupo, o documentário presta um serviço precioso. A palavra contracultura nunca fez tanto sentido pra mim: aqui, o corpo é a arma de protesto. O balé dos corpos assume outro significado, sem, no entanto, perder sua candura.

Uma noite em 67 (Ricardo Calil e Renato Terra, 2010) – belo documentário editado, sobretudo, a partir de material de arquivo. Ótima decisão dos realizadores de não interferir no material com uma narração em off. São apenas os personagens contando e recontando suas façanhas e performances da histórica noite em 67. A história é posta a limpo.

Tropa de Elite 2 (José Padilha, 2010) – outro soco na boca do estômago. Mais maduro e depurado que o primeiro. Nas palavras de Inácio Araújo: “... Pode-se discutir ao infinito os filmes sobre a ação do Bope e seu capitão Nascimento. Com eles, o morro não é mais caso de cultura ou distribuição de renda. O problema central é de polícia e de corrupção (corrupção policial sobretudo). “Tropa de Elite” faz tudo voltar ao começo: a questão da favela não é bem a favela, mas o fato de a sociedade ter acreditado, o quanto pôde, que deixando os seus pobres à margem evitaria o contágio da boa sociedade com a outra.” Assino embaixo.

Reflexões de um liquidificador (André Klotzel, 2010) – o filme que faltava para formar a trilogia brasileira do humor negro/macabro com O cheiro do Ralo (2006), de Heitor Dhalia e Estômago (2007), de João Miguel. Um pouco menos marcante e inspirado do que os seus antecessores, mas nem por isso menos interessante. Assim como nas outras produções o elenco da um show à parte, em especial Ana Lúcia Torres. Um tesouro a ser descoberto.

Os inquilinos (Sérgio Bianchi, 2009) – um filme mais acessível do Bianchi. Sua ira está mais contida, mas seu inconformismo permanece o mesmo.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

O homem que burlou a máfia (Don Siegel, 1974)


Quando chega o momento do filme O homem que burlou a máfia em que Walter Matthau paga uma de cafajeste e se deita com uma bela mulher nosso envolvimento com o seu personagem já é tamanho que essa improvável circunstância se torna crível. Nada contra o grande ator, que se encontra, provavelmente, em um de seus melhores momentos. Como os tipos que ele representou sempre divergiram um bocado desse galanteador, nos dificulta enxergá-lo nessa situação. Sem mencionar que seus traços não eram nada atraentes...

Matthau parece não se esforçar para representar o bandido Charley Varrick, que passa o filme fugindo da mira de um matador de aluguel contratado pela máfia para haver o dinheiro que lhes foi tomado em um despretensioso assalto a banco. A riqueza dos personagens secundários, tratados com o carinho e a atenção devidos, e as inteligentes e criativas soluções encontradas pelo roteiro para manter o nível da perseguição elevam esse filme a outra categoria. Claro, tudo funciona perfeitamente graças à direção segura de Siegel. Sem firulas.

O personagem da senhora - vizinha do trailer - é um achado. Lembra os irmãos Coen em seus momentos mais inspirados. O final é de se tirar o chapéu.

domingo, janeiro 02, 2011

O que eu vi de melhor em 2010: estrangeiros

* Vincere (Marco Bellochio, 2009) – cinema italiano em grande forma. Um filme à altura da matéria em questão: um estudo perfeito dos mecanismos empregados pelo Estado para se sustentar uma imagem, no caso a de Mussolini. Para afirmar o que se quer fazer crer como verdade, deve-se esconder o indesejado: no caso um filho. Choque de intenções e interesses. O melhor que se pode extrair desse conflito. Filmaço!

* Ervas Daninhas (Alain Resnais, 2009) – um senhor de idade brincando de fazer cinema. Quem brinca é ele, quem se diverte somos nós.

* O Profeta (Jacques Audiard, 2009) – surpresa vinda da França. Drama carcerário convincente, surpreendente, inesperado. Um personagem interessante, ainda que improvável. Em meio à barbárie, e valendo-se dela, um jovem árabe redime seus pecados e emerge como um verdadeiro profeta. O carisma do ator Tahar Rahim humaniza o personagem.

* Policia, Adjetivo (Corneliu Poromboiu, 2009) – os romenos estão com a bola toda. Registro minimalista fiel às tradições documentaristas do leste europeu. A Romênia de ontem e a Romênia de hoje. Um filme policial sem disparos nem sangue. Final antológico.

* Sempre Bela (Manuel de Oliveira, 2006) – Buñuel por Oliveira. Um reencontro com os personagens de A Bela da tarde (1967). O domínio da mis-en-scène é tamanho que Oliveira nem parece se esforçar: o filme é um deleite para os olhos e ouvidos. Vale a espera pela grande cena do jantar.

* Ilha do medo (Martin Scorsese, 2010) – “Até onde me lembro, a questão central para mim era: O que é preciso para ser um cineasta em Hollywood? Mesmo ainda hoje me pergunto o que é necessário para ser um profissional, ou mesmo um artista, em Hollywood. Como você sobrevive a constante queda de braço entre a expressão pessoal e os imperativos comerciais? Qual é o preço que se paga para trabalhar em Hollywood? Você acaba com dupla personalidade? Você faz um filme pra eles e um pra você?

O comentário é do próprio Martin Scorsese e integra o documentário A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies (1995). De todos os filmes que Martin Scorsese fez para “eles”, talvez esse seja o mais “seu”. Scorsese se apropria de material alheio.

* O escritor fantasma (Roman Polanski, 2010) – cinza, cinza, cinza. Não há raios de sol na paisagem de Roman Polanski. Quanto mais o filme avança, mais escuro ele fica. Elegante, sombrio e afiado. Thriller político de altíssimo nível de um dos mestres do terror sugestivo. A violência espreita, mas demora a dar as caras.

* Minha terra, África (Claire Denis, 2009) e Um homem que grita (Mahamat Saleh Haroun, 2010) – relatos do continente africano de dois diretores de “dentro”. Duas versões para o mesmo drama: a guerra civil que assola o continente. O final da história nós já sabemos. Que me perdoem os apreciadores dos filmes de Terry George, Hotel Ruanda (2004), e Edward Zwick, Diamante de Sangue (2006): a África não é Hollywood.

* Eu matei a minha mãe (Xavier Dolan, 2009) – ame ou odeie, essa parece ser a reação que o filme desperta nas pessoas. Eu saí do cinema revigorado: relato fresco, vigoroso e enérgico da relação conturbada entre mãe e filho. Geração anos 90 na frente e atrás das câmeras. O renomado psicólogo Contardo Calligaris escreveu o melhor ensaio sobre o filme (http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/10/eu-matei-minha-mae.html)

* À prova de morte (Quentin Tarantino, 2007) – tivesse eu visto o filme em 2007, o impacto não teria sido o mesmo. Típico filme de realizador após emplacar um grande sucesso nas telas: descompromissado. Tratando-se de Tarantino soa redundante, pleonástico. Todo filme parece uma grande festa. É revigorante assistir a uma perseguição de carros sem o auxílio exaustivo dos efeitos especiais. Estou à procura de Corrida contra o destino (Vanishing Point, 1971), de Richard C. Sarafian.

* Como treinar o seu dragão (Dean Deblois e Chris Sanders, 2010) – o sucesso tremendo de Toy Story 3 (2010) ofuscou o reconhecimento que esse filme viria a receber na temporada de premiações. Uma pena, meu voto vai para ele. Mesmo sendo um ferrenho defensor da Pixar – fomos todos mal acostumados por ela com as sucessivas obras-primas (Ratatouille, Wall-E e Up) – a originalidade esse ano partiu da Dreamworks. A melhor aventura do ano!

domingo, dezembro 26, 2010

Carancho (Pablo Trapero, 2010)


Prefiro o nome original do filme de Pablo Trapero, Carancho (2010), ao título em português que lhe foi dado, Abutres. Mesmo desconhecendo o significado da palavra em espanhol – abutres não é tradução -, me parece que ela soa mais forte.

Não foram poucos os momentos em que pensei estar assistindo a uma versão atualizada de Sindicato dos Ladrões (1954), de Elia Kazan. Está, essencialmente, tudo lá: a máfia, o colaborador em crise de consciência, a mulher fragilizada que redime o protagonista. Da Nova York pós-guerra dos anos 50 à Buenos Aires falida dos anos 2000; da corrupção no sindicato dos estivadores, na primeira, às indenizações milionárias às vítimas dos acidentes de automóveis, na segunda. Em ambos, um forte drama político de cunho social. No argentino, claras influências do cinema policial norte americano.

O talento de Trapero é indiscutível, seu manejo da câmera é invejável. Pena que à medida que o romance dos protagonistas ganha relevo, o filme perca em interesse. Enquanto as imagens se esforçam para dar forma à intrincada trama que envolve os personagens o filme flui. Quando as amarras do roteiro se afrouxam e tudo se esclarece – do meio em diante –, o gênero policial se impõe: torturas, mortes, ameaças e perseguições. Trapero é quem segura as pontas.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Todas dimensões de Bassano Vaccarini (Hossame Nakamura, 2010)



Reproduzo abaixo o texto veiculado no jornal A Cidade de ontem a respeito do documentário Todas Dimensões de Bassano Vaccarini, do amigo Hossame Nakamura. A matéria traça um perfil do documentado/personagem por meio de uma entrevista com o diretor do filme.

Como disse a Hossame, pra quem, como eu, não cresceu em Ribeirão, o filme cumpre um papel importantíssimo: apresenta ao público esse grande artista que deixou sua marca em várias partes da cidade e da região. Um homem apaixonado pelo seu ofício e dotado de uma leveza de espírito contagiante. Suas obras transparecem isso. Salve Vaccarini!

Por Regis Martins

Se Bassano Vaccarini tivesse ficado em São Paulo ao invés de mudar-se para Ribeirão Preto em 1956, sua fama teria sido maior? Esse é o tipo de pergunta que o documentário "Todas Dimensões de Bassano Vaccarini" não responde, porém lança luz sobre a importância do homem que mudou as artes plásticas no interior.

Quando deixou a Itália, no final da Segunda Guerra Mundial, e chegou a São Paulo, Bassano fez parte de um grupo que revolucionaria o teatro nacional, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), que incluía nomes como Cacilda Becker, Walmor Chagas, Ziembinski, Franco Zampari, Gianni Ratto e Paulo Autran. Como cenógrafo, participou de montagens que fariam história.

Porém, convidado a vir para Ribeirão na comemoração do centenário da cidade, nunca mais deixou a cidade.

"As pessoas não fazem ideia de que Vaccarini já era um nome conhecido em São Paulo antes mesmo de chegar a Ribeirão. Mas ao vir pra cá, ele preferiu levar uma vida mais parecida com aquela que tinha na Itália", conta Hossame Nakamura, diretor do documentário.

Selecionados

O trabalho, que vai ser apresentado nesta quarta-feira (15) na Casa da Cultura, foi um dos selecionados no Programa Incentivo Cultural da Secretaria Municipal da Cultura. O prêmio foi de R$ 20 mil.

Com uma equipe minúscula, Hossame começou as gravações em abril passado, quando entrevistou o artista plástico e professor Dante Veloni. Ao todo, falou com 21 pessoas entre amigos, alunos, especialistas e a família Vaccarini, formada pela viúva Maria Inês e a filha Daniela, que vivem em Altinópolis.

"Daniela me ajudou inclusive no roteiro de produção. Fui muito para Altinópolis para me aproximar da família", conta.

O diretor reuniu várias imagens de arquivo do artista. Conseguiu imagens inéditas cedidas pela família, por fãs - como a artista Marina Braghetto - e pelo Museu da Imagem e do Som de Ribeirão.

"Eu me concentrei muito na pesquisa. Entre entrevistas e arquivo, reuni mais de 40 horas de material", afirma.

Cenas raras

Entre as cenas raras, Hossame conseguiu um filme de 16 mm com imagens de Vaccarini trabalhando em casa. O material foi cedido pelo Museu da Imagem e do Som. O diretor também teve acesso aos curtas-metragens que o artista plástico produziu com o fotógrafo Tony Miyazaka e o escritor e roteirista Rubens Luchetti.

"Mas não foi fácil editar tudo isso. Tive que criar uma identidade visual com material de padrões visuais muito diferentes. E para conseguir isso também tive que negociar muito", conta, referindo-se às pessoas que ficavam reticentes em ceder o acervo.

Entre roteirização, pesquisa, gravações e edição, foram oito meses de trabalho árduo. Metade deste tempo foi dedicado à edição que resultou num documentário de 49 minutos. Hossame conta que optou por não usar nenhuma reportagem veiculada sobre o artista, até para não ter problemas futuros de uso de imagem.

Porém, neste vasto material, não faltaram trechos dos filmes nos quais Vaccarini trabalhou. Ele foi responsável pela cenografia do western "Conflito em San Diego", gravado na cidade, e também confeccionou o monstro marítimo do clássico da pornochanchada "Bacalhau".

Para o diretor, o documentário não é exatamente uma homenagem, mas uma prestação de contas a um grande artista.

"Acho que foi uma forma de amenizar essa dívida e ao mesmo tempo reunir esse material que iria se perder. Quero deixar tudo isso disponível como material de pesquisa", avisa.

Bassano veio após a 2ª Guerra

Italiano de San Colombano Al Lambro, na região de Milão, ao norte da Itália, Bassano Vaccarini veio para o Brasil após a Segunda Guerra.

Chegou a Ribeirão Preto em 1956, a convite do então prefeito Costábile Romano, para organizar os festejos do centenário da cidade. E não deixou mais o interior.

Em Altinópolis, cidade da qual foi diretor e secretário de cultura, as esculturas estão presentes nas Praças do Trabalhador e do Encontro, no Ginásio de Esportes, na Prefeitura, na Casa da Cultura e, de forma mais notável, no Jardim das Esculturas.

Em Ribeirão Preto, seus trabalhos podem ser vistos no Alto do Morro do São Bento, no parque ecológico Maurílio Biagi e no Mercadão, na esquina da rua São Sebastião com a avenida Jerônimo Gonçalves.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

A Rede Social (David Fincher, 2010)


Logo após o término da sessão de A Rede Social havia um grupo de jovens caminhando a minha frente que comentava tê-lo achado muito longo – 121 min. Enquanto eu ouvia a conversa deles meio de esguelha meu pensamento voava longe de tão entretido que eu fiquei com o filme. Ao contrário desses jovens, eu perderia mais algumas horas assistindo ao drama dos novos bilionários retratados na tela.

Passados alguns dias da sessão, após algumas conversas com amigos, a gravação do programa Papo de Buteco e algumas tentativas de escrever um post a respeito do filme me convenci de que a melhor forma de apreciá-lo é abstraindo o Facebook da trama. Muito se discute a respeito da veracidade das informações, se Mark Zuckenberg é mesmo um monstro de pessoa, se Sean Parker é tão cool quanto aparenta, se Eduardo Saverin foi vítima de um complô, etc.

Encarar o filme como sendo a versão que esclarece os bastidores da construção do maior site de relacionamentos do mundo só faz esvaziar o seu conteúdo e discussão. A verdade é que talvez tudo tenha sido pior. Não importa. Essa “verdade” não se encontra nos “supostos” fatos que ele aborda, afinal de contas trata-se da versão de um dos envolvidos – o filme é uma adaptação do livro “Bilionários por acaso – A criação do Facebook”, do autor Ben Mezrich, cujo principal colaborador foi o brasileiro Eduardo Saverin, interpretado por Andrew Garfield. O intuito dos realizadores não era jogar luz sobre os acontecimentos; caso fosse, um documentário teria sido bem mais apropriado.

A questão que se coloca é: como abstrair o Facebook da trama se, até certo ponto, é ele que atrai o interesse do público? Confesso que não se trata de um exercício simples, ainda vivemos sob o impacto da sua invenção. O sucesso estrondoso do site de relacionamento é muito recente, e isso dificulta o distanciamento de juízo. O tempo se encarregará de estabelecer a melhor maneira de apreciá-lo.

O filme tem o mérito de nos aproximar dessa nova geração digital, de nos permitir conhecê-la, compartilhar de sua rotina, embora boa parte dos dilemas enfrentados pelos protagonistas seja floreado para o bem da ficção. Ele retrata soberbamente a busca pelo sucesso a todo custo e consegue dar voz àqueles que, outrora, foram marginalizados pela sociedade, os nerds. Por mais legítimo que seja ver jovens brigando por afeto e reconhecimento - basicamente é disso que trata o filme – é a ganância que planta o elemento da discórdia entre os envolvidos.

Peças publicitárias: o cartaz e o trailer

Ninguém presta muita atenção aos cartazes e aos trailers de divulgação de um filme. Pelo menos essa é a impressão que eu tenho. Ambos são tratados apenas como peças publicitárias. Uma pena. Eu sempre procuro chegar aos cinemas antes da sessão começar para poder assistir a todos os trailers. Sempre os encarei como parte do pacote. Minha esposa me condena por isso. Pra ela os trailers servem de desculpa para se sair de casa em cima da hora e não se perder a sessão. Lamento sempre que os perco. Ao longo dos anos passei a encará-los com mais seriedade, não apenas como um material de divulgação. Eu os considero um verdadeiro curta-metragem com uma linguagem visual própria. Pra mim, o trailer deve ser capaz de condensar a história, despertar a atenção do espectador, mostrar sem esclarecer e, se possível, existir por si só.

Escrevo isso agora porque desde a primeira vez que assisti ao trailer de A Rede Social, há uns três meses, fiquei extremamente curioso para ver o filme que surgiria a partir daquele apanhado de imagens e som. O trailer de A Rede Social é um primor de realização: consegue antecipar sem esclarecer o conteúdo do filme, e ainda ser conciso e abrangente em apenas 2m31s. É mais do que oportuno lembrar que David Fincher, o diretor do filme, sempre trabalhou com vídeo clipes e já colaborou com nomes como Madonna, Sting, George Michael e Aerosmith. Uma grande sacada foi a escolha da música: Creep, do Radiohead. Pra quem conhece a letra (reproduzida no final do post) sabe que ela expressa magnificamente as angústias de um jovem deslocado, solitário. Melhor ainda: a versão utilizada no trailer não é a original da banda na voz de Thom Yorke e sim uma mais melancólica cantada por um coral, sobretudo feminino, em tom fúnebre. Perfeito!!! A essência de todo o filme se encontra nesses breves dois minutos e meio.

A frase do cartaz oficial, reproduzida no início do post, “You don’t get to 500 million friends without making a few enemies”, é a sínteze perfeita do filme.


 
I don't care if it hurts
I wanna have control
I wanna a perfect body
I wanna a perfect soul
I want you to notice
When I'm not around
You're so fucking special
I wish I was special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here.

terça-feira, novembro 30, 2010

Os amantes de Pont Neuf (Leos Carax, 1991)



Nem mesmo depois do lançamento recente do longa metragem Os amantes de Pont Neuf pela ótima distribuidora de DVDs Lume Filmes eu me interessei por ele a ponto de querer assisti-lo. Confesso que ele nunca me despertou tanto a atenção assim. Não sei dizer exatamente o motivo, talvez seja a capa do DVD com uma foto pouco inspirada ou o Pont Neuf do título – não é um nome que soa muito bem, convenhamos, ainda que se trate da mais antiga ponte de Paris! Tantos são os filmes que levam amantes em seus nomes... Talvez depois do excepcional filme do James Gray no ano passado, Amantes, achei que não havia mais nada a acrescentar ao assunto. Não sei... o fato é que no meu ranking de prioridades sempre havia outro filme “mais interessante” a ser apreciado.

Felizmente o ciclo de cinefilia proposto pelo Belas Artes nesse mês de novembro resgatou a carreira da atriz Juliette Binoche promovendo a exibição de quatro filmes dessa grande atriz, dentre os quais Os amantes... Calhou de eu estar de passagem por São Paulo na semana de exibição do filme (pra ver o show do Paul McCartney) e não resisti aos encantos da proposta: assisti-lo em película de 35mm.

Bendito seja o programador do ciclo! Meu pré-julgamento novamente se mostrou infundado. Essas descobertas – pelo menos da minha parte – revigoram meu entusiasmo pela sétima arte. Em 1991, ano em que o filme foi lançado, meu universo cinematográfico girava em torno apenas do que se passava no cinema norte-americano, dessa forma, referência de qualidade era sinônimo de Oscars. Tudo que se encontrava fora desse mundo eu desconhecia. Foi a Lume Filmes e sua fantástica coleção de títulos em DVD que me apresentou esse filme. Hoje me pergunto, porque demorei tanto para assisti-lo?

Só depois de vê-lo é possível compreender o culto que se faz a ele. Basicamente se trata do encontro entre dois seres errantes que se tornam amantes de maneira bastante improvável e experimentam situações dignas dos melhores sonhos. Não há espaço para a razão, quem dita a regra é a emoção. O enredo é bastante simples, a força do filme advém das inventivas imagens criadas por seu diretor, Leos Carax.

Depois de um início de cunho documental, com imagens fortes e bastante sóbrias o filme muda de registro - que será adotado pelo resto da projeção - a partir da famosa cena onírica em que a garrafa aparece maior do que os personagens (imagem reproduzida acima - Juliette Binoche e Denis Lavant). Daí em diante basta embarcar na loucura dos amantes de Pont Neuf e se deliciar com a Paris em festa de Leos Carax.

Duas observações: 1. sem esse filme não haveria Spike Jonze, Michel Gondry e Charlie Kaufman e 2. o final recria a melhor cena da fantástica obra-prima francesa L’Atalante (1931), de Jean Vigo.

Filmaço!

terça-feira, novembro 16, 2010

A arte de mostrar x A arte de ocultar


A decisão para a escolha dos filmes que fazem parte do quadro Sessão Pipoca do Programa Papo de Buteco é normalmente pautada pelos lançamentos cinematográficos de cunho mais comercial das salas de cinema de Ribeirão Preto. Vez ou outra partimos para um plano de seleção alternativo, já que nem sempre a matéria para as nossas discussões se encontra nos filmes em cartaz. Às vezes, recorremos aos DVDs.

Fiquei bastante satisfeito quando o Gilles sugeriu que o assunto a ser abordado no próximo programa fosse de caráter político – fomos afinal de contas recém libertados de uma exaustiva campanha eleitoral - e pra representar esse tema elegeu o documentário de João Moreira Salles, Entreatos (2004). Em pouco mais de um ano de Papo de Buteco - se a memória não me falha - este será o primeiro documentário a integrar a nossa programação. Além de o filme ser brasileiro, o que sempre me agrada em nossas discussões, acredito não haver titulo mais apropriado para o momento. Mesmo que eu já o tenha visto sei que meus colegas ainda não o viram, bem como a grande maioria dos telespectadores.

Coincidentemente, no dia em que definimos a programação, a TV Cultura passou logo após o programa Roda Viva (o entrevistado era o psicólogo Contardo Calligaris) o último documentário do lendário Robert Drew, A President to Remember (2008) – uma coleção de imagens de seus filmes que tiveram JFK como objeto. Mesmo sendo tarde não consegui desgrudar da televisão antes que o filme terminasse. Robert Drew e seus colaboradores, Albert Maysles (Grey Gardens, 1975) e D.A.Peenebaker (Don’t Look Back, 1967), revolucionaram o gênero documentário a partir do lançamento de Primárias (1960). Neste belo trabalho ele e sua equipe seguiram bem de perto as campanhas primárias norte americanas que levariam o candidato democrata John F. Kennedy à presidência dos EUA. Foi a partir da influência desse filme que João Moreira Salles resolveu documentar a rotina do então candidato Luis Inácio Lula da Silva um mês antes das eleições presidenciais de 2002.

Com a memória ainda fresca da campanha presidencial brasileira somada a experiência proporcionada por esses belos documentários fica uma lição preciosa: sempre desconfie do que vir. Os 50 anos que separam esses episódios, que coincidem com o período em que a televisão reinou absoluta, evidenciam a crescente banalização do uso da imagem. Foi-se o tempo em que a imagem era sagrada: uma vez captada e transmitida não havia porque duvidar da sua existência. O seu conteúdo não era questionado. Hoje parece não existir compromisso com o espectador; vale tudo, inclusive ludibriar o público. Atualmente, não há como enxergar os políticos senão como fantoches de publicitários que moldam seus produtos de acordo com a necessidade da clientela.

Ao gravar as imagens para a produção dos seus documentários Robert Drew e sua equipe se propuseram a não interferir no processo de filmagem, apenas registrar o que se passava diante dos seus olhos – nesse caso, a câmera. Isso conferiu ao material um grau de autenticidade jamais alcançado. John F. Kennedy não interagia com a câmera, nem parecia se dar conta da sua presença. Lembremos que em 1960 a TV não era a mídia predominante, o rádio ainda ditava as regras. O marketing visual engatinhava, surgiria depois dessa campanha. Hoje o registro da imagem já não é mais de domínio exclusivo da mídia, até os celulares dispõem de câmeras digitais. Em Entreatos, o candidato Lula interage diversas vezes com a câmera, se dirige a ela, conversa com o espectador. Sua persona foi desde sempre moldada pela TV. Ao longo da sua carreira política ele “interpretou vários Lulas”. Em 2002, especialmente, a despeito de suas inegáveis virtudes como orador e líder, talvez tivesse sido impossível alcançar o posto máximo da carreira política sem os floreios de linguagem, postura e imagem proporcionados pela assessoria de marketing de sua campanha. O Lula do discurso ríspido, extremo e radical deu espaço ao famoso “Lulinha paz e amor”.

Existe uma ótima cena em Entreatos, esclarecedora da influência do marketing sobre os processos eleitoreiros, em que acompanhamos os bastidores de um debate televisivo. Enquanto os candidatos se digladiam na arena montada pela emissora de TV, os assessores de Lula monitoram as reações de um grupo de eleitores de tal forma que a sua conduta ao longo do programa sempre corresponda aos anseios deles. Supondo que esses eleitores representem a grande maioria dos telespectadores, a ideia é que o candidato se comporte sempre de modo a agradar o público. Isso contribui para esvaziar o conteúdo do discurso e valorizar a encenação do protagonista.

Em tom mais saudosista e muito bem humorado O último hurrah (1958), de John Ford, acompanha a última eleição de um candidato que não compreende mais as mudanças pela qual o mundo passa. O filme já anunciava o que as campanhas viriam a se tornar.