quarta-feira, abril 20, 2011

Cópia Fiel (Abbas Kiarostami, 2010)


“Não suporto o cinema narrativo. Quanto mais ele conta história e quanto melhor o faz, maior fica minha resistência. O único meio de pensar um novo cinema é dar maior importância ao papel do espectador. Devemos encarar um cinema inacabado e incompleto para que o espectador possa intervir e preencher os espaços vazios, as lacunas. Ao invés de fazer um filme com estrutura sólida, devemos enfraquecê-la – tendo consciência de que não se deve afugentar o espectador.”
Abbas Kiarostami



Qualquer abordagem que se faça de Cópia Fiel, é primordial que se leve em consideração o fato de Kiarostami filmar pela primeira vez fora do seu país natal, o Irã. O olhar de quem vê - tanto do seu realizador quanto de seus personagens (uma francesa e um inglês) - é o olhar do estrangeiro, que sem se dar conta se vê transformado pelo espaço que habita, mesmo quando procura permanecer incólume às suas influências. Por meio da jornada de um “casal” (uma referência ao fato de os protagonistas serem um homem e uma mulher, ou/bem como o fato de os protagonistas estarem casados), à imagem e semelhança (cópia?) de Viagem à Itália (1954), de Roberto Rossellini (original), acompanhamos a desconstrução de um relacionamento (já existente, ou que está por se formar).
 
O encontro do “casal” se dá na Itália, na belíssima região da Toscana, em meio a pinturas, afrescos, esculturas, estátuas e muita história. Em virtude do convite para o lançamento do seu livro intitulado Copie Conforme (que deve sua inspiração à região em questão e coincide com o nome original do filme), o inglês, interpretado por William Shimell, aceita o pedido da francesa - Juliette Binoche, dona de uma galeria local de antiquarias - para dialogar a respeito da questão levantada pela sua publicação: a de que uma cópia vale o mesmo, ou mais, que o original. O nível dos diálogos beira a perfeição e a interação dos dois com o assunto se restringe ao aspecto formal da questão: no melhor estilo “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” – uma interação fria, intelectualizada; sem envolvimento, pouco emocional. O interesse dos protagonistas pelo meio em que se encontram se faz apenas por intermédio daquilo que ele representa – restringe-se ao comércio dessas "representações" (lembremos que os proventos de ambos são oriundos da exploração do legado histórico da região).

É no contato com uma nativa (dotada de outro senso de valores), quase na metade da projeção, que nossa percepção dá uma volta de 180 graus. A partir da conversa travada entre a personagem de Juliette Binoche e a dona de uma cafeteria, Kiarostami nos convida a participar da sua versão do “jogo dos sexos” no melhor estilo de uma screwball comedy de Howard Hawks. Nesse “jogo” chocam-se culturas, dominação e subserviência (esse recurso é usado com maestria por meio do idioma empregado pelo emissor da conversação), verdades e mentiras, lembranças e memórias, opiniões e pontos de vista. No tabuleiro de Kiarostami, encenamos sempre a mesma peça: seja ela original ou uma cópia, não importa, nosso repertório limita-se sempre as mesmas jogadas desempenhadas de formas diferentes. Cada qual se vale das armas que dispõe: a mulher, a sensualidade; o homem, a retórica do discurso. Apesar da representação esquemática, de minha parte, o filme não poderia se desenvolver de maneira mais natural: absolutamente nada soa falso. A estória dos dois bem que poderia ser a estória de qualquer um.

Talvez uma metragem um pouco mais curta lhe faria bem, em especial para algumas cenas mais ao fim. Mesmo longe de se tratar de um flerte do diretor iraniano com o cinema norte americano, eu diria que o resultado é o mais próximo que ele consegue chegar de uma comédia romântica. Felizmente esse “rótulo” não limita seu alcance nem interpretação; talvez represente mais uma via de acesso para obra tão rica e instigante, cujo diretor goza da fama de “difícil”.

Quem dera Kiarostami se aventurasse por outros gêneros no intuito de subvertê-los... A gente agradeceria.

domingo, abril 10, 2011

Anjo do Mal (Samuel Fuller, 1953)


Skip McCoy: Sou you’re a Red, who cares? Your money’s as good as anybody else’s.
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Skip McCoy: You boys are talking to the wrong corner. I’m just a guy keeping my hands in my own pockets.
FBI Agent Zara: If you refuse to cooperate you’ll be as guilty as the traitors who gave Stalin the A-bomb.
Skip McCoy: Are you *waving the flag* at me?
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Moe Williams: What’s the matter with you? Playing footsie with the Commies!
Skip McCoy: You waving the flag, too?
Moe Williams: Listen, I knew you since you was a little kid. You was always a regular kind of crook. I never figured you for a louse.
Skip McCoy: Stop, you’re breaking my heart.
Moe Williams: Even in our crummy line of business you gotta draw the line somewhere.
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Moe Williams: You got any Happy Money
Candy: Happy Money?
Moe Williams: Yeah, money that’s gonna make me happy.

O que são esses diálogos? Curtos, francos, diretos, ríspidos. Não me lembro de outros filmes com tantas frases de efeito como essas (certamente hão de existir, mas mesmo um cinéfilo mais experimentado teria dificuldades em nomeá-los; esse grau de excelência não se atinge a todo momento). A partir dessa pequena amostragem (havia muito mais coisa pra colocar!) é possível sacar que a história se passa em algum momento em que a bandeira vermelha significava muito mais do que apenas uma cor que evoca a paixão, o calor. O filme é de 1953 (foi produzido no calor do momento), e por meio dele dá pra se ter uma ideia do que era viver nos EUA em plena Guerra Fria: a paranóia estava instaurada. Só havia duas bandas tocando na cidade: os capitalistas e os comunistas. Se você não simpatizava com uma delas, logo você torcia pela outra. Esse mal entendido, na ocasião, podia custar uma vida.

Os personagens de Fuller trafegam justamente nessa linha tênue, nesse espaço estreito, se recusando a abraçar os “ismos” vigentes. Como em toda a sua obra, é dos marginais que o filme trata. Seus heróis, ou vilões (essa distinção não se dá com tanta facilidade), são sobreviventes, guerreiros, combatentes; no momento em que somos devidamente apresentados, eles já se encontram “no lugar errado, na hora errada”. O registro desses seres humanos lutando/combatendo para sair dessa condição é o que interessa a Fuller.

Richard Widmark (Skip McCoy) e Thelma Ritter (Moe Williams) estão impagáveis, perfeitos. Não é comum ver atores do primeiro escalão em uma produção assinada por Samuel Fuller. Seu cinema, bem como seus personagens, transitam pelas margens do sistema: retratam aquilo que ninguém quer ver, nem comentar. O mundo é sujo, corrupto. Fuller expõe seu ponto de vista num tom irônico e recheia o discurso de seus personagens (seus porta-vozes) de cinismo. Sem este recurso, o impacto do seu filme não seria o mesmo.

OBS: páreo para a criativa geladeira de Skip McCoy só mesmo o escorredor de C.C Baxter (Jack Lemmon) em Se meu apartamento falasse (1960), de Billy Wilder. Inesquecível!

Abaixo, numa breve entrevista que integra o documentário A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies (1995), o diretor esclarece como as autoridades censuravam passagens de obras artísticas. O caso relatado refere-se a Anjos do Mal e a passagem em questão se encontra nos diálogos transcritos no início do post.

Samuel Fuller (1989) Quando ele dizia “Não esfregue a maldita bandeira na minha cara”, Edgar Hoover fez objeção à frase em minha presença na mesa do Romanoff, com Zanuck. Ele desaprovava que um americano dissesse, no calor da Guerra Fria com a Rússia, “Não esfregue a maldita bandeira na minha cara”. E Zanuck me disse: “Ele tem razão, vamos tirar o maldita”. Hoover ficou muito furioso: “Você sabe muito bem que não é a isso que me refiro”. E Zanuck explicou tudo muito simplesmente. Era amigo dele, conhecia-o bem. “Quem está falando é um personagem, e esse personagem não dá a mínima para a bandeira. Ela não significa nada para ele. Qualquer bandeira! É preciso ser como aquele personagem. Caso contrário acabamos fazendo um filme de propaganda, e não fazemos esse tipo de filme”.
  • Em inglês, a expressão wave the flag (ao pé da letra, “agitar a bandeira”) tem também o sentido figurado de manifestar lealdade a um país, um partido ou uma ideologia. Na cena em questão, é este segundo sentido que prevalece.

terça-feira, março 08, 2011

Mario Tursi (09/08/29 – 01/09/08)


Mario Tursi nasce na “Cidade Eterna” em 9 de agosto de 1929. Filho de fotógrafos, estava predestinado a ignorar o tempo através do seu olhar. Contrariando a astrologia do seu signo solar, era discreto e reservado.

Em 1943, Segunda Guerra Mundial, já trabalha como repórter fotográfico pelas ruas das cidades italianas e, com a “Libertação Italiana”, é contratado como fotógrafo do Vaticano. Passa por grandes agências jornalísticas e suas fotos giram o mundo.

É o cinema que corre atrás de Tursi a partir de 1953. O fotógrafo encontrava-se na cidade de San Pietro Romano durante as gravações de Pão, Amor e Fantasia, de Luigi Comencini, quando seu interesse pelo set cinematográfico é despertado.

Em 1956, torna-se diretor da Agência VEDO e faz alguns especiais para filmes americanos rodados na Itália. Em 1962, chega seu primeiro contrato como fotógrafo de cena para acompanhar toda uma produção. Mare Matto de Renato Castellani.

Em 1965, já completamente apaixonado pelo cinema, vende a agência e entrega-se à fotografia de cena. Faz Vagas Estrelas da Ursa com Visconti e uma grande parceria profissional é iniciada.

Tursi trabalha com Elio Petri em Investigação de um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1970. Depois, dedica-se a Pasolini, Lina Wertmüller, Buñuel, Scola, Polanski e Trosi (com Massimo estabelece uma relação quase de pai e filho, acompanhando sua carreira cinematográfica do início até O Carteiro e o Poeta, último filme do ator e diretor).

Suas fotos de O Nome da Rosa, de Annaud e Piratas, de Polanski, giram o mundo e é cada vez mais admirado e reconhecido. Seus últimos registros foram Gangues de Nova York, de Scorsese e Sob o Sol da Toscana, de Audrey Wells.

Sempre quis, como fotógrafo, evitar as imagens de telenovelas; tecnicamente corretas, mas sem vida. Nunca gostou dos “quadrinhos” fotográficos “bem feitinhos”. Morre no dia 1 de setembro de 2008, deixando como maior, e mais valiosa herança, uma enorme coleção de imagens cristalizadas.



Estes são alguns dos trabalhos mais expressivos de Mario Tursi para o cinema:

O melhor dos inimigos – Guy Hamilton, 1961
Mare Matto (Craze Sea) – Renato Castellani, 1963
Vagas Estrelas da Ursa – Luchino Visconti, 1964
The Chairman – Jack Lee Thompson, 1968
Os Deuses Malditos – Luchino Visconti, 1969
Medea – Pier Paolo Pasolini, 1969
Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita – Elio Petri, 1970
Tristana – Luis Buñuel, 1970
Morte em Veneza – Luchino Visconti, 1971
O Decameron – Pier Paolo Pasolini, 1971
Lisa e o Diabo – Mario Bava, 1972
Ludwig – A Paixão de um Rei – Luchino Visconti, 1972
La proprietá non è più furto – Elio Petri, 1973
Violência e Paixão – Luchino Visconti, 1974
O Porteiro da Noite – Liliana Cavani, 1974
O Caso de uma Vida – Giuseppe Patroni Griffi, 1974
O Inocente – Luchino Visconti, 1976
Calígula – Tinto Brass, 1977
Um Dia Muito Especial – Ettore Scola, 1977
Tentação Proibida – Alberto Lattuada, 1978
Monsenhor – Frank Perry, 1982
Através Daquela Porta – Liliana Cavani, 1982
Era Uma Vez na América – Sergio Leone, 1983
Não resta mais nada a não ser chorar – Massimo Troisi, 1984
Os últimos dias de Pompéia – Peter Hunt, 1984
Piratas – Roman Polanski, 1986
O Nome da Rosa – Jean-Jacques Annaud, 1986
Crônica de uma Morte Anunciada – Francesco Rosi, 1987
A Última Tentação de Cristo – Martin Scorsese, 1988
O Pequeno Diabo – Roberto Benigni, 1988
Splendor – Ettore Scola, 1989
Que horas são? – Ettore Scola, 1989
Estamos todos bem – Giuseppe Tornatore, 1990
A Viagem do Capitão Tornado – Ettore Scola, 1990
O Carteiro e o Poeta – M. Radford e M. Troisi, 1994
O Cavalheiro do Telhado e a Dama das Sombras – Jean-Paul Rappeneau, 1994
Em luta pelo amor – Marshall Herskovitz, 1996
Kundun – Martin Scorsese, 1996
Sonhos de uma Noite de Verão – Michael Hoffman, 1997
Titus – Julie Taylor, 1998
U-571 A Batalha do Atlântico – Jonathan Mostow, 1999
Gangues de Nova York – Martin Scorsese, 2000
Sob o Sol da Toscana – Audrey Wells, 2003

sábado, março 05, 2011

Tursi, Apichatpong e Visconti

Depois de três meses sem visitar a capital, minha única certeza ao deixar Ribeirão no último dia 12 era de que veria o último filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul: Tio Boonme, que pode recordar suas vidas passadas (2010). Até tentei assisti-lo durante a Mostra de São Paulo no ano passado, mas a sessão foi tão concorrida que os ingressos haviam se esgotado 12 horas antes da sua exibição. Felizmente (tem de haver um lado positivo nisso!), se não fosse por essa procura, não teria visto Caterpillar (2010), de Kôji Wakamatsu.

Eis que um consulta rápida ao blog do Luiz Zanin Oricchio, na parada no posto Graal da Rodovia dos Bandeirantes, alterou a minha programação inicial e me levou diretamente ao CINESESC na Rua Augusta. Discreto como sempre, Zanin chamava a atenção do leitor para a estréia de Violência e Paixão (1974), do mestre Luchino Visconti, em película de 35 mm. A cópia do filme havia aportado na capital sem qualquer cobertura das publicações impressas. Como se tratava de uma única sessão diária e eu ainda não havia programado outra ocasião para retornar a São Paulo, minha prioridade passou a ser o filme de Visconti.

Pra minha sorte - e bota sorte nisso - tive o privilégio de conferir no mesmo dia os três sujeitos que encabeçam este post. Por uma dessas felizes coincidências o filme do tailandês estava programado para passar uma sessão antes do filme do italiano. E pra arrematar o programa, o CINESESC, onde os dois filmes seriam exibidos, abrigava uma exposição temporária do fotógrafo Mário Tursi, responsável pelo registro em cena de todos os filmes de Visconti a partir de Vagas Estrelas da Ursa (1965). Tursi colaborou ainda com Ettore Scola, Pier Paolo Pasolini, Elio Petri, Martin Scorsese e muitos outros. O templo da cinefilia paulistana estava todo decorado com imagens captadas por Mário nos últimos filmes de Visconti. As fotos que seguem foram tiradas pela minha esposa no próprio CINESESC.










O próximo post será totalmente dedicado a Mário Tursi. Agora vou tratar dos dois filmes vistos em seguida.

Ao contrário da matemática, em que a ordem dos fatores não altera o produto, no cinema, a ordem dos filmes assistidos pode alterar a percepção a respeito de ambos, ou de apenas um deles, tanto pra melhor quanto pra pior. A experiência de assistir a filmes em seguida nos coloca, involuntariamente, na condição de compará-los, mesmo quando não há muito a se comparar – gêneros distintos, temas diversos, épocas diferentes, etc. A verdade é que mesmo a diferença, que sempre existirá, nos permite divagar nem que seja a respeito dela mesma. E é sempre bom lembrar que cada pessoa vê um filme diferente, afinal de contas nos projetamos sobre aquilo que vemos: nossas expectativas, experiência de vida, sonhos, frustrações, preconceitos, etc. Em toda sessão, carregamos conosco essa “bagagem de vida” que interage com o fluxo de imagens projetado na tela. É um processo inconsciente.

Dito isso, confesso que a experiência de ver Tio Boonme seguido de Violência e Paixão foi das melhores que já tive. Não sei até que ponto a programação foi intencional (de caso pensado) e duvido que muitas pessoas tenham feito como eu: assistir aos dois filmes em seguida. Seja como for, recomendo a prova. Acompanhei o início do filme de Visconti ainda digerindo o filme de Apichatpong. Tio Boonme pede uma pausa, um momento de meditação, aquela conversa - troca de idéias - com quem passou pela mesma experiência e saberá do que se trata. As imagens deslumbrantes de Tio Boonme clamam pelo nosso desvendamento, que não se dá necessariamente enquanto o assistimos e sim seguido da sua experimentação. Duas semanas se passaram e ainda me pego refletindo sobre a caverna, os macacos, a floresta, o bagre, o boi, a cachoeira, em suma, a natureza que o filme tanto preza.

Na comparação, três temas coincidem: a morte, a família e o conflito geracional. Entretanto, cada diretor sugere uma interação diferente entre esses elementos. Em Visconti, a morte vem para salvar as pobres almas penadas que habitam esse mundo. O inferno é aqui. O professor, interpretado magnificamente por Burt Lancaster, refugiado dentro da sua mansão, evita qualquer contato com o mundo exterior a fim de preservar a sua dignidade. Ele se esforça para não se “contaminar” pelo espírito vigente da época. A chegada da “sua família” abala seus valores morais, virando seu mundo de cabeça pra baixo. Os jovens são a ameaça - carregam os ideários em vigor. Em Apichatpong, a morte é um rito de passagem natural: sua chegada não é temida, mas sim celebrada – mesmo que por outros seres. O mundo é harmônico. A vida é enaltecida, louvada, renova-se o tempo todo. Tio Boonme, o personagem, se refugia no campo e se cerca da natureza e de sua família a fim de ser acolhido, preservado. Os jovens, seduzidos pelos avanços tecnológicos, encontram dificuldades para interagir com essa natureza contemplativa. Eles não chegam a representar uma ameaça, como o são os jovens de Visconti, mas caminham em sentido oposto ao equilíbrio proposto pelo diretor.

Visconti e sua fiel roteirista, Suso Cecchi d’Amico, carregam os diálogos em significância, urgência e gravidade. É tudo pesado, grandiloquente: figurino, decoração, locação. Apichatpong, ao contrário, conduz seu projeto com mãos leves. A edição de som é primorosa, nos coloca “dentro” da natureza retratada por ele. Água, terra e ar se tornam praticamente tangíveis.

A política sempre andou de mãos dadas com Visconti: comunista e filho da nobreza italiana, criou uma obra cheia de contradições (como sua própria vida, era ainda homossexual), repleta de personagens atormentados, divididos entre a razão (convicções políticas) e a emoção. Em Violência e Paixão é o maio de 68 que compõe o panorama político sobre o qual os personagens se debruçam. Um prato cheio para Visconti expor a sua incredulidade a respeito dos rumos que o mundo tomou.

É curioso como Apichatpong confere um viés político ao seu belo filme sem ser pedante. A política nunca se impõe; ainda assim constatamos o efeito da sua prática sobre o destino dos personagens. A televisão e suas imagens, que compõem a última cena, são o espelho do mundo que habitamos. Na tela vemos soldados armados marchando rumo a um confronto. Essa inserção sem alardes - nada forçada - logo após a enxurrada de "natureza" que permeia toda a projeção desperta um sentimento incômodo que vez ou outra nos acomete e que somos incapazes de eximir: o de sobrevalorizar tudo o que estamos prestes a perder - ou já foi perdido. Apichatpong encerra seu filme em tom preocupante, sem respostas fáceis. Ao menos, o recado foi dado.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Wim Wenders, Pina Bausch e como filmar uma cena de dança


Ainda não vi o documentário de Wim Wenders, Pina (2011), apresentado anteontem no 61°Festival de Berlim, sobre a obra da coreógrafa Pina Bausch. Pelos relatos de quem estava presente, amplamente divulgados na imprensa internacional, Wim Wenders acertou em cheio ao empregar o 3D para registrar a arte de Pina.

A Folha de S. Paulo publicou uma matéria especial ontem a respeito do assunto. Segue abaixo:

Wim Wenders reinventa 3D com Pina

Por Ana Paula Sousa

E do 3D fez-se arte. A estréia mundial de “Pina”, ontem, no festival de Berlim, comprovou o que se esperava: do encontro entre a nova tecnologia e Wim Wenders nasceu algo diferente de tudo o que foi visto até aqui.

O filme começa com um dos ensinamentos da revolucionária coreógrafa Pina Bausch (1940-2009): para tudo aquilo que as palavras não conseguem expressar, existe a dança.

Foi essa a mensagem que Wenders seguiu. E se pôde segui-la tão de perto, é porque a tecnologia o socorreu.

Desde quando viu uma apresentação da companhia de Pina, a Tanztheater Wupertal, Wenders passou a carregar uma certeza: aquilo pertencia à tela grande.

Apesar disso, levou anos para pôr em prática o projeto. A razão era simples: como filmar? “Onde colocar a câmera?”, pergunta o diretor. “Se você fecha a câmera no solo de um dançarino, você perde todo o resto que está acontecendo no palco.”

A resposta veio em 2006, quando, em Cannes, Wenders viu um show do U2 filmado em 3D. Ele ligou para Pina e disse que, enfim, cumpriria sua promessa.

Graças ao 3D, sentimos, por exemplo, a cortina do teatro roçar nossos olhos.

“Pina” borra as fronteiras do gênero documental. O filme é documento – dos ensaios, do pensamento da coreógrafa – mas também encenação.

Apesar de ter sido exibido na competição, “Pina” não concorre a prêmios. Foi, no entanto, o filme mais marcante até agora.
Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão, escreveu em seu blog, na postagem entitulada “Transe” de 13/02/11, o seguinte: “...Wenders vale-se do formato (3D) para nos projetar dentro da criação de Pina Bausch. Estou sem fala. Se o festival terminasse agora, e ‘Pina’ estivesse em competição, já teria levado o Urso de Ouro, pelo menos para mim. Momento brasileiro – ela cria uma coreografia para ‘Leãozinho’, cantado por Caetano. Puta filme bonito, meu. Nunca vi nada parecido em termos de dança. Inclusive, vou ter de confessar. O impacto foi tão grande que, momentaneamente, diminuiu meu entusiasmo pelo ‘Cisne Negro’ de Darren Aronofsky.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010)


Não há como não comparar Os Sapatinhos Vermelhos (Michael Powell e Emeric Pressburger, 1948) com o Cisne Negro. É involuntário. Nem se trata de valorizar um filme em detrimento de outro, mas o que dizer de um longa-metragem de balé que não tem um número de dança? Ou melhor, que tem dança, porém filmado sempre em primeiro plano? E o espetáculo dos corpos em movimento, a sincronia dos gestos, a interação das bailarinas com o cenário da peça? É nítido que Natalie Portman não é uma bailarina, mas como convencer o público de que o seu personagem, ingênuo, quase frígido, seria capaz de se transformar no Cisne Negro - erótico e provocativo? Dançando, não seria? Afinal de contas trata-se da encenação de O Lago dos Cisnes...

Por mais que eu goste de Natalie Portman e reconheça o esforço da sua representação, me faltou, justamente no palco, a emoção que ela disse ter sentido no final. Em O lutador (2008), do mesmo diretor Darren Aronofsky, bastou apenas uma cena dentro do ringue de luta livre para anestesiar o público - emocionar, talvez. E que cena! Tão bem filmada e coreografada, que mesmo não sendo longa, consegue ser representativa. Os planos fechados para lutas funcionam perfeitamente. Mickey Rourke foi um lutador de luta livre na vida real, seu corpo “deformado” não mente. Toda a dramaticidade da sua representação baseia-se na relação dele com o seu corpo. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo de Natalie Portman e não sei se foi por conta da presença dela no filme que se evitou o espetáculo de dança. Nem que fosse uma dublê, a emoção da sua performance precisava ser compartilhada com o espectador. Faltou esse tempero. O filme quer que acreditemos que ela triunfou por meio da reação da platéia presente e de suas companheiras, não pelo número em si ou pelo seu desempenho no palco - mostrado na tela.

O início de Cisne Negro, em que Darren se dedica a ambientar o seu longa-metragem, guarda os melhores momentos (acompanhamos a rotina da companhia de balé): as bailarinas se aquecendo em um corredor interminável, o ritual de preparação de uma sapatilha (linhas e agulhas para costurá-la, ótima cena), o close dos pés de uma bailarina em pleno movimento de dança, o plano geral da companhia repleta de espelhos, o camarim, o palco, os bastidores de um espetáculo de dança. A fotografia de Matthew Libatique, de tons escuros saturada, reforça a sensação de desconforto desse ambiente gélido e competitivo.

À medida que os personagens que compõem a trama começam a entrar em cena, o foco se volta para a sua protagonista, Nina (Natalie Portman). Em torno dela girará apenas a sua mãe (Barbara Hershey), o diretor do espetáculo (Vincent Cassel), a sua concorrente (Mila Kunis) e de modo muito ilustrativo a sua antecessora (Winona Ryder). Da interação entre todos eles com a protagonista – relação de causa-efeito descambando para o psicologismo – se dará a explicação para os delírios mentais (e cinematográficos) colocados em cena. Tudo que foge a esse círculo de relações é evitado a fim de não se perder o clima instaurado e a atenção do público. Esta opção deixa arestas que permanecem inconclusivas, o intuito é que o filme não perca a sua rota (exemplo: quando Nina questiona a sua concorrente a respeito do desfecho da noitada que passaram juntas, ela acha engraçado e diz que nada daquilo de fato aconteceu deixando a oponente/amiga com a pergunta “Porque, você gostou de sonhar comigo?” e um sorriso debochado, como quem vai contar uma “novidade para as amigas” – as bailarinas da companhia aparecem desfocadas no fundo do plano. O encontro seguinte entre as duas se passa como se isso não tivesse acontecido).

Depois de Cisne Negro assisti ao filme de estréia de Aronofsky, π (1998). Não gostei. Seu gosto por transformar os tormentos da mente em material fílmico o leva a delírios extravagantes de filmagem que por vezes me parecem um tanto quanto exagerados. O mesmo se passa com Réquiem para um sonho (2000). Pra mim, quanto mais contido, melhor - O lutador (2008). Cisne Negro contém momentos inspirados, que bem poderiam ser mais frequentes.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Os meus preferidos da última década, só brasileiros

Numa dessas brincadeiras em redes sociais no final do ano passado, um amigo levantou a questão: quais os melhores filmes da década? Eu tenho acompanhado as publicações a respeito desse assunto nos sites recomendados aqui no blog e ainda tem algumas coisas que não vi. Tenho me esforçado bastante para assistí-los. Morar no interior dificulta o trabalho nessas horas. Pra tentar fazer alguma coisa um pouco diferente - tanto dos sites quanto da brincadeira proposta pelo amigo - vou listar apenas os filmes brasileiros que me chamaram mais a atenção. Elaborei a lista no final do ano passado e consultando-a agora não senti a necessidade de mudar nada, apenas acrescentei dois filmes.

1 – Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci
2 - O Signo do Caos (2005), de Rogério Sganzerla
3 – O Céu de Suely (2006), de Karim Ainouz
4 – Santiago (2007), de João Moreira Salles
5 – Falsa Loura (2007), de Carlos Reichenbach
6 – Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho
7 – Se nada mais der certo (2008), de José Eduardo Belmonte
8 – Árido Movie (2004), de Lírio Ferreira
9 – Cleópatra (2007), de Júlio Bressane
10 – Tropa de Elite 2 (2010), de José Padilha
11 – Cinemas, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes
12 – Cão sem dono (2007), de Beto Brant
13 – A Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins
14 – Houve uma vez dois verões (2002), de Jorge Furtado
15 – Proibido Proibir (2007), de Jorge Durán

domingo, janeiro 30, 2011

Bresson, Romero e Eastwood

O dinheiro, de Robert Bresson

- Depois que eu terminei de escrever o post anterior fiquei com a sensação de que deu a entender que eu era o responsável por haver descoberto o gênio de Bresson. Não sei... leio o texto de novo e essa impressão permanece. Coitado de mim, apenas me junto a uma legião de admiradores que compartilham da mesma opinião. Na verdade, sempre que termino algum filme dele me pergunto por que demorei tanto para assistir a outro. Dos quatro que já vi, Diário de um Pároco de aldeia (1951), Pickpocket (1959), O Processo de Joana D’Arc (1962) e O dinheiro (1983) todos me impressionaram muito. Em um primeiro contato, o estilo minimalista do diretor chama tanto a atenção que às vezes chega a atrapalhar o nosso envolvimento com o filme. À medida que nos acostumamos a ele, passamos a nos ater ao essencial - daí surge o filme. A lugubridade de O dinheiro me cortou a alma, ao contrário da esperança promovida por Pickpocket. Teria sido essa uma constatação, por parte de Bresson, de que o mundo piorou de 1959 para 1983? Prefiro acreditar em Pickpocket, mas acho que estamos mais para O dinheiro.

O Exército do Extermínio, de George Romero

- Com George Romero é assim: desde o início existe o caos. Sempre caímos de pára-quedas no meio do conflito, da disputa, do mal entendido e como em uma guerra somos testados e confrontados com o horror. De quem mais se espera lucidez, racionalidade e bom senso (essa palavra é sempre perigosa!) recebe-se estupidez e ignorância. Como bem lembrou Filipe Furtado, Romero certamente tinha em mente fazer uma alegoria sobre a Guerra do Vietnã quando realizou O Exército do Extermínio (1974) – a cena do ritual de auto-imolação evidencia isso. Trinta e cinco anos depois, sua alegoria se tornou profética: o que você considera uma perda aceitável em favor do bem da comunidade? Assisti ao filme com a ocupação do Rio de Janeiro na cabeça. Como em outros exemplares de Romero a ameaça vem dos vivos, não dos mortos.

Além da Vida, de Clint Eastwood

- Primeira cena: a câmera passeia lentamente por uma suíte em um hotel a beira mar. Um homem na cama. Tudo calmo. Pela janela, vemos o mar. Ao som do primeiro acorde já sabemos: estamos em um filme de Clint Eastwood - Além da Vida (2009). Como de hábito, o tema da morte. Os personagens de Eastwood quando confrontados com a morte não fogem a ela, não temem o seu encontro; ao contrário, a partir dele se fortalecem, afirmando seus vínculos terrenos. Cada personagem só existe por uma razão, uma tarefa, uma missão, sem a qual não há propósito para permanecer vivo. Lembremos da fala do cherife Little Bill (Gene Hackman) pouco antes de morrer em Os Imperdoáveis (1992) / “I don’t deserve this...to die like this. I was building a house!” /, ou do sacrifício do veterano Walt Kowalski (Clint Eastwood) em prol de uma causa em Gran Torino (2008), ou mesmo dos soldados japoneses em Cartas de Iwo Jima (2006)Além da Vida me lembrou mais A Troca (2008), em que Christine Collins (Angelina Jolie) mesmo diante de parcos vestígios da existência de seu filho - sumido e dado como morto pelas autoridades - se envereda por uma busca infrutífera; é a esperança de vida que a mantém viva. Todos os personagens de Além da Vida são, cada um a sua maneira, tocados pela morte. Quanto mais eles buscam saber do mundo de lá, mais eles se firmam no mundo daqui. O filme é cético em relação aos de lá, mas crente em relação aos daqui.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

O dinheiro (Robert Bresson, 1983)


O enquadramento em Bresson é primoroso, preciso. Pleno de informação. Vejo seus filmes tão esvaziado de expectativas, quase como uma obrigação, e sempre, sempre, sempre, sou forçado a rever minha indiferença: ele é simplesmente um gênio.

Eu pensava que O dinheiro caminhava para um desfecho a la Pickpocket (1959), do mesmo Bresson, que aliás eu tenho em alta conta. Depois de uma hora de projeção, quando o verde toma conta da tela - a cidade sai de cena - e o campo empresta sua aura imaculada ao mundo sombrio que prevalecia até então, uma senhora em forma de anjo irrompe no quadro e desarma todo o preconceito que eu já começava a nutrir pelo protagonista. Em uma cena pra se guardar na memória, em registro idílico, autêntico, o herói se põe a coletar avelã para a senhora, enquanto ela pendura lençóis brancos em um varal ao sopro do vento vespertino.

Como dizia no início do post, o enquadramento em Bresson é tudo. Ao longo da projeção ele nos avisa qual será o paradeiro de seu herói. São inúmeras cenas de portas, grades, trincos, cadeados, gavetas. Está tudo confinado. Inclusive seu protagonista. Na verdade, todos nós.

Meu apreço por Aurora (2010), de Cristi Puiu, que eu não havia gostado tanto na ocasião da Mostra, até aumentou. Bendito seja Bresson!

domingo, janeiro 16, 2011

O que eu vi de melhor em 2010: nacionais

Viajo porque preciso, volto porque te amo (Marcelo Gomes e Karim Ainouz, 2009) – qualquer filme, curta ou documentário que traga o nome dos dois envolvidos nesse projeto deve ser programa obrigatório. Ao invés de se construir o filme a partir de um roteiro, criou-se o roteiro a partir de imagens captadas na filmagem de outros trabalhos. Não é para todos os gostos, mas o espectador que embarcar na empreitada será agraciado com uma autêntica experiência cinematográfica. Road árido movie!

As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzky, 2010) – parece que o cinema nacional começa a prestar atenção no seu público adolescente. Estou, naturalmente, desconsiderando os projetos anuais da Xuxa e as últimas tentativas de Renato Aragão. Antes disso, e ainda assim muito recentemente, só havia o Jorge Furtado. Laís consegue fazer um filme divertido, alto astral, competente e bastante honesto.

Os famosos e os duendes da morte (Esmir Filho, 2009) – a fotografia de Mauro Pinheiro Jr. é fundamental para conferir ao filme o clima fantasmagórico que ele requer. De certa forma o oposto do filme da Laís: introspectivo, lento e melancólico. É difícil não compará-lo com as últimas incursões de Gus Van Sant pelo universo adolescente. Bela estréia de Esmir Filho em longa metragem.

Antes que o mundo acabe (Ana Luiza Azevedo, 2009) – outro belo filme que retrata os adolescentes, produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre. A trupe de Jorge Furtado toma as rédeas do projeto e nos entrega mais do mesmo: um cinema jovem, no tema e na execução, cheio de vida e ávido para se comunicar. Do Rio Grande do Sul para o mundo. Uma pena ele não ter encontrado um público numeroso enquanto estava em cartaz. Merecia!

O homem que engarrafava nuvens (Lírio Ferreira, 2009) – a sessão que eu peguei do filme no Espaço Unibanco estava repleta de senhoras. A comoção ao final da projeção era geral. Tinha gente voltando pra assistir de novo. Não é pra menos: o filme traça um panorama amplo de uma fase de ouro da música popular brasileira e discute, conceitualmente, os dois grandes eixos em torno do qual essa música se articula – o samba e o baião. Nele, o nordeste é protagonista. O documentário faz jus a persona de Humberto Teixeira, fiel colaborador de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Já faz algum tempo que o melhor do cinema nacional vem do nordeste.

Dzi Croquettes (Raphael Alvarez e Tatiana Issa, 2009) – para pessoas como eu, que não sabia da existência do grupo, o documentário presta um serviço precioso. A palavra contracultura nunca fez tanto sentido pra mim: aqui, o corpo é a arma de protesto. O balé dos corpos assume outro significado, sem, no entanto, perder sua candura.

Uma noite em 67 (Ricardo Calil e Renato Terra, 2010) – belo documentário editado, sobretudo, a partir de material de arquivo. Ótima decisão dos realizadores de não interferir no material com uma narração em off. São apenas os personagens contando e recontando suas façanhas e performances da histórica noite em 67. A história é posta a limpo.

Tropa de Elite 2 (José Padilha, 2010) – outro soco na boca do estômago. Mais maduro e depurado que o primeiro. Nas palavras de Inácio Araújo: “... Pode-se discutir ao infinito os filmes sobre a ação do Bope e seu capitão Nascimento. Com eles, o morro não é mais caso de cultura ou distribuição de renda. O problema central é de polícia e de corrupção (corrupção policial sobretudo). “Tropa de Elite” faz tudo voltar ao começo: a questão da favela não é bem a favela, mas o fato de a sociedade ter acreditado, o quanto pôde, que deixando os seus pobres à margem evitaria o contágio da boa sociedade com a outra.” Assino embaixo.

Reflexões de um liquidificador (André Klotzel, 2010) – o filme que faltava para formar a trilogia brasileira do humor negro/macabro com O cheiro do Ralo (2006), de Heitor Dhalia e Estômago (2007), de João Miguel. Um pouco menos marcante e inspirado do que os seus antecessores, mas nem por isso menos interessante. Assim como nas outras produções o elenco da um show à parte, em especial Ana Lúcia Torres. Um tesouro a ser descoberto.

Os inquilinos (Sérgio Bianchi, 2009) – um filme mais acessível do Bianchi. Sua ira está mais contida, mas seu inconformismo permanece o mesmo.