segunda-feira, novembro 10, 2014

38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo - Parte 2


Infância (2014), Domingos de Oliveira (BRASIL)

O filme que Arnaldo Jabor tentou fazer com A Suprema Felicidade (2010), mas não conseguiu. O menino (alter ego do diretor) é menos protagonista é mais testemunha da história. Incrível como Domingos de Oliveira consegue recriar a atmosfera do Rio de Janeiro dos anos 1950 trabalhando apenas dentro do espaço confinado de uma mansão carioca - num excelente trabalho de reconstituição de época. A qualidade do texto é excepcional, além da laureada interpretação de Fernanda Montenegro, como viúva matriarca da família, num papel feito sob encomenda. Ela está irresistível.


Ela Volta na Quinta (2014), André Novais Oliveira (BRASIL)

Mais um representante da safra mineira de filmes que procura registrar um espaço e seus habitantes, numa tentativa de “documentar a vida”. Pra quem desconhecia qualquer informação prévia a respeito do projeto, a chegada dos créditos se incube logo em esclarecer que os principais personagens da história são membros de uma verdadeira família constituída - na verdade, trata-se da família do realizador. Confesso que essa informação melhorou a minha impressão/estima sobre ele, mas não foi capaz de perdurar o seu impacto sobre mim. Apesar do senão da frase anterior, o filme contém algumas boas cenas.


A História da Eternidade (2014), Camilo Cavalcante (BRASIL)

Confesso que eu estava ansioso para conferir o filme que vem colhendo boas impressões por onde passa. Ainda que eu não o tenha desgostado por completo, incomodou-me o calculismo das cenas envolvendo o personagem de Irandhir Santos (Joo), cuja influência é crucial para os desdobramentos da trama. Deixei a sala com um gosto forte de decepção. Mesmo compreendendo o uso alegórico da narrativa, justificado pelo seu forte caráter transcendental, penso que o filme se perde em sua suposta grandeza, sem alcançar o impacto que seu título sugere.


O Pequeno Fugitivo (1953), Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin (EUA)

Embora este filme não figurasse na programação oficial da Mostra - ele estava em cartaz no Espaço Itaú da Augusta -, não seria nenhum disparate se estivesse, tamanha a sua afinidade com a proposta do evento. Uma oportunidade rara de assistir no cinema um dos filmes que influenciaram o espírito libertário e espontâneo dos integrantes da Nouvelle Vague, o qual eu desconhecia completamente. Nas palavras do próprio Truffaut, "A Nouvelle Vague nunca teria existido se não fosse pelo jovem americano Morris Engel, que nos mostrou o caminho com seu O Pequeno Fugitivo".

sexta-feira, outubro 31, 2014

38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo - Parte 1


Melô (1986), Alain Resnais (FRANÇA)

Melodrama ou Melodia? A abreviação do título original pode ser tanto uma coisa como outra, pois faz referência à forma e conteúdo, igualmente e respectivamente. O ponto de inflexão na carreira de Resnais, inaugurando o flerte com o teatro que dominaria seus filmes a partir de então. Os detratores da ideia de teatro filmado não sobreviveram para ver o que Resnais seria capaz de fazer ao conjugar essas duas artes de naturezas afins, embora distintas. O mestre em pleno domínio de suas faculdades. E Sabine Azéma no auge do seu carisma e jovialidade.


Detetive D: O Dragão do Mar (2014), Tsui Hark (CHINA)

Se o público tivesse um pouco mais de disposição para aceitar produtos que não fossem exclusivamente americanos, esse seria um filme com alguma chance de conquistar uma gama mais ampla de admiradores. O melhor antídoto para a franquia Piratas do Caribe, preservando o mesmo senso de aventura, com um centésimo do orçamento. O tipo de programa que anda em falta na Sessão da Tarde. Hollywood cansou de fazer filmes desta estirpe, quando a tecnologia era mais escassa e a criatividade mais abundante. Um ótimo programa de entretenimento.


A Noite de São Lourenço (1982), Paolo e Vittorio Taviani (ITÁLIA)

Uma espécie de caravana a la John Ford, um road movie que transborda humanidade, deslocado do oeste norte-americano do século XIX para a Europa da Segunda Guerra Mundial. Quando os moradores de uma cidadezinha recebem a notícia de que os nazistas estão prestes a bombardeá-la, uma parcela deles abandona suas residências sem um plano de contingência traçado. Caminham a esmo pelas planícies italianas em busca de abrigo e do conforto que lhes foram confiscados, sujeitos a todo tipo de intempérie, capaz de pôr em risco a unidade do grupo. Nas mãos dos Taviani, um material farto de infortúnios encontra momentos de pura epifania.


Branco Sai, Preto Fica (2014), Adirley Queiroz (BRASIL)

É uma pena que os procedimentos adotados por Adirley para caracterizar seus personagens sejam repetidos à exaustão ao longo do longa-metragem, o que prejudica o impacto da proposta sobre o espectador (influenciando diretamente o ritmo do filme). Em compensação, a improvável fluência atingida pela alternância de gêneros (ficção x documentário; ficção científica x drama social) entusiasma, sobretudo pela coragem e os riscos assumidos. Para não sair da esfera da imaginação atrelada aos progressos científicos, o filme parece um óvni se considerado o conjunto das produções nacionais mais recentes. Não só animador como promissor.

domingo, outubro 19, 2014

O Rei de Nova York (Abel Ferrara, 1990)




Por Bernando Brum, do ótimo Cine Café

Abel Ferrara, filme após filme, fez do céu e do inferno forças que ditas opositoras, são assustadoramente próximas, conectadas e dependentes uma da outra. Do dilema do personagem de Harvey Keitel em Vício Frenético (1992) ao clímax com a serial killer surda-muda vestida de freira em Sedução e Vingança (1981), entre tantos outros momentos de sua filmografia, Ferrara costurou um mundo onde a sociedade, para continuar a existir, é progressivamente contaminada por uma pestilência inevitável, uma corrupção irresistível e uma tendência para a destruição impressionante.

Em O Rei de Nova York, a primeira de suas grandes obras-primas que iria realizar ao longo dos anos noventa, ele conta a história de Frank White, um chefão da cocaína de Nova York que, após anos encarcerado, se vê em liberdade de novo para mais uma vez reconstruir seu império, ajudado por sua gangue de traficantes negros.  Ao mesmo tempo que negocia e/ou combate outras gangues étnicas, também vê em seu encalço um grupo de policiais que desejam desesperadamente prender Frank e seus cúmplices.

Só pelo início, Ferrara já denuncia o que vem pela frente: cercado tanto da escória social quanto da alta cúpula da sociedade, White parece ser ideal para a profissão que escolheu: ao mesmo tempo, é refinado, implacável, charmoso e brutal – o que faz com que as pessoas nos postos mais altos da sociedade facilmente se sujeitem a ele, obriga outras gangues a se ajoelharem com sua mão de ferro, recruta bandidos não filiados, desperta desejo nas mulheres e a todo o momento faz a polícia se sentir desafiada.

Toda a aura de mito urbano construído em cima de Frank – fazendo dele um nome muito mais citado do que visto – é construído de forma absolutamente genial pelo diretor, desde a dança que reintegra o gângster a sua gangue, o que lembra em muito uma dança tribal, ainda que estejam cantando hip hop até os travellings de luz, sombras, corredores e vidros que fazem o personagem de Walken, com seu penteado revolto, palidez e figura imponente parecer uma espécie de Nosferatu reconfigurado, que faz de Nova York sua Transilvânia, mas que ao contrário da figura que lhe deu origem, não é uma criatura amaldiçoada por tudo e por todos, ainda que seja o pária. O mais poderoso dos párias, mas o desajustado em todos os lugares que frequenta. Inclusive, o clássico de Murnau é citado explicitamente onde uma tentativa de negociação ocorre num cinema particular onde uma gangue asiática assiste filmes do expressionista alemão.

A estilização feita da violência é outro ponto impressionante a se destacar. De cada momento violento, o diretor faz disto um ponto chave de mudança do roteiro e arranca uma imagem impressionante atrás da outra. O tratamento que Ferrara dá a cada uma delas é preciso demais – desde a execução de um informante delator, que tem uns plongées e contra-plongées aterrorizantes até sua sequência mais famosa, onde em uma boate barra pesada toda iluminada de azul começam a surgir faíscas brancas que provocam um esporro sonoro tremendo. Dessa imensa tela azul que não se deixa enxergar mais nada além dos contornos, Ferrara vai rompendo com luzes que prenunciam morte, destruição e degradação – a paz pervertida do azul é corrompida pela luz das balas sendo disparada, o interior da boate é rompido pelas infinitas ruas da Grande Maçã, o mormaço é substituído pela perseguição, a chuva rompe, começam as batidas e culminam nas mortes do mais leal dos traficantes e do mais dedicado policial.

Nessa cena, uma das maiores sínteses do cinema de Abel, podemos encontrar pela sua estética de raro domínio de compreensão e distorção de espaço o mesmo que vamos ouvir quando Walken invade o quarto de um dos únicos cabeças da operação que saiu vivo. “Você acha que me matando em algum clube noturno vai impedir o que leva alguém a se drogar?”, pergunta ele. “Eu não sou seu problema. Eu sou apenas um homem de negócios”. Após esse último discurso, vai embora. Numa perseguição de clima mais pesado ainda, o último momento de filme leva todos para o buraco. Policiais, civis e bandidos caem. Até o rei de Nova York, que faz o trânsito parar, o saudando sem saber. Sem marcha fúnebre, sangrando as tripas fora, sem o tapete vermelho, sem mulher, Frank White dá seu último suspiro encerrando uma das sequências mais sufocantes do cinema.

Objetivo, estilizado, metafórico e realista, Abel faz tudo chover na cara do espectador ao mesmo tempo, uma tempestade de paradoxos a nível de cartarse. Sem concessões ou freios, foi erguido um monumento cinematográfico de poderio inenarrável – uma das mais impressionantes orgias de imagem, luz, sombra, som, música e ruído da história.

domingo, outubro 12, 2014

Garota Exemplar (David Fincher, 2014)


Garota Exemplar começa e termina com a mesma imagem de Rosamund Pike (Amy Dunne), sobreposta pelo mesmo voice over de Ben Affleck (Nick Dunne), cujo conteúdo transparece uma insegurança dele a respeito dos pensamentos dela - as questões levantadas dizem respeito ao exercício do matrimônio. Entre estas mesmas duas cenas que exploram a sensualidade da atriz - no que seus cabelos são acariciados por ele, ela se vira para a câmera encarando o espectador -, David Fincher constrói a sua narrativa, baseada no best-seller de mesmo nome da autora Gillian Flynn (ela também assina o roteiro), como justificativa para nos provar que uma imagem assume significados distintos conforme o conjunto das circunstâncias em que ela está inserida.

De início, quando o contexto é desconhecido, a sensação que ela desperta é positiva, menos pelo conteúdo do voice over do que pela suposta pureza/inocência do rosto de Rosamund. Ao final, quando o jogo de aparências atinge o ápice da esculhambação, a sensação é negativa, de ameaça e medo, intimidante até, em virtude da frieza desconcertante da atriz.

David Fincher continua disposto a dar prosseguimento ao seu estudo sobre a mente de um sociopata. Sua intenção não é exatamente instruir o público a respeito da nocividade desse comportamento - sua abordagem é mais expositiva do que explicativa. O seu desafio sempre foi o de aproximar o público do raciocínio de um desequilibrado, sem o compromisso de tentar decifrá-lo, podendo, eventualmente, materializar o seu juízo na base da violência.

Desta vez, fica a impressão de que a natureza manipulativa dos seus primeiros longas (Seven: Os Sete Crimes Capitais e Clube da Luta), envolvendo circunstâncias menos escoradas na realidade - recheadas de reviravoltas improváveis -, incluindo os twists narrativos dos últimos atos, foi de encontro com a roupagem mais refinada alcançada nas últimas produções, decorrentes da apuração do estilo e de adaptações de caráter mais tangíveis (A Rede Social e Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres), ainda que predominantemente ficcionais.

As primeiras produções têm o mérito de deixar o espectador indagando sobre o mundo em que vivem. As narrativas são centradas em poucos personagens capazes de representar um mal estar generalizado. A estética é mais suja e desagradável, contribuindo para a transcendência das questões exploradas. As novas produções não conseguem decolar além dos dramas vivenciados pelos seus personagens. As histórias não possuem ressonância para além daqueles envolvidos com ela.

Seja como for, o prazer de assistir aos seus filmes permanece em alta conta. David Fincher é um cineasta de mão cheia, que parece vir modelado suas habilidades, consciente ou inconscientemente, para um público que procura/aprecia a sordidez, mas não quer se afogar nela. Pena, já que ao menos pra mim os seus filmes crescem em interesse quanto mais ele se embrenha nessa questão.

Garota Exemplar vale mais pela trôpega exploração do sexual thriller (Fincher faz o que pode para segurar as pontas da narrativa), cujo material que serviu de base não me parece muito digno de entusiasmo, do que por qualquer tentativa de se atribuir muita importância para a crise conjugal dos protagonistas. Se os personagens não estão muito interessados nela, o que dirá o espectador.

O diretor Richar Kelly, responsável por Donnie Darko (2001), escreveu um ensaio bastante interessante relacionando Garota Exemplar à De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick, 1999), intitulado A Study of Psychopathy in the Heteronormative Patriarchal Occult. Já adianto que o texto é longo. Mas vale uma espiada.

domingo, setembro 28, 2014

Era Uma Vez em Nova York (James Gray, 2013)




É absolutamente inevitável fazer uma comparação entre Era Uma Vez Em Nova York e O Poderoso Chefão II (Francis Ford Coppola, 1974), ainda mais quando a sessão cinematográfica de um dista apenas uma semana da outra - o filme de Coppola foi exibido recentemente no ciclo de Clássicos do Cinemark, refrescando a minha memória com as suas imagens. A imigração é o ponto de partida de ambos, cujos personagens fogem dos conflitos originários em território europeu no início do século passado, em busca do sonho americano na terra do Tio Sam. James Gray, ainda, adota a fotografia em tom sépia que consagrou a trilogia do Chefão e a famosa locação de Little Italy que rendeu inúmeros travellings memoráveis de De Niro na cobertura dos edifícios da região. Alguém comentou que Era Uma Vez na América (Sergio Leone, 1984) também estabelece a mesma ponte, o que me parece ser verdade, ao menos até onde minhas lembranças me permitem chegar, já que faz muito tempo que o vi.

Esse é o primeiro filme de época de Gray. Em todos os outros quatro seus personagens também são imigrantes ou descendentes deles, Fuga para Odessa (1994), Caminho Sem Volta (2000), Os Donos da Noite (2007) e Amantes (2008), embora nenhuma dessas produções se preste a realizar um relato exclusivo sobre essa questão. Era Uma Vez em Nova York é aquela que chega mais perto disso (intenção, inclusive, explícita no título original The Immigrant), especialmente na primeira metade, antes da entrada em cena de Orlando, o Mágico (Jeremy Renner). Desde a tomada que abre o filme, de uma das janelas do navio que atraca em solo americano, enquadrando a Estátua da Liberdade, à triagem dos tripulantes na Ilha Ellis, tudo dá a entender que a ideia é abordar o (grande) tema da imigração com ênfase no seu aspecto mais sórdido - para ganhar a vida, eles se submetem às maiores crueldades, abrindo mão das suas crenças e valores morais. O diretor evita o tempo todo associar a ideia de triunfo ao périplo desses personagens, ao contrário do que fizera Coppola com a trajetória do jovem Vito Corleone (Robert De Niro).

Da segunda metade em diante o melodrama dá as caras, com explosões dramáticas frequentes, na tentativa inexequível de conciliar o destino dos três personagens. Não requer muita astúcia da parte do espectador para farejar a tragédia presente em cada fotograma. A revelação final nada mais é do que a verbalização literal do que James Gray se esforçou para nos fazer ver com suas imagens, julgando-nos capazes de montar o quebra cabeça das intenções de Bruno Weiss (Joaquin Phoenix) por nossa própria conta. Entretanto, o verdadeiro impacto da descoberta exige que exerçamos com intensidade a empatia estabelecida com Ewa (Marion Cotillard), que não tinha meios de reconhecer a armação a qual foi submetida. O maior mérito dos envolvidos na produção, sobretudo roteiristas, diretor e ator é conseguir arrancar do público a absolvição de Bruno Weiss, cujo comportamento ambíguo desperta mais repulsa do que compaixão. A revelação é a sua confissão, tendo o público como mediador. Por meio da nossa identificação com o drama de Ewa, Gray testa a nossa capacidade de perdoar.

sábado, setembro 20, 2014

Eles Voltam (Marcelo Lordello, 2012)



Ainda que o meu entusiasmo por Eles Voltam não se compare ao arrebatamento proporcionado pelas últimas produções provenientes de Pernambuco, é inegável que o material possui uma sensibilidade que o distingue dos outros trabalhos gerados nesta região. O enfrentamento das forças arcaicas colonialistas frente à disposição corrente das relações urbanas contemporâneas, característico do cinema pernambucano em atividade, encontra uma abordagem menos hostilizada nas mãos de Lordello - ele investe mais na aproximação e no entendimento do que no conflito, distanciando-se do caráter violento a qual outras abordagens estiveram associadas. A protagonista de nome Cris (Maria Luiza Tavares), uma pré-adolescente de 12 anos, é forçosamente submetida a um rito de passagem, curto, é verdade, mas bem erigido, composto por cenas e situações bastante inventivas. Lordello testa o tempo todo nosso preconceito, construindo sua narrativa de forma a fazemos um julgamento prévio de algumas questões, para logo em seguida sermos desarmados pelo desenrolar dos eventos. O mundo "conspira" o tempo todo contra ela, que se vê obrigada pouco a pouco a reagir, experimentando na pele o que seus pais se esforçaram para lhe poupar. Dessa vivência involuntária e até então indesejada, desabrocha uma mulher.

sábado, setembro 06, 2014

O Jogo da Vida (Maurice Capovilla, 1977)


Eu até estava disposto a escrever alguma coisa sobre o filme, mas encontrei o texto do Gardnier no site da Contracampo e me senti intimidado. A percepção dele se tornou a minha, bem mais abrangente do que eu seria capaz de considerar. Quem preferir, pode acessar o link.

Por Ruy Gardnier

O cineasta e seus pobres

Se o subdesenvolvimento é fator patente na obra de Maurice Capovilla, logo o seu aspecto mais flagrante tomará forma com seu segundo filme: a miséria, a fome. Não à toa, o protagonista do filme é seu profeta: O Profeta da Fome. Nesse filme, tratava-se de mostrar a miséria brotando de cada estômago, transformando-se em miséria espiritual e por fim virando um grande espetáculo de cidade grande. Fazendo da fome o tótem por excelência do Terceiro Mundo, Capovilla faz em seu mais famoso filme uma estética do choque – declaradamente baseada na "Eztetyka da Fome" glauberiana –, uma arte da repugnância, da fruição incômoda, do cuspe na cara do dominante. É um cinema da revolta, da denúncia. Um filme que exige mudanças.

Quase dez anos mais tarde, Capovilla passa a tratar a fome, mais uma vez. Dessa vez, a intenção não é abertamente política, e a fome não é mais objeto de repugnância. Num momento, poderíamos pensar em conformismo. Mas estaríamos equivocados: O Jogo da Vida é uma reflexão ainda mais profunda, um questionamento ainda mais importante. Se O Profeta da Fome é um filme que foi feito a partir da pergunta "Como é possível viver assim?", O Jogo da Vida foi feito a partir da investigação dessa pergunta. O filme é uma apaixonada declaração: "eles vivem assim" (e aí é de se perguntar qual exatamente é o filme mais efetivo politicamente).

Não se trata de um filme que trabalha o nojo, o incômodo. Eles como que foram purgados nesses 8 anos que separam um filme do outro. Os elementos do choque não são jogados na cara do espectador, mas antes integrados à vida do personagem de forma que adquiram um sentido para além do nojo. O Profeta da Fome é uma denúncia, é um filme que brota do desespero, do impossível que é continuar vivendo dessa forma. Daí a forma exploratória com que os personagens são tratados, mais "tipos" do que verdadeiras pessoas. Em O Jogo da Vida, porém, dá-se uma mudança sensível – que entretanto opera mudanças radicais –: percebeu-se que É possível viver assim, que É possível e que assim se vive. Assim, a estética do choque – que é o equivalente estético da luta de classes – é substituída por uma outra forma de filmar, uma que não vê beleza apenas na revolução ou na denúncia, mas que tira partido das pequenas coisas, uma arte do detalhe, uma arte do instante, do passar do tempo. Se o primeiro filme precisa de uma classe burguesa para desabafar (e encara o cinema como um instrumento contra a alienação), o segundo já é o mergulho indistinto na classe pobre, sobretudo nos miseráveis sem destino que não têm oportunidade e são jogados no mundo do biscate e da marginalidade.

O Jogo da Vida conta a história de três homens que perambulam pela cidade de São Paulo (mas poderia ser qualquer cidade grande) procurando alguma coisa pra fazer. Um, mais jovem, era operário; outro, um apostador; e o outro, um metido a malandro. Juntos, eles parecem invencíveis, procurando a maneira certa de achar um otário para degolar no jogo de sinuca. Separados, todos mostram a insuficiência de viver sem renda: um briga em casa por falta de dinheiro, o outro chora na cama, outro tem o barraco destruído pelos oficiais do governo. Na grande noite deles, em que eles estão se fazendo, aparece um malandro que é mais malandro que eles e papa tudo.

Mas o mais importante no filme é o tom encontrado para narrar todas essas mazelas que poderiam dar num melodrama mexicano ou num filme fake de contestação. Todos os efeitos artificialescos são abandonados; todas as referências à ideologia são descartadas. Não estamos mais aqui no terreno em que o intelectual filma exploratoriamente o pobre sabendo exatamente aquilo que é preciso para que o pobre alcance uma cidadania (o que é a ideologia clássica dos filmes medianos de esquerda à la CPC); estamos num terreno em que o intelectual abandona seus prejulgamentos, sua cultura de livros e respostas fáceis e se mistura à multidão, sem querer ser maior que os outros, sem querer deter um saber (que na verdade ele não tem) que os outros, "alienados", não têm. O intelectual se dissolve como cineasta e passa a ser observador interessado, passa a amar os personagens pelo que eles são (pessoas simples) e não pelo que eles podem ser (classe revolucionária). O trabalho de encenação de Capovilla recebe essa mudança como mudança estrutural do cinema: ele deve registrar, não denunciar; realizar não uma imagem justa, mas justo uma imagem, como nos dizeres de Godard. O Jogo da Vida é terno, cândido, doce como um aceno. Toda essa candura, quando filma uma realidade torpe e sem saída, revela uma desesperança forte que atinge diretamente o espectador, que deve amar os personagens porque eles são homens, porque eles sofrem, e não mais porque eles representam uma classe ou um potencial revolucionário.

É notório que nos filmes brasileiros engajados fala-se mais da pobreza do que mostra-se os pobres. É de se questionar se os pobres aí não residiam mais como massa de manobras do que como qualquer outra coisa. É só ver BarraventoCinco Vezes Favela, as cenas de ficção de Cabra Marcado Para MorrerO Desafio e daí em diante: filmes em que os pobres só aparecem para encarnar um ideal, o da luta de classes; ou então para servirem de denúncia. Com O Jogo da Vida, o foco de atenção desse cinema muda, a vida vale mais do que o dogma, o cineasta deixa de ser sabichão e filma para aprender. E como todo aprendizado aplicado, O Jogo da Vida é um filme comovente.

sábado, agosto 30, 2014

Lawrence da Arábia (David Lean, 1962)




As pessoas sempre fazem as coisas por dois motivos, o bom e o verdadeiro.
J.P.Morgan
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Jackson Bentley: I´m looking for a hero.
Prince Feisal: Indeed, you do not seem a romantic man. 
Jackson Bentley: Oh, no! But certain influential men back home believe the time has come for America to lend her weight to the patriotic struggle against Germany… and Turkey. Now, I´ve been sent to find material that makes this war seem more… 
Prince Feisal: Enjoyable? 
Jackson Bentley: Oh, hardly THAT, sir. But to show it in its more… adventurous aspects. 
Prince Feisal: You are looking for a figure that will draw your country towards war? 
Jackson Bentley: All right, yes. 
Prince Feisal: Lawrence is your man.
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Jackson Bentley: What is it, Major Lawrence, that attracts you personally to the desert? 
T.E. Lawrence: It's clean.

Quando Lawrence (Peter O'Toole) responde a essa questão do jornalista Bentley (Arthur Kennedy), sua condição no deserto já se encontra plenamente estabelecida, tanto do ponto de vista pessoal, da adaptação corpórea à adversidade climática, como do ponto de vista da influência, política e/ou emocional. Esse momento representa o auge da sua trajetória, no retorno triunfante à frente de batalha, equilibrando os interesses dos árabes de um lado, e dos ingleses do outro. O espectador a essa altura já enxerga um panorama mais pessimista, incentivado pela chegada do tal jornalista americano pragmático, cujos comentários não escondem o interesse da futura potência em acomodar as forças conflitantes conforme a sua conveniência e o proveito dos britânicos.

Assistir a Lawrence da Arábia no cinema é um sonho. É o típico filme que não cabe na tela diminuta de um televisor. A magnitude das cenas no deserto exige a dimensão alcançada pelo projetor cinematográfico para ser devidamente apreciada. O presente foi proporcionado pela rede de cinemas Cinemark, num esforço louvável para relançar em cópias digitais (de matrizes restauradas) alguns filmes que ganharam status de cult. Na primeira leva estiveram presentes O Poderoso Chefão (Francis Ford Copolla, 1972) e Quanto Mais Quente Melhor (Billy wilder, 1959), cuja oportunidade de vê-los na tela grande eu já tive. A segunda temporada promete Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976), Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971) e Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994).

Na primeira ocasião em que eu vi Lawrence da Arábia, o ego do personagem não me pareceu tão inflado. Desta vez eu me dei conta do quanto a sua personalidade influenciou os desdobramentos bélicos originados na região do Oriente Médio, atuando como uma espécie de conselheiro logístico pela independência dos árabes. Suas emoções estão nitidamente estampadas em seus trajes, alterando conforme a ocasião - o figurino assume um papel dramático, inclusive espelhando a sua vaidade. Sua indumentária é o reflexo perfeito da sua postura ideológica pontual, ora imperialista (tendendo para os britânicos), ora pró-independência (tendendo para os árabes). Esse conflito interno, que baliza a construção do personagem, chega ao espectador (em imagens) por meio do seu vestuário.

Essa relação conflituosa de um personagem estrangulado pelas forças políticas que o circundam já havia sido explorada por Elia Kazan no ótimo Viva Zapata (1952). A diferença é que Kazan optou por martirizar seu personagem, exemplo maior de caráter e conduta, interpretado por Marlon Brando.  Seu filme é mais panfletário, esquerdista até, expediente pelo qual ele teve de responder posteriormente quando intimado a prestar esclarecimentos no Comitê de Investigações de Atividades Anti-Americanas. Kazan ainda insistiria nessa abordagem manipulativa de um personagem em Um Rosto na Multidão (1957), num contexto midiático pleno e de exposição danosa (os primórdios da televisão e da exploração da imagem).

Todos os três filmes mencionados retratam figuras que, de uma forma ou de outra e envolvendo graus distintos de influência e caráter, operam como marionetes (puppets) num cenário político de interesses bem mais amplo/complexo do que eles são capazes de enxergar. O custo pessoal da empreitada é alto, talvez além do que eles estariam dispostos a arcar se soubessem dos sacrifícios a que seriam submetidos, fossem eles físicos ou morais.

E examinando-lhes a vida e as ações, conclui-se que eles não receberam da fortuna mais do que a ocasião de poder amoldar as coisas como melhor lhe aprouveram. Sem aquela ocasião, suas qualidades pessoais se teriam apagado e sem essas virtudes a ocasião lhes teria sido vã.
 O Príncipe, Nicolau Maquiavel

segunda-feira, agosto 18, 2014

Também Fomos Felizes (Yasujirô Ozu, 1951)


Dos poucos filmes que eu vi do Ozu (ainda), Também Fomos Felizes (1951) é aquele que congrega o maior número de personagens, seja dentro do universo da família retratada ou daqueles que orbitam ao seu redor. Para além de todas as considerações recorrentes presentes em qualquer análise que se faça de sua obra, relacionadas ao posicionamento de câmera, ao registro dos detalhes dos objetos em cena, ou dos rituais cotidianos domésticos, bem como do prosaísmo das relações humanas, foi neste exemplar que a maestria da sua direção se fez notar mais nitidamente pra mim. A sua intervenção me pareceu tão precisa, tão cirúrgica, a ponto de me fazer crer por vários instantes que não era um filme que se desenrolava diante de meus olhos, mas um drama concreto, palpável, que bem poderia ser o meu e de minha família - embora, obviamente, a minha realidade seja bem diferente da condição de vida japonesa do pós-guerra.

O enredo é básico: a família Mamiya procura um marido para a filha mais nova, Noriko, interpretada por Setsuko Hara, com a habitual leveza quase sobrenatural que caracteriza as suas parcerias com Ozu. No entanto, a moça não quer aceitar um casamento arranjado. Simples assim.

É absolutamente impressionante como nenhuma palavra trocada ou ação empregada carrega qualquer resquício de artificialidade, nada parece forçado ou fora de contexto. As emoções exploradas pelos personagens, mesmo aquelas que possuem uma inclinação mais negativa, tais como as manifestações machistas do irmão mais velho (Chishû Ryû, o eterno parceiro de Ozu), são genuínas, perfeitamente cabíveis dentro do contexto sócio-econômico-cultural na qual o Japão estava inserido. O equilíbrio das forças que regem as relações dos personagens é perfeito, o mais próximo possível da naturalidade, sem prejuízo algum para a exploração da ficção (inerente à própria ideia de filme/cinema) ou para qualquer aproximação que se queira fazer delas no plano da realidade. É como se o cinema de Ozu, e mais propriamente de Também Fomos Felizes, fosse a representação fiel da realidade humana, ao menos no que concerne os dilemas (comuns/corriqueiros) enfrentados pelos seres humanos no dia a dia - sem o efeito da "manipulação" intrínseca à prática cinematográfica.

Três cenas permanecem comigo:

- quando Koichi (Chishû Ryû), irmão de Noriko e pai de dois filhos pequenos, se excede e dá um tapa no mais velho deles. A maneira como Ozu desenvolve o conflito até encontrar um desfecho para esse ato de desespero/irracionalidade é sublime. Não há como ser mais honesto no retrato do envolvimento dos personagens (principais e secundários) com o episódio;

- quando a mãe de Kenkichi declara a Noriko a sua vontade de vê-la fazendo parte de sua família (Kenkichi é viúvo e tem um filho, sofrendo um preconceito por parte da família de Noriko, que já prometera sua mão para outro pretendente, mais bem sucedido);

- o momento em que Noriko veria pessoalmente o seu pretendente arranjado, depois de haver se decidido por Kenkichi (a reação que ela teria ao vê-lo pessoalmente fica por conta da imaginação do público).

sexta-feira, agosto 08, 2014

O Signo das Tetas (Frederico Machado, ...)

Eu não sou muito bom para fazer promoção, seja das minhas coisas ou das coisas dos outros. Meus esforços parecem caminhar em direção contrária às minhas intenções – estou exagerando, naturalmente, mas ciente de que meu talento comercial precisa, e muito, ser mais bem trabalhado. Mesmo conhecendo as limitações do meu intento, e, sobretudo, do canal que faço uso para tal fim, aproveito teimosamente este modesto espaço para levar aos poucos curiosos que por fim abarquem por essas bandas o projeto do longa-metragem de Frederico Machado, O Signo das Tetas, que precisa de um “empurrãozinho” para ser finalizado. Quem viu o filme anterior de Frederico, O Exercício do Caos (2013), sabe que o esforço é justificado – o Canal Brasil já o adotou em sua programação corrente, sujeito a várias reprises, 13/08 às 00h45min ou 17/08 às 04h00. O tempo é curto e corre contra a sua conclusão. Enfim, quem tiver interesse acesse qualquer um dos links http://www.catarse.me/pt/osignodastetas ou http://lumefilmes.com.br/. Qualquer dúvida será melhor esclarecida por lá.