sábado, abril 30, 2016

Os 20 filmes de cabeceira

O Sérgio Alpendre começou com a brincadeira em 25 de março, seguida pelo Ronald Perrone em 31 de março, e eis que praticamente um mês depois, enquanto eu fritava a cabeça para eleger os meus, publico a minha lista de 20 filmes de cabeceira.

Na abertura do seu texto de publicação da lista Perrone define o que seriam “filmes de cabeceira”: “Filmes de cabeceira, na minha visão, não tem necessariamente relação com qualidade, não são “os melhores filmes favoritos”, mas são produções que de algum modo tiveram um impacto pessoal, que arrebatam, são contextos na formação cinéfila, influenciam no modo de ver cinema e te acompanham pro resto da vida, independente de qualquer coisa…

Vamos ao que interessa.

A Boneca (Die Puppe, 1919), de Ernst Lubitsch
Embora o registro da minha infância esteja mais próximo de um Pialat (Infância Nua, 1969), esse filme estabelece no meu imaginário o verdadeiro gozo de uma infância ideal. Epifania pura.

Um dia no campo (Partie de campagne, 1936), de Jean Renoir
Assim que meu filho nasceu eu assisti um monte de curtas e médias metragens, já que os longas tinham de ser interrompidos constantemente para ampará-lo. Renoir tem uma penca de obras primas no currículo, mas essa jóia de apenas 40 minutos tem uma leveza de espírito, de mise en scène, de atuação, de ideias, de formalidades, etc... absolutamente inigualáveis.

Boêmio Encantador (Holiday, 1938), de George Cukor
O filme mais alto astral que eu conheço. Katharine Hepburn e Cary Grant estão insanos nessa clássica screwball comedy.

A Felicidade Não se Compra (It´s a Wonderful Life, 1946), de Frank Capra
Tem muito cinéfilo que torce o nariz para esse filme por causa da dose cavalar de sacarina. A simplicidade dele me arrebata e não resisto aos minutos finais com a presença do anjo Clarence (Henry Travers). Cristianismo puro sem o inconveniente da pregação religiosa.

Rashomon (Rashômon, 1950), de Akira Kurosawa
Quando eu descobri o verdadeiro significado da máxima de Nietzsche: "Não há fatos, apenas interpretações." Só que Kurosawa veio antes.

Umberto D. (Umberto D., 1952), de Vittorio De Sica
O sangue do Neo Realismo italiano corre pelas veias de Carlo Battisti. Uma aula de como explorar a condição miserável sem ser auto-complacente. Um dos grandes filmes que retratam a velhice (rivalizando de frente com Era Uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu e A Cruz dos Anos, de Leo McCarey).

Depois do Vendaval (The Quiet Man, 1952), de John Ford
A comédia de costumes de John Ford no coração da sua Irlanda querida. A versão cinematográfica do sonho idílico por excelência. Elenco em finíssima sintonia. A melhor parceria entre John Wayne e Maureen O' Hara.

O Homem dos Olhos Frios (The Tin Star, 1957), de Anthony Mann
Eu poderia ter escolhido outros westerns tão bons quanto. Não consigo lembrar-me de algum que trabalhe tão bem a figura do herói que discursa sobre a não violência e pratique a mesma à altura.

Deus Sabe Quanto Amei (Some Came Running, 1958), de Vincente Minnelli
O mais perfeito melodrama norte americano. Uma das melhores experiências que eu tive em uma sala de cinema. Obra prima absoluta.

Oito e meio (8 1/2, 1963), de Federico Fellini
Meu filme de cabeceira. Todos nós somos um pouco Guido Anselmo (Marcello Mastroianni).

Beijos Proibidos (Baisers Volés, 1968), de François Truffaut
Para o cinéfilo, Truffaut pode ser referência crítica ou cinematográfica. A odisséia completa de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) é digna de nota, oscilando entre a dureza de Os Incompreendidos e a leveza inconsequente de Beijos Proibidos. A escolha é difícil, pendendo para o elogio da distração em pleno despertar da consciência juvenil em Maio de 68.

Faces (Faces, 1968), de John Cassavetes
Os últimos 30 minutos dele são antológicos, Seymour Cassel tentando reavivar Lynn Carlin, enclausurados em um apartamento sob os efeitos deletérios da embriaguez. Cassavetes ainda faria outras sequências memoráveis, mas essa vale pela experiência do todo.

Onde os Homens São Homens (McCabe & Mrs. Miller, 1971), de Robert Altman
Quando eu o vi na programação do Cinemax na década de 90, eu não estava preparado para o impacto que o filme iria me causar. Embora eu já houvesse visto alguns poucos filmes de Altman, sendo Mash a maior referência, seu nome ainda não figurava no meu panteão de preferências. Daí pra frente foi só acompanhar os lançamentos e buscar as pérolas setentistas. Mesmo pra quem gosta de westerns não é pra todos os gostos.

Saló ou 120 Dias de Sodoma (Salò o le 120 giornate di Sodoma, 1975), de Pier Paolo Pasolini
Ninguém sai incólume dessa experiência. Comecei a filmografia de Pasolini de trás pra frente, de forma que seus filmes anteriores não têm sido capazes de me causar o mesmo impacto que esse. Um soco na boca do estômago muito bem dado.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977), de Woody Allen
A comédia romântica de Allen continua imbatível. O filme que estabelece seu despertar cinematográfico permanece atualíssimo. Meu parâmetro para o gênero junto com Se Meu Apartamento Falasse (Billy Wilder, 1960).

O Estado das Coisas (Der Stand der Dinge, 1982), de Wim Wenders
Como transformar uma experiência mal sucedida em um filme absolutamente genial. Condena o sonho americano ao mesmo tempo em que se nutre dele, numa relação ambígua de amor e ódio. Los Angeles nunca foi tão bonita.

O Dinheiro (L'argent, 1983), de Robert Bresson
Comecei assistindo os primeiros filmes de Bresson e de súbito pulei para seu último. Sua visão de mundo se tornou bem mais amargurada, menos esperançosa. Aos poucos me dei conta de que a realidade se abateu sobre ele. Assombroso como peça cinematográfica e como retrato fiel da nossa condição trágica.

A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984), de Wes Craven
Eu seria desonesto se não colocasse um filme de terror dos anos 80 na minha lista de cabeceira. Minha via de acesso ao cinema começou por aí. Nenhum personagem me causou tanto fascínio quanto o invasor de sonhos alheios, Freddy Krueger. Passei muita noite em claro por causa dele.

Fuga de Los Angeles (Escape from L.A., 1996), de John Carpenter
O melhor filme de ação já feito. Fiz um reconhecimento tardio da carreira de Carpenter aqui no blog, desde então convivo com a excelência de seus filmes que negligenciara por um bom tempo. De todas as suas produções, essa é a que eu levaria para uma ilha deserta.

Serras da desordem (2006), de Andrea Tonacci
Se eu tivesse que escolher o melhor filme feito a partir dos anos 2000, Serras da desordem encabeçaria a lista. Eu o vi numa sessão com a presença do diretor, que conversou conosco após o término da mesma, no templo do Cine Cauim em Ribeirão Preto. Nossas origens, contradições e condições (de homem e cidadão) cabem dentro desse filme imenso.

domingo, março 27, 2016

A Bruxa (Robert Eggers, 2015)



A Bruxa estreou em circuito reduzido de salas, até estranhei a sua vinda para Ribeirão Preto, amparado por um hype demasiado positivo que chegou a causar frustração nos fãs de terror acostumados aos maus exemplares contemporâneos do gênero. Um dos meus colegas de trabalho disse que morreu de tédio durante a projeção, desqualificando o filme, cuja campanha de marketing o havia instigado a assisti-lo - sua expectativa era obviamente outra. A Bruxa definitivamente não pertence à vertente de filmes de terror calcada quase exclusivamente na violência gráfica, que a propósito, já rendeu ótimos exemplares do gore ou slasher movie.

O diretor Robert Eggers investe bastante na ambientação do longa-metragem ao transportar o espectador para a Nova Inglaterra do século dezessete, investindo no rigor das composições dos quadros, nos figurinos, no espaço que cerca os personagens (a Natureza ameaçadora) e na interpretação dos seus atores. O roteiro explora com maestria a dicotomia bem versus mal, tendo a religião e a figura de Deus representada no primeiro e a bruxa representada no segundo. O filme se sustenta todo na tensão proporcionada por esse choque, com alguns poucos momentos de alívio emocional. Mesmo com poucos recursos em mãos, o resultado acaba sendo extraordinário.

O mal espreita a família protagonista de protestantes (pai, mãe e cinco filhos) o tempo todo, testando a fé dos seus membros contra as suas próprias fraquezas. São antológicas as materializações carnais dessa entidade maligna, sobretudo aquelas que investem na sensualidade e sexualidade do avatar da bruxa. Mesmo a caracterização clássica da “velhinha com a ruga na ponta do nariz” não deixa a desejar, provavelmente influenciada pelas imagens distorcidas do Fausto (2011), de Aleksandr Sakurov.

No final das contas, o filme comporta uma miríade de leituras, podendo ser facilmente constatado pelas diversas abordagens críticas que pipocam na internet. A mim sobressaiu-se o rito de passagem da filha adolescente rumo à vida adulta, tendo a sua sexualidade reprimida pela influência machista e religiosa, bem características do período histórico retratado. O desfecho é assustador, embora também seja libertador. Existe uma energia encubada nesse ambiente opressor explorado pelo filme, cujo desprendimento alivia o espectador. O ritual de libertação é macabro, despertando uma sensação ambígua de alívio e desconforto. Essa ambiguidade que alimenta essas forças mutuamente opostas, a ponto de embaralhar a percepção do espectador, enriquece a fruição do filme. O “lado negro da força” se mostra demasiado sedutor para ser descartado com tamanha facilidade. A jovem Thomasin (Anya Taylor-Joy) é praticamente uma Carrie (Brian De Palma, 1976), tentando domar as energias difusas da sua sexualidade recém aflorada.

sábado, fevereiro 27, 2016

A ressureição de Paul Verhoeven



O sucesso do filme Deadpool (Tim Miller, 2016), que a propósito eu achei bem medíocre, reascendeu a discussão a respeito do uso da linguagem obscena em filmes mainstreams/blockbusters, atualmente castrados pela necessidade comercial de servir ao gosto da garotada - a censura exerce uma restrição legal -, cuja faixa etária representa o público que paga as contas e a qual a maioria das produções é direcionada. Quem vem ganhando terreno nessa queda de braço é o sempre subestimado Paul Verhoeven, cujo legado cinematográfico acumula uma série de sucessos outrora negligenciados, que agora passaram a servir de modelo para um tipo de cinema que anda fazendo muita falta.

A Netflix exibe atualmente seis filmes do diretor holandês em sua grade de programação: Flesh + Blood (1985), Robocop (1987), Showgirls (1995), Starship Troopers (1997), O Homem Sem Sombra (2000) e A Espiã (2006). Não havia visto ainda o Flesh + Blood e acabei preenchendo essa lacuna no meio da semana que se vai. O texto de Jessica Ritchey para o site rogerebert.com publicado ontem, Before “Deadpool”: The golden age of the r-rated blockbuster, lista uma série de filmes de Verhoeven, dentre os quais Flesh + Blood, elegendo o diretor como o melhor dos R-rated Blockbusters. O texto integral pode ser encontrado aqui. Transcrevo apenas a primeira parte que aborda Flesh + Blood.

In a move that must offer a great deal of comfort to people who toil on lost causes everywhere, the attempt to make a movie star out of Ryan Reynolds finally struck gold with "Deadpool." Its $135-million opening weekend washed away pyrite memories of “Green Lantern” and "Self/less." It also rejuvenated Hollywood’s interest in R-rated blockbusters. Unfortunately, it seems Hollywood is getting ready to learn the wrong lessons from success again. It isn’t so much that pasting curse words onto the flagging comic book movie juggernaut is the next step to insure they continue to be a license to print money. It's that audiences don’t want to see the same movie over and over again. And the bloodless, sexless, anemic PG-­13 rating has slowly drained mainstream genre movies of their drive and nerve. It used to be par for the course that among the PG­-13 sops there would a healthy crop of event movies that earned their R rating. And the freedom it gave directors to run to the limits and past them is sorely needed now. Full frontal shots aren’t going make comic book movies grow up or be more palatable to audiences in telling the exact same origin story. Things will be better when R-rated blockbusters remember their roots and stop being afraid of women, sex, and consequences. 

Perhaps the best of the R-rated blockbuster directors was Paul Verhoeven. Coming to Los Angeles by way of Amsterdam, he brought an outsider’s perspective and energy to American popcorn flicks. His first English-language film, “Flesh + Blood” was part of the medieval fantasy films boom made in the wake of “Excalibur”, but there wasn’t a single dragon in sight. Brutal and bloody, "Flesh+Blood" is "Game of Thrones" done better, tighter and sharper. It is anchored by two excellent performances from Rutger Hauer and Jennifer Jason Leigh. In the film co-written by Verhoeven, Hauer is the leader of a group of brigands and Leigh is the fair maiden whose caravan he captures. Instead of a hearts-and-flowers romance, what follows is sexual assault, kidnapping and fleeing the plague, with Leigh discovering that a ruthless pragmatism can be a weapon stronger than a sword.

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Abaixo uma crítica hilária do filme encontrada no IMDB.

Por rhinocerosfive-1 (04/10/07)
It's like David Lynch took a bunch of speed and made SPARTACUS on a spaghetti Western budget. Not many movies serve up plague dog steaks, or tie nude nuns to bedposts, or dangle Bruno Kirby's penis overhead; but that's Verhoeven, always ready to take the normal out of your day.
Right down to Rutger Hauer's white linen Sonny Crockett suit, this movie is a product of its outrageous, conspicuously consumptive time. As such, it's pretty good pulp. Crude, shocking, not terribly intelligent, but willing to go from zero to lurid every fifteen minutes. And if everybody involved has done better work, from director and photographer to writer and composer, at least Jennifer Jason Leigh is naked all the time. B pictures have succeeded on less.
The second unit stuff, and basics like set dressing, costumes, and weapons, all look kind of second-rate; there are several not very good performances, and much of the dialogue has the simplistic feel of having been translated.
So what. It ain't Austen. The violence is exciting and the sex is sexy. FLESH + BLOOD deserves a place somewhere below the first CONAN and high over the neutered HOUSE OF FLYING DAGGERS or LORD OF THE RINGS; not as slick as CROUCHING TIGER or as pedantic as some Mifune sword movies, better than Richard Fleischer's VIKINGS or CONAN II, and miles above the awful Marcus Nispel's unwatchable PATHFINDER.
FLESH + BLOOD is about equal to the more mundane 13TH WARRIOR or APOCALYPTO in thrill quotient and overall quality, as far as medieval action movies go - both of those have superior production values, but lack this movie's bleak comic philosophy. McTiernan is a stout journeyman, and Gibson is good at the Old Hollywood rah-rah stuff, but it's not a fair comparison. For all Verhoeven's absurd metaphors and silly imagery, he almost always manages not to be pretentious. The 1985-model Verhoeven was a master filmmaker who already had done better work than those fellows ever are likely to do, and he was only gearing up to make ROBOCOP, BASIC INSTINCT and STARSHIP TROOPERS within the next ten years. Let's watch those in a couple decades, against two DIEHARDS and a BRAVEHEART, and see who still looks visionary, or relevant, or interesting.

domingo, fevereiro 14, 2016

The Grace of Keanu Reeves

Por Brianna Ashby

Mesmo capengando, não tenho intenção nenhuma de abandonar o espaço, muito embora as postagens possam se tornar mais rarefeitas do que de costume. O tempo encurtou para me dedicar ao (projeto de) blog, ainda que as sessões permaneçam firmes e fortes.

Num esforço de reparação ou mea culpa pelo meu desprezo manifestado a respeito das habilidades interpretativas de Keanu Reeves no início da postagem do excelente De Volta ao Jogo (2014), publico o igualmente excelente artigo escrito por Angelina Jade Bastién na edição de fevereiro da revista online Bright Wall/Dark Room, “The Grace of Keanu Reeves”, cujo conteúdo tem o dom de valorizar a densidade interpretativa do ator que eu nunca havia conseguido enxergar. Logo depois que o li, busquei imediatamente (e aleatoriamente) Os Reis da Rua (2008), de David Ayer, para confrontar os meus preconceitos. Engoli seco.

Enquanto eu buscava o artigo no site do Roger Ebert, onde eu o havia encontrado, acessei o link para o próprio site da revista Bright Wall/Dark Room, pago, que me levou ao site da autora Angelina Jade Bastién, mantido a base de doações. Em respeito à autora, não vou transcrevê-lo. Em qualquer um dos links é possível lê-lo e ainda navegar por outros escritos de semelhante densidade. Só mantive a genial ilustração criada por Brianna Ashby.

Boa leitura!

sábado, janeiro 30, 2016

Os 8 Odiados (Quentin Tarantino, 2015)


É bem provável que o esforço de Tarantino junto ao diretor de fotografia Robert Richardson para encontrar o melhor enquadramento a fim de contar a estória de Os 8 Odiados funcione melhor no formato 70mm, só não sei se eu avaliaria melhor o filme caso eu tivesse a oportunidade de vê-lo em uma sala equipada com tal recurso - digo isso sem conhecimento de causa, já que nunca frequentei uma. Na comparação com Cães de Aluguel, que o próprio diretor reconhece em entrevistas como uma referência válida, acho que ele perde. Em 92, antes do estrelato de Tarantino e enquanto a película não sofria ameaça de extinção, o filme falava por si só. O frescor da narrativa fragmentada (com idas e vindas no tempo) e os diálogos afiados se bastavam, trazendo uma energia revigorante ao início dos anos 90. A escassez de recursos, facilmente constatada pelo padrão barato da produção, dava um charme aos engravatados confinados em um galpão abandonado à procura de um traidor. Agora, a indústria sobrevive criando produtos "vintage" para um público ávido em consumi-los. Essa questão exterior ao filme fomenta um merchandising que retroalimenta a própria indústria. Com a adoção da tecnologia digital para exibição dos filmes em salas de cinema, a produção por si só já não basta, junto dela tem de vir uma experiência de consumo (o 3D é o exemplo melhor difundido dessa prática).

Os irmãos Weinstein, donos da Weinstein Co., antiga Miramax, financiaram as excentricidades de Tarantino desde sempre, mas andaram perdendo prestígio ultimamente. Houve um período que suas produções eram verdadeiros papa-Oscars, chegando a emplacar mais de uma entre as finalistas com reais chances de ganho (Carol, de Todd Haynes teria sido a aposta deles deste ano).

Embora o enfoque do início do texto tenha sido negativo eu gostei do filme, mas confesso que me aborreci em alguns momentos mesmo tendo me divertido à beça. Quem mais me impressionou foi Tim Roth, que andava meio sumido do cinema, mais presente em produções televisivas ultimamente. Sua parte é menos explorada, mas sempre que a câmera se detém sobre ele o filme ganha em interesse. Tim Roth, Samuel L. Jackson e Christolph Waltz são atores Tarantinescos por excelência, com o dom de valorizar o diálogo roteirizado valendo-se exclusivamente do timing e da entonação das suas falas.

 Pablo Villaça, em seu artigo para o site rogerebert.com, intitulado, "The Brilliance of The Hateful Eight", enxerga os personagens como uma representação (um microcosmos) dos próprios Estados Unidos, um país que permanece um palco de demonstrações crescentes de intolerância contra todo tipo de minoria: negros, gays, latinos, mulheres e mais obviamente muçulmanos. O artigo explora melhor essa ideia, dando uma interessante interpretação para a carta de Abraham Lincoln onipresente em toda a narrativa.

Mesmo com uma filmografia relativamente curta, sendo esse o "oitavo filme de Quentin Tarantino", o diretor já coleciona uma gama bem variável de gêneros abordados: o filme de gângster, o spaghetti western, o filme de guerra, o kung fu flick, o blaxspoitation e o inclassificável À Prova de Morte. Uma incursão pelo terror seria muito bem vinda.

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Um Amor a Cada Esquina (Peter Bogdanovich, 2014)


O tempo anda escasso nesse final de ano, quando anteriormente eu conseguia colocar em dia quase tudo que havia ficado para trás. Vi esses dias Um Amor a Cada Esquina e me diverti bastante com um Bogdanovich que já não filmava há algum tempo. Mesmo com o acesso às clássicas screwball comedies de outrora cada vez mais fácil é sempre um deleite encontrar uma releitura de um (sub)gênero tão querido à altura dos seus melhores exemplares.

O texto do Gilberto Silva Jr. para a Revista Interlúdio contribuiu para que eu reposicionasse o filme como o primeiro da minha longa lista de prioridades cinematográficas. A leitura anterior a sessão serviu para aguçar os meus sentidos e a posterior para reforçar a merecida valorização que o Gilberto lhe atribuiu. Aqui vai o link e abaixo a reprodução.

Por Gilberto Silva Jr.

A imensa maioria da produção do cinema americano contemporâneo é composta de filmes que poderiam ser dirigidos por qualquer um. É, portanto, ao mesmo tempo, um alento e um choque quando surge um filme que só poderia existir quando dirigido por um cineasta específico. Um Amor a Cada Esquina é um desses casos, cada vez mais raros: um filme que, como se constata em seu resultado final, não faria sentido algum sem a visão pessoal de Peter Bogdanovich. Um alento para os amantes de cinema, que cada vez mais se vêm privados da oportunidade de assistir a produtos de entretenimento concebidos com tamanha delicadeza. Um choque para a indústria, que fica sem saber o que fazer com um produto que não se encaixa em qualquer dos seus padrões industriais e mercadológicos.

Bogdanovich é um cineasta que, tendo em vista sua história como crítico e, acima de tudo, fã de um cinema clássico, carrega para todos os seus filmes a bagagem de um passado acumulado, sem perder de vista o momento presente. Consegue, quase sempre, atingir a árdua missão de ser nostálgico sem se tornar saudosista. O padrão unicista que impera na produção hollywoodiana das últimas décadas segue lhe permanecendo algo estranho, o que acabou por deixá-lo sendo uma figura cada vez mais à margem, tornando sua carreira errática por mais de quatro décadas. 

Portanto, ao assistir a Um Amor a Cada Esquina, nos transparece o fato de Bogdanovich ter agarrado com unhas e dentes a oportunidade de realizar um filme que tenha realmente a sua cara. Em tempos onde manuais de escrita cinematográfica demandam de um roteiro uma suposta “coerência”, assistimos a uma comédia que manda essa “coerência” às favas, onde o que importa é a graça removida de cada sequência, burilada em toda sua individualidade. Retoma os fundamentos da screwball comedy, sedimentados há cerca de oito décadas por roteiristas como Ben Hecht e cineastas como Howard Hawks, e aplica a sua visão pessoal do universo contemporâneo do entretenimento. Disso surge uma experiência praticamente única no cinema atual, calcada principalmente no estranhamento. Seja do estranhamento do autor perante padrões de comportamento que lhe soam cada vez mais distantes, seja do estranhamento do espectador diante de um produto que, apesar de soar como um filme diferente de tudo que se tem assistido ultimamente, se revela fascinante a cada momento. 

O padrão estabelecido em privilegiar o conceito de cada sequência como um todo, que surge no roteiro assinado por Bogdanovich e sua ex-esposa Louise Stratten, se revela de tamanha eficiência que, mesmo quando surgem, ao longo do filme, saltos narrativos que parecem estar mais relacionados a cortes na sala de montagem ou a possível interferência dos produtores, estes surgem perfeitamente diluídos na concepção do todo. Mais um retorno aos princípios da essência do cinema clássico, onde a montagem exerce inequívoca corresponsabilidade na geração do efeito cômico. 

O que nos leva a não deixar de destacar que Um Amor a Cada Esquina é acima de tudo um filme extremamente engraçado, no qual, além de unir com maestria todos os pilares do artesanato cinematográfico (mise-en-scène, roteiro, montagem), Bogdanovich consegue extrair do elenco uma total compreensão de sua proposta, onde duas intérpretes conseguem ainda brilhar acima do conjunto onde impera a excelência: se Jennifer Aniston, estrela da indústria, tem aqui, em um papel coadjuvante, sua melhor atuação em cinema, é a protagonista, Imogen Poots, que, com toda sua juventude, faz um trabalho digno de antologia. É como se Carole Lombard não tivesse morrido em seu apogeu (aos 33 anos, em 1942), atravessasse décadas, chegado aos nossos tempos e rejuvenescesse por um toque de mágica, preservando toda sua malícia, mas recuperando uma doce inocência de quem experimenta novas sensações. Acompanhar as expressões faciais e modulações vocais de Pots é mais um prazer à parte nesse filme ímpar que, em seu renovado classicismo, se revela hoje tão moderno quanto Essa Pequena é uma Parada ou Muito Riso e Muita Alegria o foram, respectivamente, em 1972 e 1981.

sábado, dezembro 26, 2015

De Volta ao Jogo (Chad Stahelski e David Leicht, 2014)


Pra variar, eu não estava botando muita fé nesse entusiasmo todo com que De Volta ao Jogo vinha colhendo elogios de boa parte da crítica, chegando a constar em algumas listas de melhores de 2014. Cheguei a abrir mão de vê-lo no cinema, certo de que seria mais um filme de ação genérico. Honestamente, desconfiei que um filme protagonizado por Keanu Reeves pudesse realmente gozar desse status (o preconceito dando as caras novamente). No final das contas me dei mal. É um p... filme.

O roteiro se restringe ao básico, estabelecendo logo nos dez primeiros minutos as premissas as quais permanecerá fiel até o fim. É o velho tema da vingança levado com muito vigor e muita inventividade. Trata-se basicamente de um matador profissional aposentado (mais por opção do que por tempo de serviço), o tal John Wick do título original (Keanu Reeves), que perdeu a mulher numa batalha contra uma doença, mas se vê novamente exercendo o ofício do qual se afastara quando recebe a visita indesejada do filho do seu antigo contratante que o subtrai dos seus itens mais estimados.

Em nenhum momento o roteiro perde o foco da empreitada, fazendo da caçada um subtexto perfeito para empilhar uma cena de ação melhor do que a outra. Joga a favor dos envolvidos com a produção e a direção o fato de serem antigos dublês que conhecem bem a dinâmica desse gênero. O hotel que serve de abrigo aos matadores quando estes estão a serviço é um achado. Nele orbita uma galeria de personagens dos mais criativos, responsáveis por manter ativa a engrenagem desse comércio de vidas, a ponto de contar com um médico de plantão para atender àqueles que prescindiram da sorte no exercício de suas missões.

Os códigos que regem o convívio desses tipos, e que condizem com as premissas estabelecidas no início, são reforçados no segmento do hotel. O filme respira o tempo todo dentro dessa bolha que ele mesmo criou, mas em nenhum momento sofre de asfixia ou se esgota. O tiroteio noturno na boate é uma das melhores cenas de ação dos últimos tempos, comparável ao de Colateral (2004), de Michael Mann.

sábado, dezembro 19, 2015

Itinerância da Mostra 2015



Este ano tive de abortar minha ida a São Paulo para usufruir da Mostra em virtude da abertura de um novo negócio ainda no primeiro semestre e desde já vislumbro dificuldades para comparecer a próxima edição em função da chegada de uma nova filha.

Sendo assim, me sobrou de consolo a Itinerância da Mostra em Ribeirão Preto, que trouxe boas alternativas na seleção, cujos títulos que mais me interessavam consegui ver: o derradeiro Manuel de Oliveira, Visita - Ou Memórias e Confissões, filmado em 1982, mas lançado após o falecimento do diretor a pedido do próprio, e o último Ermanno Olmi, Os Campos Voltarão, que aborda as dificuldades de um bando de soldados ocupando uma trincheira na fronteira da Itália com a Áustria, em plena Primeira Guerra Mundial. Ambos são filmes curtos de pouco mais de uma hora de duração.

O primeiro captura o fantasma do diretor falecido em imagens semi espirituais num passeio pela casa onde o mesmo passou boa parte da sua vida e cuja influência se faz presente em seus filmes. A leveza das imagens captadas atrelada a serenidade do discurso de Manoel coloca o espectador num estado de transe, na fronteira onde o sonho e a realidade se misturam a ponto de se tornarem indistinguíveis. Um dos pontos altos é o relato breve e apaixonante da sua esposa, que emociona por sua singeleza e honestidade.

Ermanno Olmi aborda um ambiente de desesperança assombrado pela presença da morte. A trincheira de Olmi é bem diferente da trincheira de Stanley Kubrick em Glória Feita de Sangue (1957). Nessa versão mais recente praticamente nada acontece, tudo não passa de um exercício de espera agonizante. O tempo é implacável. Por essas e por outras quando vem o bombardeio o efeito é mais impactante, lembrando um pouco Verão Violento (1959), de Valério Zurlini. Apesar da jornada desgastante em meio a um frio congelante, a sensação que fica ao término é mais positiva que negativa.

quinta-feira, novembro 26, 2015

Weekend à francesa (Jean-Luc Godard, 1967)



Por Ethan de Seife

Weekend à francesa pode ser o mais selvagem e obscuro de todos os filmes de Jean-Luc Godard, o que quer dizer alguma coisa. É também uma de suas obras mais audaciosas. Vale tudo na tela. Uma conversa telefônica mundana se transforma em um número musical absurdamente encantador, nossos heróis se encontram com personagens de contos de fadas no bosque, e protagonistas podem ter finais horríveis a qualquer hora. A decisão de Godard de avançar do episódico para o episódico e bizarro foi ousada e de grande repercussão. Cineastas radicais de todas as tendências devem muito a essa obra.

Mas “radical” seria um rótulo bem infeliz para a película, pois conota uma politização simplista e falta de humor. Pode ter certeza de que Weekend não padece desses males. Na realidade, é um filme extremamente engraçado, em parte por conta das suas atitudes políticas. A capacidade de misturar o sério, o cômico, o belo e absurdo era apenas um dos muitos dons de Godard.

Nenhuma discussão sobre Weekend estaria completa sem a menção a sua tomada mais famosa, provavelmente uma das mais famosas do cinema. Talvez o esteio do filme seja a tomada panorâmica de mais ou menos 10 minutos sobre o pior engarrafamento de trânsito do mundo, interrompida pelo gosto de Godard por subtítulos didáticos e elípticos. Mas não se trata de um engarrafamento comum: a versão assustadora mas hilariante de Godard inclui animais de zoológico, barcos, um piquenique ocasional e um bocado de sangue. Mas, como o diretor disse uma vez, não é nada para se preocupar. É tudo tinta vermelha.

sexta-feira, novembro 20, 2015

A Costa do Mosquito (Peter Weir, 1986)


Eu acho que o nome do filme nunca me despertou o devido interesse quando eu frequentava locadoras nas décadas de 80 e 90. Era sempre um título disponível, que, embora estrelado por um astro em ascensão / consolidado na ocasião (Harrison Ford em ótima performance), não foi capaz de romper a barreira da minha curiosidade. A comodidade de acesso ao Netflix me trouxe ele numa bandeja que eu não pude recusar: dois ou três cliques e o brasão da Warner Bros. já estava girando no centro do meu televisor.

Honestamente, foi a descoberta de que Paul Schrader roteirizava o filme que me levou a ele, ainda que possa ser considerado um autêntico Peter Weir (a relação de autoria também funciona para a parceria Schrader-Scorsese, no sentido de que o universo abordado funciona para ambos os cineastas).

A relação do homem branco "civilizado" com outra cultura permeia a filmografia de Peter Weir. O espectador descobre junto com o protagonista (o tal homem branco) a extensão da sua insignificância à medida que sua curiosidade avança sobre a outra cultura (sobrepondo-se a ela). O instinto predatório de dominação, contrário à ideia de aproximação e compreensão do outro, culmina fatalmente com a violência. A religião, que talvez pudesse apaziguar os ânimos dos envolvidos, escamoteia as reais intenções dos seus pregadores, cujas investidas "civilizatórias" se justificam como a manifestação voluntária da vontade de Deus. Por fim, prevalece a máxima de Thomas Hobbes: "o homem é o lobo do homem".

Cada um puxa a sardinha para o seu lado em detrimento dos interesses alheios. Allie Fox (Harrison Ford) se torna uma vítima da sua própria obsessão, perdendo de vista seus próprios ideais e sendo levado por um senso de propósito distorcido. Ele abandona um ambiente que considera ofensivo (os EUA dos anos 80), levando toda a família em busca do sonho de poder erguer sua própria cultura (ao exercer sua influência sobre um meio ambiente "virgem", a Costa do Mosquito do título). A seu ver, sua inteligência (extremamente valorizada pelos outros personagens do filme) e senso civilizatório seriam suficientes para garantir o bem estar de seus pares bem como de quem fosse influenciado por ele. Allie só não contava encontrar com outros indivíduos com a mesma intenção que a sua.