sexta-feira, setembro 30, 2011
segunda-feira, setembro 26, 2011
O Universo de Terrence Malick
É difícil começar um texto a
respeito de Terrence Malick, são tantos os pontos de partida... Pra dar conta
de toda a dimensão dos seus trabalhos eu teria de fazer um texto extenso, o que
não é a minha intenção. Pra encurtar, vou me ater a dois momentos de Dias de Paraíso (1978) e A Árvore da Vida (2011), que, a meu ver,
proporcionam uma boa reflexão das suas preocupações e da sua maneira de
enxergar as coisas.
Deixei a sessão de A Árvore da Vida convencido de que não
seria possível registrar qualquer pensamento em um texto sem antes assistir ao
filme dele que me faltava, Dias de
Paraíso – seus outros três são Terra
de Ninguém (1973), Além da Linha Vermelha (1998) e O Novo Mundo (2005). A impressão que fica é que desde sempre Terrence
Malick buscou filmar A Árvore da Vida,
numa espécie de evolução natural dentro da sua própria cinematografia. O que
não quer dizer que seus filmes anteriores sejam menos interessantes, complexos
ou importantes. Todos os seus anos de reclusão – de 1978 a 1998 ele não fez um
filme sequer – devem ter contribuído para amadurecer a concepção do projeto
ambicioso de A Árvore da Vida. É uma
enorme carga de informação concentrada em 2h19min de projeção, o típico filme concebido
pra ser explorado na telona do cinema. Sua dimensão não cabe na telinha da TV. Já
estou curioso pra saber qual caminho será trilhado pelo diretor a partir de seu
próximo projeto (que já se encontra em fase de pós-produção).
Honestamente, não sei se
compartilho de todo o entusiasmo que encontro nos textos da net, o que não quer
dizer necessariamente que tenha desgostado do filme, muito pelo contrário. Uma
coisa é certa: é impossível ficar indiferente a sua grandiosidade. Não é fácil
se livrar dele. Assistir a Dias de
Paraíso posteriormente ajudou a aumentar o meu apreço pelo filme.
Salvo O Novo Mundo, todos os seus outros quatro filmes são ambientados na
primeira metade do século passado e retratam, de maneira direta ou indireta, um
período que reside na memória do realizador. A Árvore da Vida é o mais autobiográfico de todos, conforme atesta
o trecho do livro Como a Geração Sexo,
Drogas e Rock-and-Roll Salvou Hollywood de Peter Biskind:
“Ele era tímido e introvertido, falava muito pouco. Malick vinha do Texas.
Seu pai era um executivo da Phillips Petroleum, e ele tinha dois irmãos mais
moços, Chris e Larry. Larry foi para a Espanha estudar violão com Segovia, um
professor cujo rigor era lendário. No verão de 1968, Terry soube que seu irmão
havia quebrado as próprias mãos, aparentemente enlouquecido com seus estudos. O
pai pediu que Terry fosse à Espanha ajudar Larry. Terry se recusou. O pai foi,
e voltou com o corpo de Larry. Aparentemente, ele cometera suicídio. Terry, o
irmão mais velho, fora coberto pelos privilégios da primogenitura. Ele é que
havia estudado em Harvard, tornara-se um Rhodes Scholar (prestigiosa bolsa de
estudos que permite a universitários americanos fazer pós-graduação em Oxford,
na Grã-Betanha), e quando seu irmão caçula mais precisara dele, tinha falhado.
Para sempre carregaria o peso da culpa."
Seus personagens quando crianças
ou adolescentes representam verdadeiros espíritos livres, inocentes, guiados
pelo prazer da fantasia e da descoberta; seus homens, adultos, embora sejam seres
capazes de amar impetuosamente, já estão corrompidos pela riqueza material,
pela ambição e pela ganância. O contraste entre essas duas “existências” é
reforçado pelos voices off (narração)
de Terra de Ninguém, Dias de Paraíso e
A Árvore da Vida: neles, os mais
jovens se prestam a observar as atitudes e decisões dos mais velhos, mesmo sem
compreendê-las. É uma espécie de voz da consciência do Malick jovem: o que fui
e o que me tornarei.
Uma cena de Dias de Paraíso e outra de A
Árvore da Vida, elaboradas de forma muito semelhante (do ponto de vista
cinematográfico), evidenciam esses dois momentos da “existência” dos Homens
(mais precisamente das figuras masculinas dos filmes de Malick): quando Bill
(Richard Gere em Dias de Paraíso) e o
jovem Jack (Hunter McCraken em A Árvore
da Vida) adentram uma casa que não lhes pertence. Embora Bill tenha sido
convidado pelo proprietário das terras (Sam Shepard) para usufruir da sua mansão
na sua ausência, uma vez lá dentro experimentamos um sentimento de invasão;
como adulto, ele se maravilha com a riqueza (material) dos bens dispostos nela
- ele herdará todo o patrimônio do proprietário caso seu golpe seja bem
sucedido. Já o jovem Jack viola a intimidade de uma vizinha em busca de uma
aproximação amorosa, afetiva; como criança, ele se maravilha com uma peça
íntima de uma mulher, como que ao “roubá-la” esteja dando vazão a sua fantasia,
seu desejo. É o despertar da sexualidade. Seus Homens se mostram ora sob a
forma de crianças inocentes, ora sob a forma de adultos corrompidos.
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Em Malick existe sempre uma força
superior, de caráter divino, regendo as vidas que habitam o nosso Universo. Seus
personagens estão sempre recorrendo ao Criador, na busca de respostas para os
eventos que lhes escapam à razão. Não é à toa que os voices off (dos narradores) de todos os seus filmes fazem menção a
Deus.
Em A Árvore da Vida, Malick parece encontrar a melhor forma para
representar a influência dessa “mão invisível” nos rumos de seus personagens, como
se quisesse organizar o caos que orienta nossas vidas. Essa ambição desmedida (não
consigo encontrar um termo melhor para expressar esse desejo) é que confere uma
aura de grandiosidade ao filme. Em Dias
de Paraíso a solução encontrada é mais simplória, nem por isso menos
interessante. Em A Árvore da Vida, a
reflexão que Malick propõe não diz respeito apenas aos personagens retratados,
mas a todos os seres em vida, aos que já viveram e aos que ainda estão por vir.
Quando Bill (Richard Gere)
percebe que o seu plano se aproxima de um desfecho indesejado, – seu golpe toma
um rumo inesperado (sua namorada, Brooke Adams, se apaixona pelo proprietário
das terras, Sam Shepard) – como que por um milagre, um grupo de circenses
irrompe no céu pilotando dois monomotores para “salvá-lo” dali antes que a
farsa seja desnudada. Um ano depois, quando ele retorna para a colheita da
safra e logo em seguida a plantação sofre o ataque súbito de uma praga
devastadora, fica implícito que ele é o vetor da desgraça, da danação. Seus
“salvadores involuntários” (mesma espécie) vêm do céu, bem como o seu
infortúnio, a praga (da natureza).
Em A Árvore da Vida, Malick complica mais as coisas: ele recorre aos
dinossauros pra falar de nós mesmos – mais precisamente da vida, da Natureza, “the way of grace and the way of nature”,
segundo as palavras iniciais de Mrs. O’Brien, a mãe (Jessica Chastain). Nas
duas únicas cenas em que eles aparecem, ora um deles é ferido por outros
predadores (da natureza), ora um deles é poupado por um de seus pares (mesma
espécie). Não somos os únicos a sucumbir aos caprichos da Natureza, em verdade,
todos os seres vivos trilham o mesmo caminho. A sucessão de imagens que remete
à criação do Universo explora muito bem essa ideia: vida e morte; início e fim
- sucessivos Ciclos de Vida asseguram a continuidade de uma espécie. Malick
inverte a lógica do Ciclo, iniciando pela morte de um dos três filhos da
família O’Brien, pra só então voltar ao nascimento do mesmo.
Embora eu tenha feito uma
analogia entre os dois filmes de forma a aproximá-los, é a diferença entre eles
que mais me interessa: em Dias de Paraíso,
Bill (Richard Gere) carrega consigo uma semente do mal, um desvio de conduta, de
forma que o seu retorno desequilibra
a harmonia do relacionamento entre Abby (Brooke Adams) e o Fazendeiro (Sam
Shepard), levando-o à morte - numa espécie de castigo; em A Árvore da Vida, o filho mais novo chamado de R.L (Laramie Eppler)
carrega toda a pureza da vida em seu interior, a inocência ou isenção de culpa,
de certa forma o equilíbrio, mas nem
por isso seu fim é menos dramático: ele também morre. A Natureza que nos dá a
vida é a mesma que nos priva dela.
Terrence Malick levou todo esse
tempo para enfrentar os seus fantasmas. O filme, na minha interpretação,
funciona como uma espécie de prestação de contas com o passado.
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Infelizmente, não consegui
cumprir com a minha intenção: o texto acabou ficando longo. Imagine se eu
tivesse me proposto a escrever sobre mais aspectos da filmografia de Malick?
PS: Cinzas do Paraíso ou Dias de Paraíso???? Inicialmente eu colocaria Cinzas do Paraíso, que foi o nome pelo qual eu conheci o filme de Malick muito antes de assisti-lo. Ao locá-lo, a capa do DVD - antigo - trazia o nome Dias de Paraíso. Na dúvida, fiquei com o DVD. O livro de Peter Biskind (Como a geração sexo, drogas e rock n' roll salvou Hollywood) se refere ao filme como Cinzas do Paraíso. Pra salvar a prosa da confusão talvez seja melhor ficar com o nome original do filme, Days of Heaven (Terrence Malick, 1978).
PS: Cinzas do Paraíso ou Dias de Paraíso???? Inicialmente eu colocaria Cinzas do Paraíso, que foi o nome pelo qual eu conheci o filme de Malick muito antes de assisti-lo. Ao locá-lo, a capa do DVD - antigo - trazia o nome Dias de Paraíso. Na dúvida, fiquei com o DVD. O livro de Peter Biskind (Como a geração sexo, drogas e rock n' roll salvou Hollywood) se refere ao filme como Cinzas do Paraíso. Pra salvar a prosa da confusão talvez seja melhor ficar com o nome original do filme, Days of Heaven (Terrence Malick, 1978).
sexta-feira, setembro 16, 2011
Singularidades de Manoel de Oliveira
Não é de estranhar que Manoel de
Oliveira reserve as melhores falas de Singularidade
de uma Rapariga Loura (2009) ao personagem do tio Francisco (Diogo Dória): ora pois, como diria um autêntico português,
ele é o alter ego de Oliveira, o único personagem sóbrio de todo o
filme. De início pensamos tratar-se de um carrasco insensível, um homem
amargurado que praticamente boicota a felicidade do sobrinho Macário (Ricardo
Trêpa), despedindo-o quando toma conhecimento das suas intenções de casar-se
com a bela vizinha Luísa (Catarina Wallenstein). Ocorre que, assim como
Macário, também nos apaixonamos de imediato pela bela Luísa e seu leque chinês,
de forma que torcemos por ele.
A mesma imagem que confunde a
cabeça de Macário engana os nossos sentidos: se converterá numa verdadeira
armadilha, como saberemos. Bem como ele, enxergamos apenas a superfície, o
invólucro, não o seu conteúdo. Aquilo
que vemos – ou talvez, aquilo que queremos ver – não comporta imperfeições ou questionamentos;
sendo assim, como julgar por mal uma imagem imaculada, cândida como a de Luísa?
A virada de mesa, que determinará
o verdadeiro julgamento que faremos do tio, vem da mesma linhagem retórica que levou
Manoel de Oliveira a costurar seus últimos filmes: a ironia (que, aliás, foi muito
bem aproveitada do texto de Eça de Queiroz). O tio, que já enxergava o conteúdo desde os primeiros flertes,
tentou avisar o jovem contador da impostora, porém foi injustamente tomado por insensível,
desumano. Ao final, entenderemos que Macário deveria tê-lo escutado, mas aí já
terá sido tarde. A cena em que o tio aceita o sobrinho de volta como
colaborador e aprova seu casamento, mesmo desgostoso de suas decisões
matrimoniais, é um primor de realização - dá até pra imaginar Oliveira se
divertindo atrás das câmeras, sarcástico.
Tudo em enxutos 63 minutos. Não
dá pra desrespeitar um senhor de mais de 100 anos de idade.
segunda-feira, setembro 12, 2011
Vincente Minnelli no CCBB
Não havia visto qualquer um dos títulos listados abaixo. Valeu a espera (inconsciente) para assistí-los em película 35mm. O catálogo elaborado para a Mostra, assinado por Luis Carlos Oliveira Jr. e Sérgio Alpendre, ficou impecável.
![]() |
| Madame Bovary (1949) - o filme vale pela cena do baile. |
quarta-feira, setembro 07, 2011
Ex-Isto (Cao Guimarães, 2010)
Fiquei curioso para ler o livro Catatau, de Paulo Leminski (1944-89), que
serviu de base para a realização do filme Ex-Isto
(2010), de Cao Guimarães. Embora eu saiba que não se trata de uma adaptação
convencional, o genial ponto de partida da empreitada se encontra todo lá: uma
viagem imaginária do filósofo racionalista francês René Descartes (interpretado
brilhantemente por João Miguel) ao Brasil, desembarcando como membro da
comitiva do holandês Maurício de Nassau (1604-1679) na ocupação de Pernambuco.
Desse mote interessantíssimo Cao Guimarães extraiu um filme sensorial,
exuberante, quase tátil, repleto de cores, sons e “cheiros”. Uma verdadeira
viagem pelo Brasil das contradições, dos paradoxos, da riqueza natural e do
povo resignado, que mesmo diante dos infortúnios encontra alegria onde
prevalece a miséria.
João Miguel começa bem vestido,
carregado de trajes de época dignos de um mosqueteiro e aos poucos vai se
despindo, peça por peça, culminando num banho de mar totalmente nu - reflexo do
calor tropical insuportável e da necessidade do filósofo de se
aproximar/tocar/sentir nossa exuberância:
água, terra e ar. São dois extremos bem captados por Cao Guimarães: no início bem
trajado, fotografado no segundo andar de uma biblioteca, “engolido” pela quantidade
de livros que o circundam; no final despido, fotografado em uma praia do nosso
extenso litoral, banhado pela areia, o sol e as águas do mar. O desempenho mudo
de João Miguel é a alma do filme, no estilo “estou, logo existo”. O voice-over
representa seu fluxo de consciência e justifica a célebre frase “penso, logo existo”. Ótimo filme.
quarta-feira, agosto 31, 2011
A perspicácia de Lumet
Folheando a coleção de críticas
de Antonio Moniz Vianna, organizada por Ruy Castro no livro intitulado Um filme por dia – Crítica de choque
(1946-73), encontrei uma pérola de comentário de Sidney Lumet no magnífico texto
do jornalista a respeito de The Pawnbroker
(O homem do prego, 1965).
... Um grande filme também na técnica narrativa, The Pawnbroker desperta a atenção crítica pela utilização do
chamado two frames cut. Desrespeitando
a ideia de que o olho humano não podia reter uma imagem com menos de três
fotogramas, Sidney Lumet usou dois e até um fotograma, dando a esses flashes de
memória uma claridade adequada e
imprescindível. E, vitorioso, observou: “Sempre me divertem os críticos de
vanguarda que costumam sentar-se e afirmar: Bem, esse two frames cut provém de L’année
dernière à Marienbad (O ano passado em Marienbad) e esse outro de... É uma
tolice. Só existe uma premissa geral: quase todas as coisas que qualquer um de
nós realizou pode ser encontrada num filme de John Ford”.
segunda-feira, agosto 29, 2011
Trabalho Interno (Charles Ferguson, 2010)
The financial industry is a service industry. It should serve others before it serves itself.
Christine Lagarde
Depois de 2010, qualquer lista de vilões do cinema que se preze deve, no mínimo, fazer uma menção honrosa ao documentário Trabalho Interno (2010), de Charles Ferguson. São duas horas de projeção alternando os relatos dos agentes que protagonizaram o processo que ficou conhecido como “crise dos subprimes” em 2008 e culminou com o colapso do sistema bancário dos Estados Unidos. No melhor estilo João Alves (falecido deputado do PPR, um dos “anões” do escândalo de roubo de recursos da União em 1993, alegou ser um ganhador contumaz de loterias ao depor na CPI do Orçamento – 221 prêmios), todos os entrevistados são primorosos em esquivar-se da parcela de culpa que lhes cabe ao serem questionados da responsabilidade que carregam pelo estado da saúde financeira que o mundo se encontra hoje – sobretudo os países do Primeiro Mundo.
Charles Ferguson traça um amplo panorama das engrenagens que movimentam esse mercado, esclarecendo de maneira bastante didática termos do economês que inflaram a mídia quando da quebra do banco Lehman Brothers em setembro de 2008 – derivatives, swaps, Credit Rating Agency (CRA), bonds, spreads, etc. A intenção é que o mais leigo dos espectadores se conscientize do estrago causado pela lei de desregulamentação promulgada pelo governo Ronald Reagan em 1982 - Lei Garn St.-German, na prática, “uma licença para apostar com o dinheiro do contribuinte, na melhor das hipóteses, ou simplesmente tomá-lo descaradamente, na pior delas”, conforme artigo de Paul Krugman no New York Times de 1 de julho de 2009. Uma das frases promocionais do documentário dá o tom do discurso: “If you’re not enraged by the end of the movie, you weren’t paying attention”. O grau de comprometimento das autoridades com o episódio é tamanho que nem os dirigentes das Instituições de Ensino Superior norte americanas (Harvard e Columbia) saem ilesos. Depois de terminado, fica a certeza de que “os peixes graúdos ainda dão as cartas do jogo”, além da farra estar literalmente institucionalizada.
O documentário desempenha, junto com Wall Street – Poder e Cobiça (1987) e Wall Street: O Dinheiro nunca Dorme (2010), ambos de Oliver Stone, o papel de um verdadeiro testemunho do efeito deletério capitalista. De quebra, adiciona mais um capítulo à desgastada relação do homem com o poder.
sexta-feira, agosto 26, 2011
Cinema, Nazismo e Melancolia
Conforme prometido no post anterior, reproduzo a matéria de Antônio Gonçalves Filho publicada no Estadão de 14 de agosto de 2011.
A frivolidade com que o cineasta dinamarquês Lar von Trier, no último Festival de Cannes, respondeu às perguntas de um jornalista sobre sua irresistível atração pelo monumental da estética nazista não deveria surpreender seus interlocutores. Sarcástico, ao assumir sua simpatia por Hitler, o fato é que seu filme Melancolia parece um simulacro de Titanic dirigido pelo espírito de Leni Riefenstahl, a cineasta do Führer que ajudou a formatar essa estética, ajudada na tarefa pelos pantagruélicos projetos arquitetônicos de Albert Speer (que Von Trier disse adorar na infeliz entrevista). Tudo que Melancolia tem de bom foi confiscado de outros cineastas, seguindo a lógica nazista de apropriação de bens. Pode-se ver isso desde seu prólogo wagneriano, que usa a tela de Brueghel, Os Caçadores na Neve, como signo da desolação - Tarkovski já fez isso há 40 anos em seu filme Solaris (1972), que, aliás também fala de uma ameaça interplanetária.
Como em Solaris, o planeta que perturba a vida dos terrestres em Melancolia pode não ser mais que a projeção de uma doença mental provocada pelo confronto com a morte. Em outras palavras: a depressão, o mal do século. Von Trier foi uma de suas vítimas. A causa mesmo do existir Melancolia deve-se a ela. Assim, Justine, a publicitária que na noite do tumultuado casamento perde o marido e o emprego, é mais ou menos como os caçadores deprimidos de Brueghel que, num dia de inverno, regressam ao lar após uma expedição desastrosa, seguidos por cães famintos de aspecto miserável.
Em seu desesperado exercício para ser um Gesamtkunswerk wagneriana, o prólogo de Melancolia confisca do pintor John Everett Millais outra imagem do repertório kitsch universal, o da morte de Ofélia, a noiva afogada de Hamlet. Nada a estranhar. Os oito minutos desse prólogo, da “obra de arte total” de Von Trier, embalado pelo prelúdio de Tristão e Isolda, fazem da deprimida Justine uma versão atualizada da demente Ofélia em Elsinore. Seu caso de amor está destinado ao fiasco, sua família é monstruosa e, ainda por cima, terá de enfrentar um planeta dez vezes maior que a Terra na segunda parte do filme. Sim, porque tudo é binário em Von Trier, cineasta que, no passado, já deu maiores provas de criatividade – e um exemplo disso é Ondas do Destino (Breaking the Waves).
Melancolia é dividido em duas partes. Na primeira parte, o desastre propriamente dito é o núcleo familiar, como nos filmes de seu amigo Thomas Vinterberg, um dos signatários do Dogma (1995), manifesto cinematográfico que ambos criaram e depois destruíram. O casamento de Justine vira uma festa de insultos, a mãe se recusa a participar do ritual, o noivo a abandona e, por fim, chega-se à segunda parte. Nela, a noiva deprimida é recebida na mansão da irmã (ativa, enérgica, em tudo diferente dela). O cunhado, astrônomo amador, anuncia que um planeta viaja em direção à Terra e Justine, passivamente, aceita seu destino (para um deprimido, o fim do mundo é, afinal, a solução de seus problemas). É a velha história do Titanic com o iceberg.
O formalismo hollywoodiano de Melancolia já se anuncia na estética publicitária de seu prólogo – a tragédia filmada em slow motion, como um comercial do apocalipse. E continua ainda na primeira parte. A fúria da noiva Justine (Kirsten Dunst), na biblioteca do cunhado, ao trocar ilustrações de Malevitch por obras figurativas, indica não só uma dificuldade de convivência da deprimida com o suprematismo russo. Ela aponta para uma mudança de direção estética de Von Trier – da abstração de Dogville ao realismo de Melancolia, um “disaster movie” disfarçado de drama existencial. Convém lembrar que o nazismo classificou como “arte degenerada” o abstracionismo, elegendo como arte oficial a pintura realista. Condenar mais uma vez Malevitch (acusado de subjetivismo pela ditadura soviética) parece injusto. E gratuito.
Talvez Von Trier, em sua crise depressiva, tenha mesmo abjurado a abstração de Dogville (um filme sem cenário, que obriga o espectador a imaginá-lo) e, afinal, renegado os próprios mandamentos do Dogma. É licito. Todo mundo tem direito a uma revisão filosófica e estética. Mas o que diriam os religiosos se Moisés tivesse deliberadamente trocado as tábuas da Lei no Monte Sinai? Von Trier, com Melancolia, joga definitivamente seu decálogo no lixo – bem, já havia jogado antes, é certo, ao colocar uma interrogação sobre seus filmes dos anos 1990.
Não seria grave se o Dogma tivesse outro propósito além de ser um disfarce cínico da retórica apocalíptica do diretor dinamarquês. Se o seu decálogo pretendia (de fato) ser um ato de resgate do cinema puro, livre da exploração industrial, hoje o cinema de Von Trier curva-se à monumentalidade do espetáculo hollywoodiano. É impossível esquecer que os nazistas, como já denunciou o cineasta Peter Cohen, planejavam grandes obras arquitetônicas para virar belas ruínas. “A Terra é má”, diz Justine à Irmã, justificando a crença simplista na “solução final” representada pelo planeta Melancolia. Ainda bem que existe Terrence Malick para voltar às origens – da Terra e do cinema.
sexta-feira, agosto 19, 2011
Melancolia (Lars von Trier, 2011)
Do filme se falou pouco. As declarações (nem tão) polêmicas (assim) de Lars von Trier na coletiva de imprensa do Festival de Cannes deste ano ofuscaram a discussão que a obra poderia despertar. Uma pena. Daria um belo debate.
A estória do filme, como de hábito em Von Trier, é relativamente simples: um planeta chamado Melancolia está em rota de colisão com a Terra. Duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), reagem ao fato de formas distintas: a primeira com serenidade; a segunda com desespero. Na beira do caos, Lars von Trier encena um frágil jogo de aparências – uma família que se desintegra – repleto de signos e metáforas.
As fotos que ilustram esse post são do belíssimo prólogo do filme. Da mesma forma que fizera com Anticristo (2009), Lars Von Trier opta por começar com uma sequência de imagens estilizadas, embalada por uma trilha sonora sem diálogos (a Ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner) – aproximadamente uns dez minutos. Em Anticristo, esse início é basicamente uma introdução à estória que está prestes a ser contada, já em Melancolia assistimos a uma sucessão de cenas bem fotografadas que serão devidamente reconhecidas ao longo da projeção, num verdadeiro resumo do que está por vir. Não um resumo convencional (com fragmentos de cenas do filme), mas um apanhado de imagens sugestivas, carregadas de simbolismos, evocando a pintura surrealista, em que a Natureza responde à hostilidade do ser humano. Enfim, pode ser visto como um verdadeiro curta-metragem que serve bem ao filme e tem vida própria.
Alguns dias após a sessão, uma questão não me foge a cabeça: teria sido o prólogo formalmente concebido na ocasião em que o filme só existia no papel, ou teria sido criado durante o processo de montagem a fim de “corrigir” e/ou “intensificar” a emoção requerida? Faço-me essa pergunta por que tento imaginar o que seria do filme sem ele.
Ao contrário de outras películas de Von Trier, nesta os personagens secundários não ficaram bem delineados: eles existem apenas como peças simbólicas, como meras representações, como caricaturas. Compartilham entre si um ar de superioridade, uma atitude meio blasé. Somente a personagem principal ganhou contornos mais expressivos. Em outros filmes do diretor, a protagonista, como agente da ação, determina os rumos da trama; em Melancolia, se passa o inverso: ela não age, apenas reage ao anunciado fim do mundo. Ela se encontra apática, estática, imóvel – física e metaforicamente. Embora a encenação se passe em apenas dois cenários, o que serviria de justificativa para a suposta imobilidade da personagem, Dogville (2003) e Manderlay (2005), que se desenrolam sob um palco teatral repleto de marcações cênicas (um único cenário), não padecem do mesmo problema.
Essas relações frouxas que os personagens mantêm entre si, sobretudo dos secundários para com a protagonista, enfraquecem toda a carga dramática inerente à proposta inicial. A dramaturgia densa, cuidadosa, construída com o rigor habitual de Von Trier em outras ocasiões, se mostra carente de energia aqui. Como defesa haverá quem diga, com boa dose de razão, que energia não é o ponto forte dos melancólicos... O primeiro capítulo, intitulado de Justine, é o que mais sofre com essa fraqueza da mise-en-scène; é nele que os coadjuvantes fazem a festa. Lar von Trier, como forma de compensação, poderia ter inserido algumas das belas imagens metafóricas do prólogo intermediando o enredo deste primeiro capítulo. Muitas delas caberiam nele. Até acredito que ele tenha tentado isso, todavia, o resultado certamente não se mostrou satisfatório (não é difícil imaginar o fracasso da tentativa).
O segundo capítulo (de título Claire), centrado totalmente na reação da protagonista e da sua irmã ao anunciado fim do mundo, já não conta com a presença física dos personagens secundários (a não ser a irmã e seu marido), apenas com a influência dos seus fantasmas sobre ela; de sorte que sobra mais tempo pra investir nas imagens. O capítulo de Justine, mesmo mal equilibrado, estabelece as bases para que a segunda parte possa se livrar das explicações, das amarras do roteiro, concentrando seus esforços no impacto visual (e sensorial) – a luz (ou ausência dela), os diversos ângulos do jardim da mansão captados de dia e de noite e os closes do planeta Melancolia. A ameaça encontra o espectador não somente na reação das atrizes ao aguardado apocalipse, ela vem também por meio do elaborado trabalho de som que Von Trier emprega pra dar conta da dimensão do evento (especialmente quando o planeta se encontra fora de quadro), além, é claro, da magnífica fotografia que reproduz à altura qualquer representante hollywoodiano que se prestou a isso nos últimos tempos – eu diria que melhor até!
Mesmo depois de toda essa prosa, que apresenta um acentuado tom negativo, minha avaliação da obra, paradoxalmente, é das melhores. Estou convencido de que o diretor acertou o ponteiro do filme enquanto montava as peças desta alegoria. O primeiro capítulo, após a edição, não surtiu o efeito dramático almejado pelo diretor. Cada imagem surrealista, de caráter explicativo/metafórico, captada para ser inserida no momento certo - no melhor estilo “uma imagem vale mais que mil palavras” -, não foi capaz de compensar a fragilidade da dramaturgia (curiosamente, um dos pontos fortes dos filmes de Von Trier). Então porque desperdiçar esse material de impacto sobreposto a outro não tão memorável? O prólogo surgiu como uma alternativa pra solucionar esse problema (que, inclusive, já fora utilizado com sucesso em Anticristo). A decisão foi certeira, supondo, naturalmente, que esse raciocínio seja válido.
Embora o filme forme um conjunto desigual seu impacto é duradouro, sendo mais significativa a contribuição do prólogo para gerar esse efeito. Prova maior disso é que o prólogo existe sem o filme, já o filme quase inexiste (ou melhor, não seria o mesmo) sem o prólogo. Apesar da ênfase do texto nas primeiras imagens, o filme conta com outras dignas de nota, especialmente, como já comentado, no segundo capítulo. Na primeira parte, eu destacaria a cena da limusine emperrada em uma curva no meio da floresta, que comporta diferentes leituras: literal – a dificuldade de um carro enorme em fazer uma curva acentuada na floresta, atrasando os noivos para a cerimônia de casamento; figurada – 1) o progresso humano, representado pelo automóvel, não vale de nada comparado à força da natureza e 2) as forças ocultas (que emanam da própria noiva e/ou da natureza) se manifestam contrárias ao casamento de Justine.
Enquanto eu escrevia essas linhas, a mídia impressa contou com vários colaboradores de seus respectivos canais (nem todos críticos de cinema) expressando suas opiniões a respeito do filme. A que mais me chamou a atenção foi a de Antônio Gonçalves Filho, do Estadão do último domingo (14/08/11). Mesmo com alguns pontos de discordância, reproduzo seu artigo no próximo post.
sexta-feira, agosto 12, 2011
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