sexta-feira, outubro 21, 2011
domingo, outubro 16, 2011
O melhor de Trabalhar Cansa
Zapeando na net encontrei o melhor texto de Trabalhar Cansa que consegui encontrar.
Foi escrito por Fernando Watanabe em seu blog e acabou sendo aproveitado pelo Cinequanon (onde eu o encontrei).
Na minha opinião, ele dá conta do recado excepcionalmente bem.
Por Fernando Watanabe
O
filme possui vários planos que começam com o quadro vazio, como se o espectador
devesse observar os espaços antes da ação propriamente dita começar. Ainda (e
agora é uma interpretação minha), esse mecanismo, usado repetidas vezes nos
espaços principais do filme, materializam em mise-en-scène uma ideia essencial
que permeia o filme, ideia esta que talvez seja uma visão de mundo: os
personagens são títeres de um jogo (de cartas marcadas), prisioneiros de um
sistema, peões que se movem num tabuleiro demasiado fechado. E claustrofóbico.
Duas frases do filme:
"A gente coloca uma tela pra disfarçar". Disfarçar, no caso, a
sujeira e a ruína sob a qual está erguida a estrutura do supermercado. Por trás
dos atraentes produtos, da fachada brilhante e do papai noel que dança feliz,
há sujeira, muita sujeira.
"Não brinca com isso, filha, tem muita sujeira". Helena, ao reprimir
a filha que brincava com o dinheiro do caixa, dispara a frase que contém o
filme em si.
O filme com sua câmera clínica diagnostica a melancolia e a apatia, sintomas
detectados (ao modo de um cirurgião, porém um cirurgião pouco invasivo,
distanciado, mais clínico) principalmente em uma classe, a média.(Aliás, que legal assistir um filme que mostra a classe média sem a iluminação
"30 refletores por cena" da Globo Filmes e também sem a degradação
doentia do arnaldo jabor rodriguiano.)
A questão de classe me chamou muita atenção. Por mais que os três principais
personagens secundários da "classe baixa" estejam de alguma forma
oprimidos pela lógica do dinheiro, todos eles possuem momentos de alegria: o
rapaz que trabalha para Helena e termina demitido, em certo momento, ao fundo
de um plano beija sua namorada (enquanto em primeiro plano o casal classe média
está preocupado, sempre preocupado...). A senhora que trabalha no caixa é uma
piriguete animada com o novo "pretendente" com quem está saindo. A
empregada doméstica se encanta com o carnaval, e a sua irmã planeja uma pegação
com um rapaz. Eles têm tesão. Já o casal da classe média só esboça fazer sexo
no momento em que eles conseguem um sucesso voltado ao dinheiro: é quando
Helena consegue alugar a loja para abrir o seu negócio.
Portanto, as individualidades estão reprimidas por um mundo guiado pela
racionalidade utilitária que não encontra alegria em nada que não leve a
"progressos" materiais (Preocupados, sempre preocupados demais).
Momento forte: Helena assiste o desfile das escolas de samba na TV ao lado da
empregada doméstica. A segunda se encanta. Já a primeira é incapaz de ser
alegre, incapaz de se apaixonar, incapaz de amar qualquer coisa de modo puro:
já se encontra esgotada pelas preocupações que a lógica capitalista que rege
não apenas seu trabalho, mas sua VIDA nos mínimos detalhes, causa em sua mente.
Mente exausta, corpo exausto. Mente robótica (inconsciente), corpo autômato.
Paralisado. Impotente.
A crueldade do dinheiro chega ao ponto de degradar as relações humanas, e isso
fica mais acentuado quando helena grita para Otávio "Tá com medo que sua
filha ache que você é um bosta? (por não conseguir emprego)". Isso me
lembra "L`Argent"(O Dinheiro) e "Le Diable, Probablement"
(O Diabo, Provavelmente), as obras máximas desesperadas do final da vida de
Robert Bresson.
Estilisticamente, o filme é Bresson + Hitchcock + Haneke + Jelinek + um monte
de coisa que não conheço. Ao mesmo tempo, tem uma cara própria, a cara de uma
parcela da juventude brasileira contemporânea que, no mundo, tal qual ele se
encontra, está e sempre estará fora de casa. Ainda assim, essa juventude (a
nossa?) é privilegiada (ou não?) por poder, alegremente (o filme tem senso de
humor), paralisar o relógio que marcha e criar nesse lapso de tempo uma zona de
inconformismo criativo.
quinta-feira, outubro 13, 2011
Bróder (Jeferson De, 2010)
Felizmente a Mostra Permanente de Cinema Brasileiro do
Cine Cauim em Ribeirão Preto está de volta. Depois de um longo hiato de alguns
bons meses, uma parte dos lançamentos nacionais restrito ao circuito
alternativo começa a aportar no melhor cinema da cidade. Melhor de tudo é a
presença dos diretores e/ou atores das produções no bate papo que rola após a
exibição do filme, viável somente pela parceria firmada com o SESC.
No mês de agosto eu perdi a data
de Estamos Juntos (2011), de Toni
Venturi, e muito provavelmente devo perder a data de Natimorto (2010), de Paulo Machline, no mês de outubro. Embora eu
já tivesse visto Estamos Juntos, nada
como uma sessão de perguntas e respostas com o mentor do projeto. O Natimorto parece que está fugindo de
mim: perdi sessões em São Paulo (optei na ocasião por assistir a Bolywood Dream, de Beatriz Seigner) e a
exibição no Cinemark de Ribeirão Preto.
Em setembro consegui comparecer
no dia em que Bróder (2010), de
Jeferson De, foi apresentado. No filme, três amigos de infância que respondem
por Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Silvio Guidane) se
reúnem na casa de Dona Sônia (Cássia Kiss), mãe de Macu, pra celebrar o
aniversário deste. Embora todos sejam filhos do Capão Redondo (distrito
pertencente à subprefeitura do Campo Limpo, na cidade de São Paulo), apenas Macu
ainda reside na região como morador - cresceu fora do eixo familiar e às
margens do crime. Nas inúmeras conversas de esguelha que ele mantém com um
sujeito estranho à comunidade, não tarda para que compreendamos que algo errado está sendo planejado – o entusiasmo de Jeferson pela obra de Shakespeare não
nega fogo, a tragédia se fará presente.
Jaiminho é um futebolista bem
sucedido – vestindo a camisa de um time espanhol - em passagem pelo Brasil para
comemorar o aniversário de Macu. Pibe é o único dos três que leva uma vida
ordinária: casado, com um emprego fixo e pai de uma criança. Desse encontro não
tão improvável entre três amigos de infância, Jeferson De dramatiza o que ele
considera os três únicos destinos reservados aos brasileiros hoje em dia: o
comum (meu, seu, o dele, de um número expressivo de pessoas e de Pibe), a criminalidade
(Macu) ou a fama (Jaiminho). O projeto ficou engavetado durante uns dez anos e
assumiu diferentes versões ao longo do tempo. A direção de Jeferson é tão
segura que nem se nota que estamos diante da estréia do diretor em longas
metragens. Ao contrário do que foi amplamente divulgado na mídia quando do
lançamento do filme, Jeferson não cresceu na periferia de São Paulo, nasceu e
passou a infância em Taubaté, interior do estado. Seu contato com o Capão
Redondo veio mais tarde, quando cursava cinema na USP.
Jeferson não queria abordar o
racismo de maneira direta; a ideia era fazer um filme que não soasse
panfletário, em que a questão do negro fosse explorada de forma menos
sensacionalista e mais honesta, o mais fiel possível a realidade. Seu ponto de
partida foi abordar algo que sempre lhe chamou a atenção: o conceito de
negritude. Na conversa com o público presente no Cauim ele fez a seguinte pergunta:
“O que é a negritude?”, após um silêncio constrangedor ele mesmo respondeu, “Negritude
todo mundo sabe o que é: a capoeira, a feijoada, o blues, o samba, etc. E a
branquitude?”, silêncio de novo... “Ninguém sabe.” O personagem de Macu,
branco, incorpora essa ideia, ele representa esse desejo do branco de “se
tornar negro”, de se fundir a esse conjunto de valores culturais do mundo negro
e se apropriar deles.
A propósito dessa ideia, ela me
remete a uma cena (que resgato da memória) do ótimo Faça a Coisa
Certa (1989), de Spike Lee, cuja influência no cinema de Jeferson De se faz
notar claramente. Nela, um jovem negro residente do Brooklyn em Nova York
questiona o filho do proprietário de uma pequena pizzaria do bairro (John
Turturro), branco, a respeito dos retratos pregados na parede do
estabelecimento de seu pai (Danny Aielo): Michael Jordan, Sidney Poitier,
Martin Luther King, Magic Johnson, etc. Ele não consegue entender como um
empresário branco bem sucedido, de mente supostamente sã, é capaz de eleger
como ídolos somente cidadãos de descendência negra. Ele fica inconformado por
não haver quadros de personalidades brancas em um território predominantemente
branco. No cinema de Spike Lee o racismo é uma via de mão dupla e representá-lo
é tão difícil quanto reconhecê-lo.
O cotidiano do Capão Redondo
retratado pelo filme não enxerga a fronteira entre o branco e o negro. A
pobreza não tem cor. Isso proporciona a Jeferson liberdade para brincar com os
estereótipos raciais e lhe confere margem para invertê-los sem
descaracterizá-los: o criminoso é o branco; o jogador de futebol é o negro. Não
que essa opção tenha distanciado o seu filme da realidade (muito pelo
contrário), mas é certo que o inverso aproximaria sua abordagem de um discurso
racial de apelo mais fácil. Justamente o que Jeferson tentou evitar. O
preconceito tarda a aparecer e quando dá as caras não poderia ser melhor
representado: quando os três amigo são parados pela polícia em uma blitz
rodoviária só Pibe e Jaiminho são convidados (na base da força) a sair do
carro, Macu é poupado dos excessos da corporação.
Na condição de negro, Jeferson contou,
em tom irônico, que havia encontrado a melhor forma de evitar que fosse
confundido com um ladrão enquanto caminhava pelas ruas da capital paulista: “o
negócio é andar sempre de óculos e com um livro debaixo do braço, negro
intelectual não faz parte do imaginário comum”.
É curioso como mesmo depois de duas
semanas da projeção a presença enigmática de Cássia Kiss ocupe a maior parte das
minhas lembranças do filme. É impressionante como ela confere grandeza a uma
personagem que ocupa a tela por poucos instantes (embora seja central na trama
do filme). Como bem lembrou Jeferson, o encontro dos três amigos só acontece
por causa do convite de Dona Sônia – o trágico elevado ao quadrado. A cena dela
com a filha é uma das mais fortes que vi no cinema atualmente. E claro, Caio
Blat está cada vez melhor, pra não dizer perfeito.
sábado, outubro 08, 2011
Trabalhar Cansa (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011)
A produção de longas metragens
nacionais anda a todo vapor. O caderno Ilustrada
da Folha de S.Paulo na edição da
última terça feira, dia 04 de outubro, publicou em sua capa uma matéria extensa
do cinema independente nacional que, mesmo em escala ínfima, conseguiu chegar
às telas dos cinemas da capital paulista. São produções da Alumbramento (Estrada para Ythaca, Os Monstros), do Teia (Girimunho),
da Filmes do Caixote (Trabalhar Cansa) e da Duas Mariola (A Fuga da Mulher
Gorila, A Alegria). Pra minha surpresa (e bota surpresa nisso) Trabalhar Cansa (2011), de Juliana Rojas
e Marco Dutra, estreou no cinema de Ribeirão Preto. E, curiosamente, não foi
no Cauim, que eventualmente serve de espaço para essa produção periférica.
Embora eu saiba que isso não represente muita coisa, só o fato de eu não precisar
me deslocar até São Paulo ou aguardar a estréia do longa-metragem no Canal
Brasil já serviu de consolo. Pena que, a julgar pelo público presente na sessão
em que eu estava, a carreira do filme nas telas de Ribeirão Preto não deverá
durar muito.
Eu gosto bastante desses filmes
que se vendem como um determinado produto, ou gênero talvez, e acabam se mostrando
bem mais complexos do que aparentam. Normalmente são filmes que atraem o
público por determinadas características (naturalmente atrativas, por meio de clichês, por exemplo), e acabam fazendo
uso delas para explorar outras esferas de interesse não circunscritas apenas ao
apelo comercial que levou tal público a procurá-lo. Às vezes, o resultado
cheira a enganação, fazendo jus à expressão “comer gato por lebre”; em outras,
nos leva a reflexões que não teriam o mesmo impacto caso o tratamento dado
fosse mais convencional – aqui, o gênero potencializa o efeito do filme, se
mostrando como a opção mais adequada para fazer o filme “funcionar”.
Trabalhar Cansa se enquadra perfeitamente no segundo grupo:
aproveita o gênero fantástico pra extrair alguma coisa (bastante relevante) a
mais da fórmula. A exploração do gênero, nesse caso, evita que o filme soe demasiado
panfletário, contribuindo para amenizar o “peso da mensagem”. Nem tudo é dito e/ou
esclarecido, de forma que cabe ao público estabelecer as associações entre os
elementos dispostos para conferir sentido ao que se vê. Nada é imposto ao
espectador, tudo é sugerido.
O filme acaba fazendo uma
poderosa reflexão a respeito das relações de trabalho no mundo moderno. Quem
quer que veja o filme, se identificará com alguma ocorrência semelhante em sua
própria vida. A comicidade surge do absurdo de determinadas situações a que os
personagens se sujeitam, em especial o Otávio de Marat Descartes. A cena final me
lembrou o grito desesperado de Peter Lorre na obra-prima de Fritz Lang, M, O Vampiro de Dusseldorf (1931). De
alguma forma, enquanto eu assistia, minha referência era O Corte (2009), de Costa-Gavras – talvez pela temática e o humor (negro)
associado à abordagem. Melhor referência fez a reportagem da Folha ao associá-lo ao universo de
Joon-ho Bong (O Hospedeiro e Mother – A busca pela verdade). Mais
justo!
sexta-feira, setembro 30, 2011
À margem da sociedade
segunda-feira, setembro 26, 2011
O Universo de Terrence Malick
É difícil começar um texto a
respeito de Terrence Malick, são tantos os pontos de partida... Pra dar conta
de toda a dimensão dos seus trabalhos eu teria de fazer um texto extenso, o que
não é a minha intenção. Pra encurtar, vou me ater a dois momentos de Dias de Paraíso (1978) e A Árvore da Vida (2011), que, a meu ver,
proporcionam uma boa reflexão das suas preocupações e da sua maneira de
enxergar as coisas.
Deixei a sessão de A Árvore da Vida convencido de que não
seria possível registrar qualquer pensamento em um texto sem antes assistir ao
filme dele que me faltava, Dias de
Paraíso – seus outros três são Terra
de Ninguém (1973), Além da Linha Vermelha (1998) e O Novo Mundo (2005). A impressão que fica é que desde sempre Terrence
Malick buscou filmar A Árvore da Vida,
numa espécie de evolução natural dentro da sua própria cinematografia. O que
não quer dizer que seus filmes anteriores sejam menos interessantes, complexos
ou importantes. Todos os seus anos de reclusão – de 1978 a 1998 ele não fez um
filme sequer – devem ter contribuído para amadurecer a concepção do projeto
ambicioso de A Árvore da Vida. É uma
enorme carga de informação concentrada em 2h19min de projeção, o típico filme concebido
pra ser explorado na telona do cinema. Sua dimensão não cabe na telinha da TV. Já
estou curioso pra saber qual caminho será trilhado pelo diretor a partir de seu
próximo projeto (que já se encontra em fase de pós-produção).
Honestamente, não sei se
compartilho de todo o entusiasmo que encontro nos textos da net, o que não quer
dizer necessariamente que tenha desgostado do filme, muito pelo contrário. Uma
coisa é certa: é impossível ficar indiferente a sua grandiosidade. Não é fácil
se livrar dele. Assistir a Dias de
Paraíso posteriormente ajudou a aumentar o meu apreço pelo filme.
Salvo O Novo Mundo, todos os seus outros quatro filmes são ambientados na
primeira metade do século passado e retratam, de maneira direta ou indireta, um
período que reside na memória do realizador. A Árvore da Vida é o mais autobiográfico de todos, conforme atesta
o trecho do livro Como a Geração Sexo,
Drogas e Rock-and-Roll Salvou Hollywood de Peter Biskind:
“Ele era tímido e introvertido, falava muito pouco. Malick vinha do Texas.
Seu pai era um executivo da Phillips Petroleum, e ele tinha dois irmãos mais
moços, Chris e Larry. Larry foi para a Espanha estudar violão com Segovia, um
professor cujo rigor era lendário. No verão de 1968, Terry soube que seu irmão
havia quebrado as próprias mãos, aparentemente enlouquecido com seus estudos. O
pai pediu que Terry fosse à Espanha ajudar Larry. Terry se recusou. O pai foi,
e voltou com o corpo de Larry. Aparentemente, ele cometera suicídio. Terry, o
irmão mais velho, fora coberto pelos privilégios da primogenitura. Ele é que
havia estudado em Harvard, tornara-se um Rhodes Scholar (prestigiosa bolsa de
estudos que permite a universitários americanos fazer pós-graduação em Oxford,
na Grã-Betanha), e quando seu irmão caçula mais precisara dele, tinha falhado.
Para sempre carregaria o peso da culpa."
Seus personagens quando crianças
ou adolescentes representam verdadeiros espíritos livres, inocentes, guiados
pelo prazer da fantasia e da descoberta; seus homens, adultos, embora sejam seres
capazes de amar impetuosamente, já estão corrompidos pela riqueza material,
pela ambição e pela ganância. O contraste entre essas duas “existências” é
reforçado pelos voices off (narração)
de Terra de Ninguém, Dias de Paraíso e
A Árvore da Vida: neles, os mais
jovens se prestam a observar as atitudes e decisões dos mais velhos, mesmo sem
compreendê-las. É uma espécie de voz da consciência do Malick jovem: o que fui
e o que me tornarei.
Uma cena de Dias de Paraíso e outra de A
Árvore da Vida, elaboradas de forma muito semelhante (do ponto de vista
cinematográfico), evidenciam esses dois momentos da “existência” dos Homens
(mais precisamente das figuras masculinas dos filmes de Malick): quando Bill
(Richard Gere em Dias de Paraíso) e o
jovem Jack (Hunter McCraken em A Árvore
da Vida) adentram uma casa que não lhes pertence. Embora Bill tenha sido
convidado pelo proprietário das terras (Sam Shepard) para usufruir da sua mansão
na sua ausência, uma vez lá dentro experimentamos um sentimento de invasão;
como adulto, ele se maravilha com a riqueza (material) dos bens dispostos nela
- ele herdará todo o patrimônio do proprietário caso seu golpe seja bem
sucedido. Já o jovem Jack viola a intimidade de uma vizinha em busca de uma
aproximação amorosa, afetiva; como criança, ele se maravilha com uma peça
íntima de uma mulher, como que ao “roubá-la” esteja dando vazão a sua fantasia,
seu desejo. É o despertar da sexualidade. Seus Homens se mostram ora sob a
forma de crianças inocentes, ora sob a forma de adultos corrompidos.
****************************
Em Malick existe sempre uma força
superior, de caráter divino, regendo as vidas que habitam o nosso Universo. Seus
personagens estão sempre recorrendo ao Criador, na busca de respostas para os
eventos que lhes escapam à razão. Não é à toa que os voices off (dos narradores) de todos os seus filmes fazem menção a
Deus.
Em A Árvore da Vida, Malick parece encontrar a melhor forma para
representar a influência dessa “mão invisível” nos rumos de seus personagens, como
se quisesse organizar o caos que orienta nossas vidas. Essa ambição desmedida (não
consigo encontrar um termo melhor para expressar esse desejo) é que confere uma
aura de grandiosidade ao filme. Em Dias
de Paraíso a solução encontrada é mais simplória, nem por isso menos
interessante. Em A Árvore da Vida, a
reflexão que Malick propõe não diz respeito apenas aos personagens retratados,
mas a todos os seres em vida, aos que já viveram e aos que ainda estão por vir.
Quando Bill (Richard Gere)
percebe que o seu plano se aproxima de um desfecho indesejado, – seu golpe toma
um rumo inesperado (sua namorada, Brooke Adams, se apaixona pelo proprietário
das terras, Sam Shepard) – como que por um milagre, um grupo de circenses
irrompe no céu pilotando dois monomotores para “salvá-lo” dali antes que a
farsa seja desnudada. Um ano depois, quando ele retorna para a colheita da
safra e logo em seguida a plantação sofre o ataque súbito de uma praga
devastadora, fica implícito que ele é o vetor da desgraça, da danação. Seus
“salvadores involuntários” (mesma espécie) vêm do céu, bem como o seu
infortúnio, a praga (da natureza).
Em A Árvore da Vida, Malick complica mais as coisas: ele recorre aos
dinossauros pra falar de nós mesmos – mais precisamente da vida, da Natureza, “the way of grace and the way of nature”,
segundo as palavras iniciais de Mrs. O’Brien, a mãe (Jessica Chastain). Nas
duas únicas cenas em que eles aparecem, ora um deles é ferido por outros
predadores (da natureza), ora um deles é poupado por um de seus pares (mesma
espécie). Não somos os únicos a sucumbir aos caprichos da Natureza, em verdade,
todos os seres vivos trilham o mesmo caminho. A sucessão de imagens que remete
à criação do Universo explora muito bem essa ideia: vida e morte; início e fim
- sucessivos Ciclos de Vida asseguram a continuidade de uma espécie. Malick
inverte a lógica do Ciclo, iniciando pela morte de um dos três filhos da
família O’Brien, pra só então voltar ao nascimento do mesmo.
Embora eu tenha feito uma
analogia entre os dois filmes de forma a aproximá-los, é a diferença entre eles
que mais me interessa: em Dias de Paraíso,
Bill (Richard Gere) carrega consigo uma semente do mal, um desvio de conduta, de
forma que o seu retorno desequilibra
a harmonia do relacionamento entre Abby (Brooke Adams) e o Fazendeiro (Sam
Shepard), levando-o à morte - numa espécie de castigo; em A Árvore da Vida, o filho mais novo chamado de R.L (Laramie Eppler)
carrega toda a pureza da vida em seu interior, a inocência ou isenção de culpa,
de certa forma o equilíbrio, mas nem
por isso seu fim é menos dramático: ele também morre. A Natureza que nos dá a
vida é a mesma que nos priva dela.
Terrence Malick levou todo esse
tempo para enfrentar os seus fantasmas. O filme, na minha interpretação,
funciona como uma espécie de prestação de contas com o passado.
****************************
Infelizmente, não consegui
cumprir com a minha intenção: o texto acabou ficando longo. Imagine se eu
tivesse me proposto a escrever sobre mais aspectos da filmografia de Malick?
PS: Cinzas do Paraíso ou Dias de Paraíso???? Inicialmente eu colocaria Cinzas do Paraíso, que foi o nome pelo qual eu conheci o filme de Malick muito antes de assisti-lo. Ao locá-lo, a capa do DVD - antigo - trazia o nome Dias de Paraíso. Na dúvida, fiquei com o DVD. O livro de Peter Biskind (Como a geração sexo, drogas e rock n' roll salvou Hollywood) se refere ao filme como Cinzas do Paraíso. Pra salvar a prosa da confusão talvez seja melhor ficar com o nome original do filme, Days of Heaven (Terrence Malick, 1978).
PS: Cinzas do Paraíso ou Dias de Paraíso???? Inicialmente eu colocaria Cinzas do Paraíso, que foi o nome pelo qual eu conheci o filme de Malick muito antes de assisti-lo. Ao locá-lo, a capa do DVD - antigo - trazia o nome Dias de Paraíso. Na dúvida, fiquei com o DVD. O livro de Peter Biskind (Como a geração sexo, drogas e rock n' roll salvou Hollywood) se refere ao filme como Cinzas do Paraíso. Pra salvar a prosa da confusão talvez seja melhor ficar com o nome original do filme, Days of Heaven (Terrence Malick, 1978).
sexta-feira, setembro 16, 2011
Singularidades de Manoel de Oliveira
Não é de estranhar que Manoel de
Oliveira reserve as melhores falas de Singularidade
de uma Rapariga Loura (2009) ao personagem do tio Francisco (Diogo Dória): ora pois, como diria um autêntico português,
ele é o alter ego de Oliveira, o único personagem sóbrio de todo o
filme. De início pensamos tratar-se de um carrasco insensível, um homem
amargurado que praticamente boicota a felicidade do sobrinho Macário (Ricardo
Trêpa), despedindo-o quando toma conhecimento das suas intenções de casar-se
com a bela vizinha Luísa (Catarina Wallenstein). Ocorre que, assim como
Macário, também nos apaixonamos de imediato pela bela Luísa e seu leque chinês,
de forma que torcemos por ele.
A mesma imagem que confunde a
cabeça de Macário engana os nossos sentidos: se converterá numa verdadeira
armadilha, como saberemos. Bem como ele, enxergamos apenas a superfície, o
invólucro, não o seu conteúdo. Aquilo
que vemos – ou talvez, aquilo que queremos ver – não comporta imperfeições ou questionamentos;
sendo assim, como julgar por mal uma imagem imaculada, cândida como a de Luísa?
A virada de mesa, que determinará
o verdadeiro julgamento que faremos do tio, vem da mesma linhagem retórica que levou
Manoel de Oliveira a costurar seus últimos filmes: a ironia (que, aliás, foi muito
bem aproveitada do texto de Eça de Queiroz). O tio, que já enxergava o conteúdo desde os primeiros flertes,
tentou avisar o jovem contador da impostora, porém foi injustamente tomado por insensível,
desumano. Ao final, entenderemos que Macário deveria tê-lo escutado, mas aí já
terá sido tarde. A cena em que o tio aceita o sobrinho de volta como
colaborador e aprova seu casamento, mesmo desgostoso de suas decisões
matrimoniais, é um primor de realização - dá até pra imaginar Oliveira se
divertindo atrás das câmeras, sarcástico.
Tudo em enxutos 63 minutos. Não
dá pra desrespeitar um senhor de mais de 100 anos de idade.
segunda-feira, setembro 12, 2011
Vincente Minnelli no CCBB
Não havia visto qualquer um dos títulos listados abaixo. Valeu a espera (inconsciente) para assistí-los em película 35mm. O catálogo elaborado para a Mostra, assinado por Luis Carlos Oliveira Jr. e Sérgio Alpendre, ficou impecável.
![]() |
| Madame Bovary (1949) - o filme vale pela cena do baile. |
quarta-feira, setembro 07, 2011
Ex-Isto (Cao Guimarães, 2010)
Fiquei curioso para ler o livro Catatau, de Paulo Leminski (1944-89), que
serviu de base para a realização do filme Ex-Isto
(2010), de Cao Guimarães. Embora eu saiba que não se trata de uma adaptação
convencional, o genial ponto de partida da empreitada se encontra todo lá: uma
viagem imaginária do filósofo racionalista francês René Descartes (interpretado
brilhantemente por João Miguel) ao Brasil, desembarcando como membro da
comitiva do holandês Maurício de Nassau (1604-1679) na ocupação de Pernambuco.
Desse mote interessantíssimo Cao Guimarães extraiu um filme sensorial,
exuberante, quase tátil, repleto de cores, sons e “cheiros”. Uma verdadeira
viagem pelo Brasil das contradições, dos paradoxos, da riqueza natural e do
povo resignado, que mesmo diante dos infortúnios encontra alegria onde
prevalece a miséria.
João Miguel começa bem vestido,
carregado de trajes de época dignos de um mosqueteiro e aos poucos vai se
despindo, peça por peça, culminando num banho de mar totalmente nu - reflexo do
calor tropical insuportável e da necessidade do filósofo de se
aproximar/tocar/sentir nossa exuberância:
água, terra e ar. São dois extremos bem captados por Cao Guimarães: no início bem
trajado, fotografado no segundo andar de uma biblioteca, “engolido” pela quantidade
de livros que o circundam; no final despido, fotografado em uma praia do nosso
extenso litoral, banhado pela areia, o sol e as águas do mar. O desempenho mudo
de João Miguel é a alma do filme, no estilo “estou, logo existo”. O voice-over
representa seu fluxo de consciência e justifica a célebre frase “penso, logo existo”. Ótimo filme.
quarta-feira, agosto 31, 2011
A perspicácia de Lumet
Folheando a coleção de críticas
de Antonio Moniz Vianna, organizada por Ruy Castro no livro intitulado Um filme por dia – Crítica de choque
(1946-73), encontrei uma pérola de comentário de Sidney Lumet no magnífico texto
do jornalista a respeito de The Pawnbroker
(O homem do prego, 1965).
... Um grande filme também na técnica narrativa, The Pawnbroker desperta a atenção crítica pela utilização do
chamado two frames cut. Desrespeitando
a ideia de que o olho humano não podia reter uma imagem com menos de três
fotogramas, Sidney Lumet usou dois e até um fotograma, dando a esses flashes de
memória uma claridade adequada e
imprescindível. E, vitorioso, observou: “Sempre me divertem os críticos de
vanguarda que costumam sentar-se e afirmar: Bem, esse two frames cut provém de L’année
dernière à Marienbad (O ano passado em Marienbad) e esse outro de... É uma
tolice. Só existe uma premissa geral: quase todas as coisas que qualquer um de
nós realizou pode ser encontrada num filme de John Ford”.
Assinar:
Postagens (Atom)






















