sábado, março 05, 2011

Tursi, Apichatpong e Visconti

Depois de três meses sem visitar a capital, minha única certeza ao deixar Ribeirão no último dia 12 era de que veria o último filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul: Tio Boonme, que pode recordar suas vidas passadas (2010). Até tentei assisti-lo durante a Mostra de São Paulo no ano passado, mas a sessão foi tão concorrida que os ingressos haviam se esgotado 12 horas antes da sua exibição. Felizmente (tem de haver um lado positivo nisso!), se não fosse por essa procura, não teria visto Caterpillar (2010), de Kôji Wakamatsu.

Eis que um consulta rápida ao blog do Luiz Zanin Oricchio, na parada no posto Graal da Rodovia dos Bandeirantes, alterou a minha programação inicial e me levou diretamente ao CINESESC na Rua Augusta. Discreto como sempre, Zanin chamava a atenção do leitor para a estréia de Violência e Paixão (1974), do mestre Luchino Visconti, em película de 35 mm. A cópia do filme havia aportado na capital sem qualquer cobertura das publicações impressas. Como se tratava de uma única sessão diária e eu ainda não havia programado outra ocasião para retornar a São Paulo, minha prioridade passou a ser o filme de Visconti.

Pra minha sorte - e bota sorte nisso - tive o privilégio de conferir no mesmo dia os três sujeitos que encabeçam este post. Por uma dessas felizes coincidências o filme do tailandês estava programado para passar uma sessão antes do filme do italiano. E pra arrematar o programa, o CINESESC, onde os dois filmes seriam exibidos, abrigava uma exposição temporária do fotógrafo Mário Tursi, responsável pelo registro em cena de todos os filmes de Visconti a partir de Vagas Estrelas da Ursa (1965). Tursi colaborou ainda com Ettore Scola, Pier Paolo Pasolini, Elio Petri, Martin Scorsese e muitos outros. O templo da cinefilia paulistana estava todo decorado com imagens captadas por Mário nos últimos filmes de Visconti. As fotos que seguem foram tiradas pela minha esposa no próprio CINESESC.










O próximo post será totalmente dedicado a Mário Tursi. Agora vou tratar dos dois filmes vistos em seguida.

Ao contrário da matemática, em que a ordem dos fatores não altera o produto, no cinema, a ordem dos filmes assistidos pode alterar a percepção a respeito de ambos, ou de apenas um deles, tanto pra melhor quanto pra pior. A experiência de assistir a filmes em seguida nos coloca, involuntariamente, na condição de compará-los, mesmo quando não há muito a se comparar – gêneros distintos, temas diversos, épocas diferentes, etc. A verdade é que mesmo a diferença, que sempre existirá, nos permite divagar nem que seja a respeito dela mesma. E é sempre bom lembrar que cada pessoa vê um filme diferente, afinal de contas nos projetamos sobre aquilo que vemos: nossas expectativas, experiência de vida, sonhos, frustrações, preconceitos, etc. Em toda sessão, carregamos conosco essa “bagagem de vida” que interage com o fluxo de imagens projetado na tela. É um processo inconsciente.

Dito isso, confesso que a experiência de ver Tio Boonme seguido de Violência e Paixão foi das melhores que já tive. Não sei até que ponto a programação foi intencional (de caso pensado) e duvido que muitas pessoas tenham feito como eu: assistir aos dois filmes em seguida. Seja como for, recomendo a prova. Acompanhei o início do filme de Visconti ainda digerindo o filme de Apichatpong. Tio Boonme pede uma pausa, um momento de meditação, aquela conversa - troca de idéias - com quem passou pela mesma experiência e saberá do que se trata. As imagens deslumbrantes de Tio Boonme clamam pelo nosso desvendamento, que não se dá necessariamente enquanto o assistimos e sim seguido da sua experimentação. Duas semanas se passaram e ainda me pego refletindo sobre a caverna, os macacos, a floresta, o bagre, o boi, a cachoeira, em suma, a natureza que o filme tanto preza.

Na comparação, três temas coincidem: a morte, a família e o conflito geracional. Entretanto, cada diretor sugere uma interação diferente entre esses elementos. Em Visconti, a morte vem para salvar as pobres almas penadas que habitam esse mundo. O inferno é aqui. O professor, interpretado magnificamente por Burt Lancaster, refugiado dentro da sua mansão, evita qualquer contato com o mundo exterior a fim de preservar a sua dignidade. Ele se esforça para não se “contaminar” pelo espírito vigente da época. A chegada da “sua família” abala seus valores morais, virando seu mundo de cabeça pra baixo. Os jovens são a ameaça - carregam os ideários em vigor. Em Apichatpong, a morte é um rito de passagem natural: sua chegada não é temida, mas sim celebrada – mesmo que por outros seres. O mundo é harmônico. A vida é enaltecida, louvada, renova-se o tempo todo. Tio Boonme, o personagem, se refugia no campo e se cerca da natureza e de sua família a fim de ser acolhido, preservado. Os jovens, seduzidos pelos avanços tecnológicos, encontram dificuldades para interagir com essa natureza contemplativa. Eles não chegam a representar uma ameaça, como o são os jovens de Visconti, mas caminham em sentido oposto ao equilíbrio proposto pelo diretor.

Visconti e sua fiel roteirista, Suso Cecchi d’Amico, carregam os diálogos em significância, urgência e gravidade. É tudo pesado, grandiloquente: figurino, decoração, locação. Apichatpong, ao contrário, conduz seu projeto com mãos leves. A edição de som é primorosa, nos coloca “dentro” da natureza retratada por ele. Água, terra e ar se tornam praticamente tangíveis.

A política sempre andou de mãos dadas com Visconti: comunista e filho da nobreza italiana, criou uma obra cheia de contradições (como sua própria vida, era ainda homossexual), repleta de personagens atormentados, divididos entre a razão (convicções políticas) e a emoção. Em Violência e Paixão é o maio de 68 que compõe o panorama político sobre o qual os personagens se debruçam. Um prato cheio para Visconti expor a sua incredulidade a respeito dos rumos que o mundo tomou.

É curioso como Apichatpong confere um viés político ao seu belo filme sem ser pedante. A política nunca se impõe; ainda assim constatamos o efeito da sua prática sobre o destino dos personagens. A televisão e suas imagens, que compõem a última cena, são o espelho do mundo que habitamos. Na tela vemos soldados armados marchando rumo a um confronto. Essa inserção sem alardes - nada forçada - logo após a enxurrada de "natureza" que permeia toda a projeção desperta um sentimento incômodo que vez ou outra nos acomete e que somos incapazes de eximir: o de sobrevalorizar tudo o que estamos prestes a perder - ou já foi perdido. Apichatpong encerra seu filme em tom preocupante, sem respostas fáceis. Ao menos, o recado foi dado.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Wim Wenders, Pina Bausch e como filmar uma cena de dança


Ainda não vi o documentário de Wim Wenders, Pina (2011), apresentado anteontem no 61°Festival de Berlim, sobre a obra da coreógrafa Pina Bausch. Pelos relatos de quem estava presente, amplamente divulgados na imprensa internacional, Wim Wenders acertou em cheio ao empregar o 3D para registrar a arte de Pina.

A Folha de S. Paulo publicou uma matéria especial ontem a respeito do assunto. Segue abaixo:

Wim Wenders reinventa 3D com Pina

Por Ana Paula Sousa

E do 3D fez-se arte. A estréia mundial de “Pina”, ontem, no festival de Berlim, comprovou o que se esperava: do encontro entre a nova tecnologia e Wim Wenders nasceu algo diferente de tudo o que foi visto até aqui.

O filme começa com um dos ensinamentos da revolucionária coreógrafa Pina Bausch (1940-2009): para tudo aquilo que as palavras não conseguem expressar, existe a dança.

Foi essa a mensagem que Wenders seguiu. E se pôde segui-la tão de perto, é porque a tecnologia o socorreu.

Desde quando viu uma apresentação da companhia de Pina, a Tanztheater Wupertal, Wenders passou a carregar uma certeza: aquilo pertencia à tela grande.

Apesar disso, levou anos para pôr em prática o projeto. A razão era simples: como filmar? “Onde colocar a câmera?”, pergunta o diretor. “Se você fecha a câmera no solo de um dançarino, você perde todo o resto que está acontecendo no palco.”

A resposta veio em 2006, quando, em Cannes, Wenders viu um show do U2 filmado em 3D. Ele ligou para Pina e disse que, enfim, cumpriria sua promessa.

Graças ao 3D, sentimos, por exemplo, a cortina do teatro roçar nossos olhos.

“Pina” borra as fronteiras do gênero documental. O filme é documento – dos ensaios, do pensamento da coreógrafa – mas também encenação.

Apesar de ter sido exibido na competição, “Pina” não concorre a prêmios. Foi, no entanto, o filme mais marcante até agora.
Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão, escreveu em seu blog, na postagem entitulada “Transe” de 13/02/11, o seguinte: “...Wenders vale-se do formato (3D) para nos projetar dentro da criação de Pina Bausch. Estou sem fala. Se o festival terminasse agora, e ‘Pina’ estivesse em competição, já teria levado o Urso de Ouro, pelo menos para mim. Momento brasileiro – ela cria uma coreografia para ‘Leãozinho’, cantado por Caetano. Puta filme bonito, meu. Nunca vi nada parecido em termos de dança. Inclusive, vou ter de confessar. O impacto foi tão grande que, momentaneamente, diminuiu meu entusiasmo pelo ‘Cisne Negro’ de Darren Aronofsky.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010)


Não há como não comparar Os Sapatinhos Vermelhos (Michael Powell e Emeric Pressburger, 1948) com o Cisne Negro. É involuntário. Nem se trata de valorizar um filme em detrimento de outro, mas o que dizer de um longa-metragem de balé que não tem um número de dança? Ou melhor, que tem dança, porém filmado sempre em primeiro plano? E o espetáculo dos corpos em movimento, a sincronia dos gestos, a interação das bailarinas com o cenário da peça? É nítido que Natalie Portman não é uma bailarina, mas como convencer o público de que o seu personagem, ingênuo, quase frígido, seria capaz de se transformar no Cisne Negro - erótico e provocativo? Dançando, não seria? Afinal de contas trata-se da encenação de O Lago dos Cisnes...

Por mais que eu goste de Natalie Portman e reconheça o esforço da sua representação, me faltou, justamente no palco, a emoção que ela disse ter sentido no final. Em O lutador (2008), do mesmo diretor Darren Aronofsky, bastou apenas uma cena dentro do ringue de luta livre para anestesiar o público - emocionar, talvez. E que cena! Tão bem filmada e coreografada, que mesmo não sendo longa, consegue ser representativa. Os planos fechados para lutas funcionam perfeitamente. Mickey Rourke foi um lutador de luta livre na vida real, seu corpo “deformado” não mente. Toda a dramaticidade da sua representação baseia-se na relação dele com o seu corpo. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo de Natalie Portman e não sei se foi por conta da presença dela no filme que se evitou o espetáculo de dança. Nem que fosse uma dublê, a emoção da sua performance precisava ser compartilhada com o espectador. Faltou esse tempero. O filme quer que acreditemos que ela triunfou por meio da reação da platéia presente e de suas companheiras, não pelo número em si ou pelo seu desempenho no palco - mostrado na tela.

O início de Cisne Negro, em que Darren se dedica a ambientar o seu longa-metragem, guarda os melhores momentos (acompanhamos a rotina da companhia de balé): as bailarinas se aquecendo em um corredor interminável, o ritual de preparação de uma sapatilha (linhas e agulhas para costurá-la, ótima cena), o close dos pés de uma bailarina em pleno movimento de dança, o plano geral da companhia repleta de espelhos, o camarim, o palco, os bastidores de um espetáculo de dança. A fotografia de Matthew Libatique, de tons escuros saturada, reforça a sensação de desconforto desse ambiente gélido e competitivo.

À medida que os personagens que compõem a trama começam a entrar em cena, o foco se volta para a sua protagonista, Nina (Natalie Portman). Em torno dela girará apenas a sua mãe (Barbara Hershey), o diretor do espetáculo (Vincent Cassel), a sua concorrente (Mila Kunis) e de modo muito ilustrativo a sua antecessora (Winona Ryder). Da interação entre todos eles com a protagonista – relação de causa-efeito descambando para o psicologismo – se dará a explicação para os delírios mentais (e cinematográficos) colocados em cena. Tudo que foge a esse círculo de relações é evitado a fim de não se perder o clima instaurado e a atenção do público. Esta opção deixa arestas que permanecem inconclusivas, o intuito é que o filme não perca a sua rota (exemplo: quando Nina questiona a sua concorrente a respeito do desfecho da noitada que passaram juntas, ela acha engraçado e diz que nada daquilo de fato aconteceu deixando a oponente/amiga com a pergunta “Porque, você gostou de sonhar comigo?” e um sorriso debochado, como quem vai contar uma “novidade para as amigas” – as bailarinas da companhia aparecem desfocadas no fundo do plano. O encontro seguinte entre as duas se passa como se isso não tivesse acontecido).

Depois de Cisne Negro assisti ao filme de estréia de Aronofsky, π (1998). Não gostei. Seu gosto por transformar os tormentos da mente em material fílmico o leva a delírios extravagantes de filmagem que por vezes me parecem um tanto quanto exagerados. O mesmo se passa com Réquiem para um sonho (2000). Pra mim, quanto mais contido, melhor - O lutador (2008). Cisne Negro contém momentos inspirados, que bem poderiam ser mais frequentes.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Os meus preferidos da última década, só brasileiros

Numa dessas brincadeiras em redes sociais no final do ano passado, um amigo levantou a questão: quais os melhores filmes da década? Eu tenho acompanhado as publicações a respeito desse assunto nos sites recomendados aqui no blog e ainda tem algumas coisas que não vi. Tenho me esforçado bastante para assistí-los. Morar no interior dificulta o trabalho nessas horas. Pra tentar fazer alguma coisa um pouco diferente - tanto dos sites quanto da brincadeira proposta pelo amigo - vou listar apenas os filmes brasileiros que me chamaram mais a atenção. Elaborei a lista no final do ano passado e consultando-a agora não senti a necessidade de mudar nada, apenas acrescentei dois filmes.

1 – Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci
2 - O Signo do Caos (2005), de Rogério Sganzerla
3 – O Céu de Suely (2006), de Karim Ainouz
4 – Santiago (2007), de João Moreira Salles
5 – Falsa Loura (2007), de Carlos Reichenbach
6 – Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho
7 – Se nada mais der certo (2008), de José Eduardo Belmonte
8 – Árido Movie (2004), de Lírio Ferreira
9 – Cleópatra (2007), de Júlio Bressane
10 – Tropa de Elite 2 (2010), de José Padilha
11 – Cinemas, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes
12 – Cão sem dono (2007), de Beto Brant
13 – A Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins
14 – Houve uma vez dois verões (2002), de Jorge Furtado
15 – Proibido Proibir (2007), de Jorge Durán

domingo, janeiro 30, 2011

Bresson, Romero e Eastwood

O dinheiro, de Robert Bresson

- Depois que eu terminei de escrever o post anterior fiquei com a sensação de que deu a entender que eu era o responsável por haver descoberto o gênio de Bresson. Não sei... leio o texto de novo e essa impressão permanece. Coitado de mim, apenas me junto a uma legião de admiradores que compartilham da mesma opinião. Na verdade, sempre que termino algum filme dele me pergunto por que demorei tanto para assistir a outro. Dos quatro que já vi, Diário de um Pároco de aldeia (1951), Pickpocket (1959), O Processo de Joana D’Arc (1962) e O dinheiro (1983) todos me impressionaram muito. Em um primeiro contato, o estilo minimalista do diretor chama tanto a atenção que às vezes chega a atrapalhar o nosso envolvimento com o filme. À medida que nos acostumamos a ele, passamos a nos ater ao essencial - daí surge o filme. A lugubridade de O dinheiro me cortou a alma, ao contrário da esperança promovida por Pickpocket. Teria sido essa uma constatação, por parte de Bresson, de que o mundo piorou de 1959 para 1983? Prefiro acreditar em Pickpocket, mas acho que estamos mais para O dinheiro.

O Exército do Extermínio, de George Romero

- Com George Romero é assim: desde o início existe o caos. Sempre caímos de pára-quedas no meio do conflito, da disputa, do mal entendido e como em uma guerra somos testados e confrontados com o horror. De quem mais se espera lucidez, racionalidade e bom senso (essa palavra é sempre perigosa!) recebe-se estupidez e ignorância. Como bem lembrou Filipe Furtado, Romero certamente tinha em mente fazer uma alegoria sobre a Guerra do Vietnã quando realizou O Exército do Extermínio (1974) – a cena do ritual de auto-imolação evidencia isso. Trinta e cinco anos depois, sua alegoria se tornou profética: o que você considera uma perda aceitável em favor do bem da comunidade? Assisti ao filme com a ocupação do Rio de Janeiro na cabeça. Como em outros exemplares de Romero a ameaça vem dos vivos, não dos mortos.

Além da Vida, de Clint Eastwood

- Primeira cena: a câmera passeia lentamente por uma suíte em um hotel a beira mar. Um homem na cama. Tudo calmo. Pela janela, vemos o mar. Ao som do primeiro acorde já sabemos: estamos em um filme de Clint Eastwood - Além da Vida (2009). Como de hábito, o tema da morte. Os personagens de Eastwood quando confrontados com a morte não fogem a ela, não temem o seu encontro; ao contrário, a partir dele se fortalecem, afirmando seus vínculos terrenos. Cada personagem só existe por uma razão, uma tarefa, uma missão, sem a qual não há propósito para permanecer vivo. Lembremos da fala do cherife Little Bill (Gene Hackman) pouco antes de morrer em Os Imperdoáveis (1992) / “I don’t deserve this...to die like this. I was building a house!” /, ou do sacrifício do veterano Walt Kowalski (Clint Eastwood) em prol de uma causa em Gran Torino (2008), ou mesmo dos soldados japoneses em Cartas de Iwo Jima (2006)Além da Vida me lembrou mais A Troca (2008), em que Christine Collins (Angelina Jolie) mesmo diante de parcos vestígios da existência de seu filho - sumido e dado como morto pelas autoridades - se envereda por uma busca infrutífera; é a esperança de vida que a mantém viva. Todos os personagens de Além da Vida são, cada um a sua maneira, tocados pela morte. Quanto mais eles buscam saber do mundo de lá, mais eles se firmam no mundo daqui. O filme é cético em relação aos de lá, mas crente em relação aos daqui.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

O dinheiro (Robert Bresson, 1983)


O enquadramento em Bresson é primoroso, preciso. Pleno de informação. Vejo seus filmes tão esvaziado de expectativas, quase como uma obrigação, e sempre, sempre, sempre, sou forçado a rever minha indiferença: ele é simplesmente um gênio.

Eu pensava que O dinheiro caminhava para um desfecho a la Pickpocket (1959), do mesmo Bresson, que aliás eu tenho em alta conta. Depois de uma hora de projeção, quando o verde toma conta da tela - a cidade sai de cena - e o campo empresta sua aura imaculada ao mundo sombrio que prevalecia até então, uma senhora em forma de anjo irrompe no quadro e desarma todo o preconceito que eu já começava a nutrir pelo protagonista. Em uma cena pra se guardar na memória, em registro idílico, autêntico, o herói se põe a coletar avelã para a senhora, enquanto ela pendura lençóis brancos em um varal ao sopro do vento vespertino.

Como dizia no início do post, o enquadramento em Bresson é tudo. Ao longo da projeção ele nos avisa qual será o paradeiro de seu herói. São inúmeras cenas de portas, grades, trincos, cadeados, gavetas. Está tudo confinado. Inclusive seu protagonista. Na verdade, todos nós.

Meu apreço por Aurora (2010), de Cristi Puiu, que eu não havia gostado tanto na ocasião da Mostra, até aumentou. Bendito seja Bresson!

domingo, janeiro 16, 2011

O que eu vi de melhor em 2010: nacionais

Viajo porque preciso, volto porque te amo (Marcelo Gomes e Karim Ainouz, 2009) – qualquer filme, curta ou documentário que traga o nome dos dois envolvidos nesse projeto deve ser programa obrigatório. Ao invés de se construir o filme a partir de um roteiro, criou-se o roteiro a partir de imagens captadas na filmagem de outros trabalhos. Não é para todos os gostos, mas o espectador que embarcar na empreitada será agraciado com uma autêntica experiência cinematográfica. Road árido movie!

As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzky, 2010) – parece que o cinema nacional começa a prestar atenção no seu público adolescente. Estou, naturalmente, desconsiderando os projetos anuais da Xuxa e as últimas tentativas de Renato Aragão. Antes disso, e ainda assim muito recentemente, só havia o Jorge Furtado. Laís consegue fazer um filme divertido, alto astral, competente e bastante honesto.

Os famosos e os duendes da morte (Esmir Filho, 2009) – a fotografia de Mauro Pinheiro Jr. é fundamental para conferir ao filme o clima fantasmagórico que ele requer. De certa forma o oposto do filme da Laís: introspectivo, lento e melancólico. É difícil não compará-lo com as últimas incursões de Gus Van Sant pelo universo adolescente. Bela estréia de Esmir Filho em longa metragem.

Antes que o mundo acabe (Ana Luiza Azevedo, 2009) – outro belo filme que retrata os adolescentes, produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre. A trupe de Jorge Furtado toma as rédeas do projeto e nos entrega mais do mesmo: um cinema jovem, no tema e na execução, cheio de vida e ávido para se comunicar. Do Rio Grande do Sul para o mundo. Uma pena ele não ter encontrado um público numeroso enquanto estava em cartaz. Merecia!

O homem que engarrafava nuvens (Lírio Ferreira, 2009) – a sessão que eu peguei do filme no Espaço Unibanco estava repleta de senhoras. A comoção ao final da projeção era geral. Tinha gente voltando pra assistir de novo. Não é pra menos: o filme traça um panorama amplo de uma fase de ouro da música popular brasileira e discute, conceitualmente, os dois grandes eixos em torno do qual essa música se articula – o samba e o baião. Nele, o nordeste é protagonista. O documentário faz jus a persona de Humberto Teixeira, fiel colaborador de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Já faz algum tempo que o melhor do cinema nacional vem do nordeste.

Dzi Croquettes (Raphael Alvarez e Tatiana Issa, 2009) – para pessoas como eu, que não sabia da existência do grupo, o documentário presta um serviço precioso. A palavra contracultura nunca fez tanto sentido pra mim: aqui, o corpo é a arma de protesto. O balé dos corpos assume outro significado, sem, no entanto, perder sua candura.

Uma noite em 67 (Ricardo Calil e Renato Terra, 2010) – belo documentário editado, sobretudo, a partir de material de arquivo. Ótima decisão dos realizadores de não interferir no material com uma narração em off. São apenas os personagens contando e recontando suas façanhas e performances da histórica noite em 67. A história é posta a limpo.

Tropa de Elite 2 (José Padilha, 2010) – outro soco na boca do estômago. Mais maduro e depurado que o primeiro. Nas palavras de Inácio Araújo: “... Pode-se discutir ao infinito os filmes sobre a ação do Bope e seu capitão Nascimento. Com eles, o morro não é mais caso de cultura ou distribuição de renda. O problema central é de polícia e de corrupção (corrupção policial sobretudo). “Tropa de Elite” faz tudo voltar ao começo: a questão da favela não é bem a favela, mas o fato de a sociedade ter acreditado, o quanto pôde, que deixando os seus pobres à margem evitaria o contágio da boa sociedade com a outra.” Assino embaixo.

Reflexões de um liquidificador (André Klotzel, 2010) – o filme que faltava para formar a trilogia brasileira do humor negro/macabro com O cheiro do Ralo (2006), de Heitor Dhalia e Estômago (2007), de João Miguel. Um pouco menos marcante e inspirado do que os seus antecessores, mas nem por isso menos interessante. Assim como nas outras produções o elenco da um show à parte, em especial Ana Lúcia Torres. Um tesouro a ser descoberto.

Os inquilinos (Sérgio Bianchi, 2009) – um filme mais acessível do Bianchi. Sua ira está mais contida, mas seu inconformismo permanece o mesmo.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

O homem que burlou a máfia (Don Siegel, 1974)


Quando chega o momento do filme O homem que burlou a máfia em que Walter Matthau paga uma de cafajeste e se deita com uma bela mulher nosso envolvimento com o seu personagem já é tamanho que essa improvável circunstância se torna crível. Nada contra o grande ator, que se encontra, provavelmente, em um de seus melhores momentos. Como os tipos que ele representou sempre divergiram um bocado desse galanteador, nos dificulta enxergá-lo nessa situação. Sem mencionar que seus traços não eram nada atraentes...

Matthau parece não se esforçar para representar o bandido Charley Varrick, que passa o filme fugindo da mira de um matador de aluguel contratado pela máfia para haver o dinheiro que lhes foi tomado em um despretensioso assalto a banco. A riqueza dos personagens secundários, tratados com o carinho e a atenção devidos, e as inteligentes e criativas soluções encontradas pelo roteiro para manter o nível da perseguição elevam esse filme a outra categoria. Claro, tudo funciona perfeitamente graças à direção segura de Siegel. Sem firulas.

O personagem da senhora - vizinha do trailer - é um achado. Lembra os irmãos Coen em seus momentos mais inspirados. O final é de se tirar o chapéu.

domingo, janeiro 02, 2011

O que eu vi de melhor em 2010: estrangeiros

* Vincere (Marco Bellochio, 2009) – cinema italiano em grande forma. Um filme à altura da matéria em questão: um estudo perfeito dos mecanismos empregados pelo Estado para se sustentar uma imagem, no caso a de Mussolini. Para afirmar o que se quer fazer crer como verdade, deve-se esconder o indesejado: no caso um filho. Choque de intenções e interesses. O melhor que se pode extrair desse conflito. Filmaço!

* Ervas Daninhas (Alain Resnais, 2009) – um senhor de idade brincando de fazer cinema. Quem brinca é ele, quem se diverte somos nós.

* O Profeta (Jacques Audiard, 2009) – surpresa vinda da França. Drama carcerário convincente, surpreendente, inesperado. Um personagem interessante, ainda que improvável. Em meio à barbárie, e valendo-se dela, um jovem árabe redime seus pecados e emerge como um verdadeiro profeta. O carisma do ator Tahar Rahim humaniza o personagem.

* Policia, Adjetivo (Corneliu Poromboiu, 2009) – os romenos estão com a bola toda. Registro minimalista fiel às tradições documentaristas do leste europeu. A Romênia de ontem e a Romênia de hoje. Um filme policial sem disparos nem sangue. Final antológico.

* Sempre Bela (Manuel de Oliveira, 2006) – Buñuel por Oliveira. Um reencontro com os personagens de A Bela da tarde (1967). O domínio da mis-en-scène é tamanho que Oliveira nem parece se esforçar: o filme é um deleite para os olhos e ouvidos. Vale a espera pela grande cena do jantar.

* Ilha do medo (Martin Scorsese, 2010) – “Até onde me lembro, a questão central para mim era: O que é preciso para ser um cineasta em Hollywood? Mesmo ainda hoje me pergunto o que é necessário para ser um profissional, ou mesmo um artista, em Hollywood. Como você sobrevive a constante queda de braço entre a expressão pessoal e os imperativos comerciais? Qual é o preço que se paga para trabalhar em Hollywood? Você acaba com dupla personalidade? Você faz um filme pra eles e um pra você?

O comentário é do próprio Martin Scorsese e integra o documentário A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies (1995). De todos os filmes que Martin Scorsese fez para “eles”, talvez esse seja o mais “seu”. Scorsese se apropria de material alheio.

* O escritor fantasma (Roman Polanski, 2010) – cinza, cinza, cinza. Não há raios de sol na paisagem de Roman Polanski. Quanto mais o filme avança, mais escuro ele fica. Elegante, sombrio e afiado. Thriller político de altíssimo nível de um dos mestres do terror sugestivo. A violência espreita, mas demora a dar as caras.

* Minha terra, África (Claire Denis, 2009) e Um homem que grita (Mahamat Saleh Haroun, 2010) – relatos do continente africano de dois diretores de “dentro”. Duas versões para o mesmo drama: a guerra civil que assola o continente. O final da história nós já sabemos. Que me perdoem os apreciadores dos filmes de Terry George, Hotel Ruanda (2004), e Edward Zwick, Diamante de Sangue (2006): a África não é Hollywood.

* Eu matei a minha mãe (Xavier Dolan, 2009) – ame ou odeie, essa parece ser a reação que o filme desperta nas pessoas. Eu saí do cinema revigorado: relato fresco, vigoroso e enérgico da relação conturbada entre mãe e filho. Geração anos 90 na frente e atrás das câmeras. O renomado psicólogo Contardo Calligaris escreveu o melhor ensaio sobre o filme (http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/10/eu-matei-minha-mae.html)

* À prova de morte (Quentin Tarantino, 2007) – tivesse eu visto o filme em 2007, o impacto não teria sido o mesmo. Típico filme de realizador após emplacar um grande sucesso nas telas: descompromissado. Tratando-se de Tarantino soa redundante, pleonástico. Todo filme parece uma grande festa. É revigorante assistir a uma perseguição de carros sem o auxílio exaustivo dos efeitos especiais. Estou à procura de Corrida contra o destino (Vanishing Point, 1971), de Richard C. Sarafian.

* Como treinar o seu dragão (Dean Deblois e Chris Sanders, 2010) – o sucesso tremendo de Toy Story 3 (2010) ofuscou o reconhecimento que esse filme viria a receber na temporada de premiações. Uma pena, meu voto vai para ele. Mesmo sendo um ferrenho defensor da Pixar – fomos todos mal acostumados por ela com as sucessivas obras-primas (Ratatouille, Wall-E e Up) – a originalidade esse ano partiu da Dreamworks. A melhor aventura do ano!

domingo, dezembro 26, 2010

Carancho (Pablo Trapero, 2010)


Prefiro o nome original do filme de Pablo Trapero, Carancho (2010), ao título em português que lhe foi dado, Abutres. Mesmo desconhecendo o significado da palavra em espanhol – abutres não é tradução -, me parece que ela soa mais forte.

Não foram poucos os momentos em que pensei estar assistindo a uma versão atualizada de Sindicato dos Ladrões (1954), de Elia Kazan. Está, essencialmente, tudo lá: a máfia, o colaborador em crise de consciência, a mulher fragilizada que redime o protagonista. Da Nova York pós-guerra dos anos 50 à Buenos Aires falida dos anos 2000; da corrupção no sindicato dos estivadores, na primeira, às indenizações milionárias às vítimas dos acidentes de automóveis, na segunda. Em ambos, um forte drama político de cunho social. No argentino, claras influências do cinema policial norte americano.

O talento de Trapero é indiscutível, seu manejo da câmera é invejável. Pena que à medida que o romance dos protagonistas ganha relevo, o filme perca em interesse. Enquanto as imagens se esforçam para dar forma à intrincada trama que envolve os personagens o filme flui. Quando as amarras do roteiro se afrouxam e tudo se esclarece – do meio em diante –, o gênero policial se impõe: torturas, mortes, ameaças e perseguições. Trapero é quem segura as pontas.