sábado, fevereiro 27, 2016

A ressureição de Paul Verhoeven



O sucesso do filme Deadpool (Tim Miller, 2016), que a propósito eu achei bem medíocre, reascendeu a discussão a respeito do uso da linguagem obscena em filmes mainstreams/blockbusters, atualmente castrados pela necessidade comercial de servir ao gosto da garotada - a censura exerce uma restrição legal -, cuja faixa etária representa o público que paga as contas e a qual a maioria das produções é direcionada. Quem vem ganhando terreno nessa queda de braço é o sempre subestimado Paul Verhoeven, cujo legado cinematográfico acumula uma série de sucessos outrora negligenciados, que agora passaram a servir de modelo para um tipo de cinema que anda fazendo muita falta.

A Netflix exibe atualmente seis filmes do diretor holandês em sua grade de programação: Flesh + Blood (1985), Robocop (1987), Showgirls (1995), Starship Troopers (1997), O Homem Sem Sombra (2000) e A Espiã (2006). Não havia visto ainda o Flesh + Blood e acabei preenchendo essa lacuna no meio da semana que se vai. O texto de Jessica Ritchey para o site rogerebert.com publicado ontem, Before “Deadpool”: The golden age of the r-rated blockbuster, lista uma série de filmes de Verhoeven, dentre os quais Flesh + Blood, elegendo o diretor como o melhor dos R-rated Blockbusters. O texto integral pode ser encontrado aqui. Transcrevo apenas a primeira parte que aborda Flesh + Blood.

In a move that must offer a great deal of comfort to people who toil on lost causes everywhere, the attempt to make a movie star out of Ryan Reynolds finally struck gold with "Deadpool." Its $135-million opening weekend washed away pyrite memories of “Green Lantern” and "Self/less." It also rejuvenated Hollywood’s interest in R-rated blockbusters. Unfortunately, it seems Hollywood is getting ready to learn the wrong lessons from success again. It isn’t so much that pasting curse words onto the flagging comic book movie juggernaut is the next step to insure they continue to be a license to print money. It's that audiences don’t want to see the same movie over and over again. And the bloodless, sexless, anemic PG-­13 rating has slowly drained mainstream genre movies of their drive and nerve. It used to be par for the course that among the PG­-13 sops there would a healthy crop of event movies that earned their R rating. And the freedom it gave directors to run to the limits and past them is sorely needed now. Full frontal shots aren’t going make comic book movies grow up or be more palatable to audiences in telling the exact same origin story. Things will be better when R-rated blockbusters remember their roots and stop being afraid of women, sex, and consequences. 

Perhaps the best of the R-rated blockbuster directors was Paul Verhoeven. Coming to Los Angeles by way of Amsterdam, he brought an outsider’s perspective and energy to American popcorn flicks. His first English-language film, “Flesh + Blood” was part of the medieval fantasy films boom made in the wake of “Excalibur”, but there wasn’t a single dragon in sight. Brutal and bloody, "Flesh+Blood" is "Game of Thrones" done better, tighter and sharper. It is anchored by two excellent performances from Rutger Hauer and Jennifer Jason Leigh. In the film co-written by Verhoeven, Hauer is the leader of a group of brigands and Leigh is the fair maiden whose caravan he captures. Instead of a hearts-and-flowers romance, what follows is sexual assault, kidnapping and fleeing the plague, with Leigh discovering that a ruthless pragmatism can be a weapon stronger than a sword.

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Abaixo uma crítica hilária do filme encontrada no IMDB.

Por rhinocerosfive-1 (04/10/07)
It's like David Lynch took a bunch of speed and made SPARTACUS on a spaghetti Western budget. Not many movies serve up plague dog steaks, or tie nude nuns to bedposts, or dangle Bruno Kirby's penis overhead; but that's Verhoeven, always ready to take the normal out of your day.
Right down to Rutger Hauer's white linen Sonny Crockett suit, this movie is a product of its outrageous, conspicuously consumptive time. As such, it's pretty good pulp. Crude, shocking, not terribly intelligent, but willing to go from zero to lurid every fifteen minutes. And if everybody involved has done better work, from director and photographer to writer and composer, at least Jennifer Jason Leigh is naked all the time. B pictures have succeeded on less.
The second unit stuff, and basics like set dressing, costumes, and weapons, all look kind of second-rate; there are several not very good performances, and much of the dialogue has the simplistic feel of having been translated.
So what. It ain't Austen. The violence is exciting and the sex is sexy. FLESH + BLOOD deserves a place somewhere below the first CONAN and high over the neutered HOUSE OF FLYING DAGGERS or LORD OF THE RINGS; not as slick as CROUCHING TIGER or as pedantic as some Mifune sword movies, better than Richard Fleischer's VIKINGS or CONAN II, and miles above the awful Marcus Nispel's unwatchable PATHFINDER.
FLESH + BLOOD is about equal to the more mundane 13TH WARRIOR or APOCALYPTO in thrill quotient and overall quality, as far as medieval action movies go - both of those have superior production values, but lack this movie's bleak comic philosophy. McTiernan is a stout journeyman, and Gibson is good at the Old Hollywood rah-rah stuff, but it's not a fair comparison. For all Verhoeven's absurd metaphors and silly imagery, he almost always manages not to be pretentious. The 1985-model Verhoeven was a master filmmaker who already had done better work than those fellows ever are likely to do, and he was only gearing up to make ROBOCOP, BASIC INSTINCT and STARSHIP TROOPERS within the next ten years. Let's watch those in a couple decades, against two DIEHARDS and a BRAVEHEART, and see who still looks visionary, or relevant, or interesting.

domingo, fevereiro 14, 2016

The Grace of Keanu Reeves

Por Brianna Ashby

Mesmo capengando, não tenho intenção nenhuma de abandonar o espaço, muito embora as postagens possam se tornar mais rarefeitas do que de costume. O tempo encurtou para me dedicar ao (projeto de) blog, ainda que as sessões permaneçam firmes e fortes.

Num esforço de reparação ou mea culpa pelo meu desprezo manifestado a respeito das habilidades interpretativas de Keanu Reeves no início da postagem do excelente De Volta ao Jogo (2014), publico o igualmente excelente artigo escrito por Angelina Jade Bastién na edição de fevereiro da revista online Bright Wall/Dark Room, “The Grace of Keanu Reeves”, cujo conteúdo tem o dom de valorizar a densidade interpretativa do ator que eu nunca havia conseguido enxergar. Logo depois que o li, busquei imediatamente (e aleatoriamente) Os Reis da Rua (2008), de David Ayer, para confrontar os meus preconceitos. Engoli seco.

Enquanto eu buscava o artigo no site do Roger Ebert, onde eu o havia encontrado, acessei o link para o próprio site da revista Bright Wall/Dark Room, pago, que me levou ao site da autora Angelina Jade Bastién, mantido a base de doações. Em respeito à autora, não vou transcrevê-lo. Em qualquer um dos links é possível lê-lo e ainda navegar por outros escritos de semelhante densidade. Só mantive a genial ilustração criada por Brianna Ashby.

Boa leitura!

sábado, janeiro 30, 2016

Os 8 Odiados (Quentin Tarantino, 2015)


É bem provável que o esforço de Tarantino junto ao diretor de fotografia Robert Richardson para encontrar o melhor enquadramento a fim de contar a estória de Os 8 Odiados funcione melhor no formato 70mm, só não sei se eu avaliaria melhor o filme caso eu tivesse a oportunidade de vê-lo em uma sala equipada com tal recurso - digo isso sem conhecimento de causa, já que nunca frequentei uma. Na comparação com Cães de Aluguel, que o próprio diretor reconhece em entrevistas como uma referência válida, acho que ele perde. Em 92, antes do estrelato de Tarantino e enquanto a película não sofria ameaça de extinção, o filme falava por si só. O frescor da narrativa fragmentada (com idas e vindas no tempo) e os diálogos afiados se bastavam, trazendo uma energia revigorante ao início dos anos 90. A escassez de recursos, facilmente constatada pelo padrão barato da produção, dava um charme aos engravatados confinados em um galpão abandonado à procura de um traidor. Agora, a indústria sobrevive criando produtos "vintage" para um público ávido em consumi-los. Essa questão exterior ao filme fomenta um merchandising que retroalimenta a própria indústria. Com a adoção da tecnologia digital para exibição dos filmes em salas de cinema, a produção por si só já não basta, junto dela tem de vir uma experiência de consumo (o 3D é o exemplo melhor difundido dessa prática).

Os irmãos Weinstein, donos da Weinstein Co., antiga Miramax, financiaram as excentricidades de Tarantino desde sempre, mas andaram perdendo prestígio ultimamente. Houve um período que suas produções eram verdadeiros papa-Oscars, chegando a emplacar mais de uma entre as finalistas com reais chances de ganho (Carol, de Todd Haynes teria sido a aposta deles deste ano).

Embora o enfoque do início do texto tenha sido negativo eu gostei do filme, mas confesso que me aborreci em alguns momentos mesmo tendo me divertido à beça. Quem mais me impressionou foi Tim Roth, que andava meio sumido do cinema, mais presente em produções televisivas ultimamente. Sua parte é menos explorada, mas sempre que a câmera se detém sobre ele o filme ganha em interesse. Tim Roth, Samuel L. Jackson e Christolph Waltz são atores Tarantinescos por excelência, com o dom de valorizar o diálogo roteirizado valendo-se exclusivamente do timing e da entonação das suas falas.

 Pablo Villaça, em seu artigo para o site rogerebert.com, intitulado, "The Brilliance of The Hateful Eight", enxerga os personagens como uma representação (um microcosmos) dos próprios Estados Unidos, um país que permanece um palco de demonstrações crescentes de intolerância contra todo tipo de minoria: negros, gays, latinos, mulheres e mais obviamente muçulmanos. O artigo explora melhor essa ideia, dando uma interessante interpretação para a carta de Abraham Lincoln onipresente em toda a narrativa.

Mesmo com uma filmografia relativamente curta, sendo esse o "oitavo filme de Quentin Tarantino", o diretor já coleciona uma gama bem variável de gêneros abordados: o filme de gângster, o spaghetti western, o filme de guerra, o kung fu flick, o blaxspoitation e o inclassificável À Prova de Morte. Uma incursão pelo terror seria muito bem vinda.

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Um Amor a Cada Esquina (Peter Bogdanovich, 2014)


O tempo anda escasso nesse final de ano, quando anteriormente eu conseguia colocar em dia quase tudo que havia ficado para trás. Vi esses dias Um Amor a Cada Esquina e me diverti bastante com um Bogdanovich que já não filmava há algum tempo. Mesmo com o acesso às clássicas screwball comedies de outrora cada vez mais fácil é sempre um deleite encontrar uma releitura de um (sub)gênero tão querido à altura dos seus melhores exemplares.

O texto do Gilberto Silva Jr. para a Revista Interlúdio contribuiu para que eu reposicionasse o filme como o primeiro da minha longa lista de prioridades cinematográficas. A leitura anterior a sessão serviu para aguçar os meus sentidos e a posterior para reforçar a merecida valorização que o Gilberto lhe atribuiu. Aqui vai o link e abaixo a reprodução.

Por Gilberto Silva Jr.

A imensa maioria da produção do cinema americano contemporâneo é composta de filmes que poderiam ser dirigidos por qualquer um. É, portanto, ao mesmo tempo, um alento e um choque quando surge um filme que só poderia existir quando dirigido por um cineasta específico. Um Amor a Cada Esquina é um desses casos, cada vez mais raros: um filme que, como se constata em seu resultado final, não faria sentido algum sem a visão pessoal de Peter Bogdanovich. Um alento para os amantes de cinema, que cada vez mais se vêm privados da oportunidade de assistir a produtos de entretenimento concebidos com tamanha delicadeza. Um choque para a indústria, que fica sem saber o que fazer com um produto que não se encaixa em qualquer dos seus padrões industriais e mercadológicos.

Bogdanovich é um cineasta que, tendo em vista sua história como crítico e, acima de tudo, fã de um cinema clássico, carrega para todos os seus filmes a bagagem de um passado acumulado, sem perder de vista o momento presente. Consegue, quase sempre, atingir a árdua missão de ser nostálgico sem se tornar saudosista. O padrão unicista que impera na produção hollywoodiana das últimas décadas segue lhe permanecendo algo estranho, o que acabou por deixá-lo sendo uma figura cada vez mais à margem, tornando sua carreira errática por mais de quatro décadas. 

Portanto, ao assistir a Um Amor a Cada Esquina, nos transparece o fato de Bogdanovich ter agarrado com unhas e dentes a oportunidade de realizar um filme que tenha realmente a sua cara. Em tempos onde manuais de escrita cinematográfica demandam de um roteiro uma suposta “coerência”, assistimos a uma comédia que manda essa “coerência” às favas, onde o que importa é a graça removida de cada sequência, burilada em toda sua individualidade. Retoma os fundamentos da screwball comedy, sedimentados há cerca de oito décadas por roteiristas como Ben Hecht e cineastas como Howard Hawks, e aplica a sua visão pessoal do universo contemporâneo do entretenimento. Disso surge uma experiência praticamente única no cinema atual, calcada principalmente no estranhamento. Seja do estranhamento do autor perante padrões de comportamento que lhe soam cada vez mais distantes, seja do estranhamento do espectador diante de um produto que, apesar de soar como um filme diferente de tudo que se tem assistido ultimamente, se revela fascinante a cada momento. 

O padrão estabelecido em privilegiar o conceito de cada sequência como um todo, que surge no roteiro assinado por Bogdanovich e sua ex-esposa Louise Stratten, se revela de tamanha eficiência que, mesmo quando surgem, ao longo do filme, saltos narrativos que parecem estar mais relacionados a cortes na sala de montagem ou a possível interferência dos produtores, estes surgem perfeitamente diluídos na concepção do todo. Mais um retorno aos princípios da essência do cinema clássico, onde a montagem exerce inequívoca corresponsabilidade na geração do efeito cômico. 

O que nos leva a não deixar de destacar que Um Amor a Cada Esquina é acima de tudo um filme extremamente engraçado, no qual, além de unir com maestria todos os pilares do artesanato cinematográfico (mise-en-scène, roteiro, montagem), Bogdanovich consegue extrair do elenco uma total compreensão de sua proposta, onde duas intérpretes conseguem ainda brilhar acima do conjunto onde impera a excelência: se Jennifer Aniston, estrela da indústria, tem aqui, em um papel coadjuvante, sua melhor atuação em cinema, é a protagonista, Imogen Poots, que, com toda sua juventude, faz um trabalho digno de antologia. É como se Carole Lombard não tivesse morrido em seu apogeu (aos 33 anos, em 1942), atravessasse décadas, chegado aos nossos tempos e rejuvenescesse por um toque de mágica, preservando toda sua malícia, mas recuperando uma doce inocência de quem experimenta novas sensações. Acompanhar as expressões faciais e modulações vocais de Pots é mais um prazer à parte nesse filme ímpar que, em seu renovado classicismo, se revela hoje tão moderno quanto Essa Pequena é uma Parada ou Muito Riso e Muita Alegria o foram, respectivamente, em 1972 e 1981.

sábado, dezembro 26, 2015

De Volta ao Jogo (Chad Stahelski e David Leicht, 2014)


Pra variar, eu não estava botando muita fé nesse entusiasmo todo com que De Volta ao Jogo vinha colhendo elogios de boa parte da crítica, chegando a constar em algumas listas de melhores de 2014. Cheguei a abrir mão de vê-lo no cinema, certo de que seria mais um filme de ação genérico. Honestamente, desconfiei que um filme protagonizado por Keanu Reeves pudesse realmente gozar desse status (o preconceito dando as caras novamente). No final das contas me dei mal. É um p... filme.

O roteiro se restringe ao básico, estabelecendo logo nos dez primeiros minutos as premissas as quais permanecerá fiel até o fim. É o velho tema da vingança levado com muito vigor e muita inventividade. Trata-se basicamente de um matador profissional aposentado (mais por opção do que por tempo de serviço), o tal John Wick do título original (Keanu Reeves), que perdeu a mulher numa batalha contra uma doença, mas se vê novamente exercendo o ofício do qual se afastara quando recebe a visita indesejada do filho do seu antigo contratante que o subtrai dos seus itens mais estimados.

Em nenhum momento o roteiro perde o foco da empreitada, fazendo da caçada um subtexto perfeito para empilhar uma cena de ação melhor do que a outra. Joga a favor dos envolvidos com a produção e a direção o fato de serem antigos dublês que conhecem bem a dinâmica desse gênero. O hotel que serve de abrigo aos matadores quando estes estão a serviço é um achado. Nele orbita uma galeria de personagens dos mais criativos, responsáveis por manter ativa a engrenagem desse comércio de vidas, a ponto de contar com um médico de plantão para atender àqueles que prescindiram da sorte no exercício de suas missões.

Os códigos que regem o convívio desses tipos, e que condizem com as premissas estabelecidas no início, são reforçados no segmento do hotel. O filme respira o tempo todo dentro dessa bolha que ele mesmo criou, mas em nenhum momento sofre de asfixia ou se esgota. O tiroteio noturno na boate é uma das melhores cenas de ação dos últimos tempos, comparável ao de Colateral (2004), de Michael Mann.

sábado, dezembro 19, 2015

Itinerância da Mostra 2015



Este ano tive de abortar minha ida a São Paulo para usufruir da Mostra em virtude da abertura de um novo negócio ainda no primeiro semestre e desde já vislumbro dificuldades para comparecer a próxima edição em função da chegada de uma nova filha.

Sendo assim, me sobrou de consolo a Itinerância da Mostra em Ribeirão Preto, que trouxe boas alternativas na seleção, cujos títulos que mais me interessavam consegui ver: o derradeiro Manuel de Oliveira, Visita - Ou Memórias e Confissões, filmado em 1982, mas lançado após o falecimento do diretor a pedido do próprio, e o último Ermanno Olmi, Os Campos Voltarão, que aborda as dificuldades de um bando de soldados ocupando uma trincheira na fronteira da Itália com a Áustria, em plena Primeira Guerra Mundial. Ambos são filmes curtos de pouco mais de uma hora de duração.

O primeiro captura o fantasma do diretor falecido em imagens semi espirituais num passeio pela casa onde o mesmo passou boa parte da sua vida e cuja influência se faz presente em seus filmes. A leveza das imagens captadas atrelada a serenidade do discurso de Manoel coloca o espectador num estado de transe, na fronteira onde o sonho e a realidade se misturam a ponto de se tornarem indistinguíveis. Um dos pontos altos é o relato breve e apaixonante da sua esposa, que emociona por sua singeleza e honestidade.

Ermanno Olmi aborda um ambiente de desesperança assombrado pela presença da morte. A trincheira de Olmi é bem diferente da trincheira de Stanley Kubrick em Glória Feita de Sangue (1957). Nessa versão mais recente praticamente nada acontece, tudo não passa de um exercício de espera agonizante. O tempo é implacável. Por essas e por outras quando vem o bombardeio o efeito é mais impactante, lembrando um pouco Verão Violento (1959), de Valério Zurlini. Apesar da jornada desgastante em meio a um frio congelante, a sensação que fica ao término é mais positiva que negativa.

quinta-feira, novembro 26, 2015

Weekend à francesa (Jean-Luc Godard, 1967)



Por Ethan de Seife

Weekend à francesa pode ser o mais selvagem e obscuro de todos os filmes de Jean-Luc Godard, o que quer dizer alguma coisa. É também uma de suas obras mais audaciosas. Vale tudo na tela. Uma conversa telefônica mundana se transforma em um número musical absurdamente encantador, nossos heróis se encontram com personagens de contos de fadas no bosque, e protagonistas podem ter finais horríveis a qualquer hora. A decisão de Godard de avançar do episódico para o episódico e bizarro foi ousada e de grande repercussão. Cineastas radicais de todas as tendências devem muito a essa obra.

Mas “radical” seria um rótulo bem infeliz para a película, pois conota uma politização simplista e falta de humor. Pode ter certeza de que Weekend não padece desses males. Na realidade, é um filme extremamente engraçado, em parte por conta das suas atitudes políticas. A capacidade de misturar o sério, o cômico, o belo e absurdo era apenas um dos muitos dons de Godard.

Nenhuma discussão sobre Weekend estaria completa sem a menção a sua tomada mais famosa, provavelmente uma das mais famosas do cinema. Talvez o esteio do filme seja a tomada panorâmica de mais ou menos 10 minutos sobre o pior engarrafamento de trânsito do mundo, interrompida pelo gosto de Godard por subtítulos didáticos e elípticos. Mas não se trata de um engarrafamento comum: a versão assustadora mas hilariante de Godard inclui animais de zoológico, barcos, um piquenique ocasional e um bocado de sangue. Mas, como o diretor disse uma vez, não é nada para se preocupar. É tudo tinta vermelha.

sexta-feira, novembro 20, 2015

A Costa do Mosquito (Peter Weir, 1986)


Eu acho que o nome do filme nunca me despertou o devido interesse quando eu frequentava locadoras nas décadas de 80 e 90. Era sempre um título disponível, que, embora estrelado por um astro em ascensão / consolidado na ocasião (Harrison Ford em ótima performance), não foi capaz de romper a barreira da minha curiosidade. A comodidade de acesso ao Netflix me trouxe ele numa bandeja que eu não pude recusar: dois ou três cliques e o brasão da Warner Bros. já estava girando no centro do meu televisor.

Honestamente, foi a descoberta de que Paul Schrader roteirizava o filme que me levou a ele, ainda que possa ser considerado um autêntico Peter Weir (a relação de autoria também funciona para a parceria Schrader-Scorsese, no sentido de que o universo abordado funciona para ambos os cineastas).

A relação do homem branco "civilizado" com outra cultura permeia a filmografia de Peter Weir. O espectador descobre junto com o protagonista (o tal homem branco) a extensão da sua insignificância à medida que sua curiosidade avança sobre a outra cultura (sobrepondo-se a ela). O instinto predatório de dominação, contrário à ideia de aproximação e compreensão do outro, culmina fatalmente com a violência. A religião, que talvez pudesse apaziguar os ânimos dos envolvidos, escamoteia as reais intenções dos seus pregadores, cujas investidas "civilizatórias" se justificam como a manifestação voluntária da vontade de Deus. Por fim, prevalece a máxima de Thomas Hobbes: "o homem é o lobo do homem".

Cada um puxa a sardinha para o seu lado em detrimento dos interesses alheios. Allie Fox (Harrison Ford) se torna uma vítima da sua própria obsessão, perdendo de vista seus próprios ideais e sendo levado por um senso de propósito distorcido. Ele abandona um ambiente que considera ofensivo (os EUA dos anos 80), levando toda a família em busca do sonho de poder erguer sua própria cultura (ao exercer sua influência sobre um meio ambiente "virgem", a Costa do Mosquito do título). A seu ver, sua inteligência (extremamente valorizada pelos outros personagens do filme) e senso civilizatório seriam suficientes para garantir o bem estar de seus pares bem como de quem fosse influenciado por ele. Allie só não contava encontrar com outros indivíduos com a mesma intenção que a sua.

sábado, novembro 07, 2015

Ponte dos Espiões (Steven Spielberg, 2015)

Duelo de interpretações memoráveis entre Tom Hanks e Mark Rylance - a interação entre os dois atores sustenta boa parte do filme

No balanço da filmografia de Steven Spielberg é muito provável que Ponte dos Espiões apareça como um filme menor do diretor. O lançamento modesto da produção que aborda a espionagem na extinta Guerra Fria, em que os diálogos são mais relevantes para a construção dramática do filme do que o próprio ato de espionar, pode levar a falsa impressão de inferioridade. O que poderia se tornar um thriller corriqueiro de espionagem nas mãos de outro cineasta, com Spielberg se torna uma aula de cidadania. Desde já é um dos meus preferidos do diretor. A postagem do Luiz Carlos Merten a seu respeito, intitulada “Spielberg, pensador da América”, reserva boa parte das minhas impressões, trazendo a lembrança da influência vívida de John Ford em suas últimas produções.

Já escrevi mil vezes no blog que existe um Spielberg antes e um depois da trilogia sobre o 11 de Setembro. O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique elevaram, para mim, o cinema dele a um outro patamar, o que foi confirmado por Lincoln. Spielberg não apenas cineasta, mas pensador político. Ei-lo que volta em Ponte dos Espiões. Tom Hanks, que se chama Donovan, é chamado a defender Frank Relyance, um espião russo preso da ‘América’. A expectativa de todo o mundo é de um julgamento pró-forma, com sentença (de morte) antecipada, mas Donovan leva a defesa a sério, e a um custo elevado – a segurança da própria família -, faz de tudo para inocentar Abel. Quando isso é impossível, luta para preservar sua vida. Queria saber o nome do estudante e fiz há pouco uma pesquisa na rede. Não encontrei o que procurava e, em contrapartida, vi que muita gente que acha o filme patrioteiro, uma defesa do sistema de Justiça norte-americano etc etc. Não foi o que vi. Donovan usa o argumento de que os olhos do mundo estão sobre a América como pretexto para um julgamento honesto, mas o circo está armado e o clima de linchamento moral – do acusado, do advogado – é muito forte. Abel vai definir Donovan como o Sr. Obstinado, e ele é. Chamado para negociar com a URSS a troca de Abel pelo piloto cujo avião de espionagem foi abatido em território inimigo, Donovan obstina-se, de novo, em conseguir a libertação de Gary Powers e a do estudante preso em, Berlim Oriental. Para a CIA, o estudante não importa. O governo dos EUA só quer o piloto, que pode revelar segredos importantes, como Abel também, poderia, mas não fez. Só a obstinação de Donovan salva o garoto e, no fim, quando Powers, no voo de volta, senta-se ao lado do negociador – e percebendo como todos o evitam – diz em tom choroso “Eu não contei nada, nada’, toda a arquitetura dramática do filme converge para a frase que diz Tom Hanks. “Não importa o que os outros pensem ou digam. O que vale é a tua (sua) consciência.” É uma frase fordiana. A grandeza ética dos derrotados – dos acusados, dos que são colocados sob suspeita. Spielberg tem feito esses filmes grandes, e grandes filmes, para pensar a América no pós-11 de Setembro, colocando em discussão o que quase se perdeu com George W. Bush e seus asseclas do Departamento de Estado e do Pentágono.
Gostei muito de Ponte dos Espiões e, mesmo assim, me decepcionei. Gostei talvez menos que da trilogia, e do que Lincoln... Pode estar na tendência de Spielberg ao melodrama. No trem, em Berlim, Donovan vê os alemães que tentam fugir ser fuzilados no Muro. De volta à casa, no metrô, seu olhar acompanha as crianças que pulam muros. A América é melhor, sem dúvida, mas certamente não é por sua covarde maioria silenciosa, mas por homens que fazem a diferença. Como Donovan, como Spielberg. Creio que, mais que nunca, John Ford permanece com ‘o’ mestre’. Tem inspirado Clint, na medida em que Sniper Americano retoma a tragédia do solitário de Rastros de ÓdioPonte dos Espiões me lembrou mais Liberty Valance, O Homem que Matou o Facínora. A lição de democracia daquele filme, na escola, é repetida aqui no encontro de Donovan com o agente da CIA. Um, irlandês, o outro, alemão. O que os une senão o respeito ao código de leis, à Constituição? O próprio nome, se não fosse real, teria de ser inventado. Existem personagens de Ford que se chamam Donovan em Depois do Vendaval e O Aventureiro do Pacífico/Donovan’s Reef. Dou-me conta de que achava que não tinha gostado tanto – a la folie, como dizem os franceses – de Ponte dos Espiões. Mas gostei, sim.

quarta-feira, outubro 28, 2015

Mapas para as Estrelas (David Cronenberg, 2014)



Sem que isso represente qualquer tipo de spoiler, as estrelas do título Mapas para as Estrelas são as celebridades que movimentam (ou já movimentaram) a máquina de entretenimento de Hollywood. O título completo refere-se à rota a qual inúmeros turistas se submetem ao visitarem Los Angeles, interessados em conhecer o paradeiro dos seus astros favoritos. A galeria de personagens abordada pelo filme inclui o(a) estrela, o(a) agente, o(a) pretendente, o(a) assessor(a), o(a) fã e toda a esfera de sangue-sugas que orbitam esse universo de glamour.

Mesmo sem contar com um personagem ativo que represente essa estrela, um filme como Bling Ring (Sofia Copolla, 2012) me diz bem mais sobre Hollywood do que a abordagem direta que Mapas para as Estrelas faz dos bastidores do showbizz.

Bling Ring explora a influência bizarra que a busca incessante por fama e reconhecimento pode causar na vida de jovens aspirantes sem um horizonte consistente de perspectivas. A diretora Sofia Coppola aborda esse universo pela ótica do fã, construindo um cenário bastante melancólico da questão, que beira o absurdo.

A inconsistência dos valores compartilhados por esses tipos encontra na abordagem contida de Coppola o seu discurso mais eloquente. As invasões às mansões das celebridades à procura de pertences em seus guarda roupas representam a essência da futilidade que esses jovens insistem em idolatrar. O panorama de bestialidade se completa quando a figura dos pais entra em cena a fim de encorajá-los a seguir buscando esse modelo falido de ascensão social e/ou reconhecimento. A superfície cristalina desse mundo esconde um conteúdo totalmente oco.

Mapas para as Estrelas também aborda esse universo doentio, porém se vale de tipos bem mais caricatos para explorá-lo. Essa opção de abordagem causa um distanciamento da proposta, cuja extravagancia já se encontra intrinsicamente atrelada a ela (reflexo da própria natureza excêntrica da celebridade). A personagem da protagonista, Agatha, interpretada por Mia Wasikowska, é fraca demais para sustentar o peso do filme. Ela é o elo de ligação entre todo o restante, representando o bastião de sanidade que falta à outra parte do conjunto.

Mesmo não tendo me envolvido completamente com a proposta de Cronenberg, as palavras de Bruno Cursini para a Revista Interlúdio me ajudaram a melhor considerá-lo.

Antes de sabermos sua verdadeira identidade, o roteiro de Bruce Wagner insere outros personagens, nenhum dos quais capaz de causar simpatia. É como se aquelas paisagens – há muito transformadas em cenários – carregassem consigo alguma energia contagiosa e hábil em destituir seus habitantes de quaisquer sentimentos além daqueles mais primitivos. Em outras palavras, estamos diante de caricaturas repulsivas, à beira do insuportável: Havana Segrand (Julianne Moore) é uma decadente atriz tentando desesperadamente fazer o remake de um filme cujo original foi protagonizado por sua própria mãe. Neurótica, conforta-se em sessões regulares com um mezzo massagista mezzo guru – completo picareta – interpretado por John Cusack. Ele é pai tanto de um ator mirim dependente químico (Evan Bird) quanto de Agatha, fugitiva desde que ateou fogo na casa em que moravam. Para fechar o círculo de tão sutil trama, ela torna-se a faz-tudo de Havana. 

Seja por ter um transtorno mental previamente diagnosticado ou por ter passado uma longa temporada afastada daquele universo, Agatha permanecerá a pessoa pela qual pode-se crer em alguma forma de remissão. Com suas cicatrizes de queimadura pelo rosto e suas longas luvas pretas, ela é a única capaz de reconhecer (e reagir violentamente, por fim) a doença escamoteada por traz de toda aquela exterioridade asséptica. O incômodo que sua presença traz é por refletir, às claras, o que os outros escondem. Desfigurada e em algum estágio incerto de metamorfose, é ela a personagem que ligamos à filmografia de Cronenberg.  Ao novamente recusar a podridão ao seu redor, ela parte em busca de seu irmão. Estas ações (suas últimas) devem ser compreendidas como uma espécie de resgate, sendo talvez as únicas com alguma coerência – certamente as mais humanas que dali poderiam sair.