Com quase um ano de atraso,
suponho que todo mundo interessado em cinema já deva ter lido o post do Inácio Araújo publicado em 31 de
janeiro de 2011, intitulado “Filmes que
ninguém compreende”. Mesmo sendo pouco provável (já que estamos falando de
um dos melhores críticos brasileiros, senão o melhor), não duvido que para alguns
leitores (dos poucos que visitam esse espaço) o texto ainda seja inédito.
O Filipe Furtado fez uma
recapitulação das leituras favoritas de cinema em 2011 e citou o tal post do Inácio entre eles - só assim
pude relembrá-lo. Trata-se de uma resposta pública a um comentário postado no
blog do crítico da Folha de S.Paulo referindo-se à sua análise do filme Tio Bonmee, que pode recordar suas vidas
passadas (Apichatpong Weerasethakul, 2010).
Lembro-me que na ocasião eu nem havia visto o Tio Bonmee ainda - o que não diminui em nada o seu impacto.
Na época eu quase reproduzi o
texto aqui, mas o tempo foi passando e eu acabei me esquecendo de publicá-lo (e
o que é pior, havia me esquecido de que já o lera).
Caso ninguém o aproveite, ao
menos servirá para que eu possa consultá-lo sempre que for preciso.
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Não sei como alguém pode enxergar tanta coisa no filmeco de
Apichtapong. Fiz a besteira de assisti-lo e não aguentei ficar até o fim. E
olhe que entrei “na ponta dos pés”. Por que será que é tão difícil para um
crítico de cinema dizer que um filme ruim, de um diretor renomado, é apenas um
filme ruim? Nota-se um certo mal-estar em Inácio Araújo ao dizer que não é
fanático pelo diretor e que é difícil dizer se esse filme mereceu a Palma de
Ouro. Difícil por que? Falar de animais, pássaros e macacos-fantasmas ao invés
de dizer o óbvio? Ora, tenha paciência! O filme de Apichtapong lembra os de um
outro embuste chamado Abbas Kiarostami, um diretor chatíssimo mas com fama de
“profundo”. E depois ainda falam mal do cinemão de Hollywood…
Começo por esse
comentário, feito recentemente. Não importa quem o fez. Retrata uma atitude
muito freqüente no espectador eu diria deste século.
Não sei como alguém pode enxergar tanta coisa no filmeco de
Apichtapong.
Ou seja: só o que eu
vejo pode ser visto. Sou o centro do mundo. Qualquer entendimento que não o meu
é falso ou de má-fé.
Eu queria dizer que,
no caso do cinema, esse “euísmo”, para usar o termo de Celine a respeito dos
artistas, essa atitude não é assim tão pessoal: ela foi cuidadosamente
construída como um antiintelectualismo fim de século, que confere ao sujeito a
ilusão de que só o imediatamente compreensível a seus olhos pode ser apreciado.
Nota-se um certo mal-estar em Inácio Araújo ao dizer que não é
fanático pelo diretor e que é difícil dizer se esse filme mereceu a Palma de
Ouro. Difícil por que? Falar de animais, pássaros e macacos-fantasmas ao invés
de dizer o óbvio? Ora, tenha paciência.
Que mal estar? Com a
mesma presteza com que despacha um filme ele entende que pode, no seu
absolutismo personalista, me atribuir estados de espírito. Ora, o que eu disse
é cristalino e não vou nem explicar. Está lá. O misterioso, o incompreensível,
no caso, é a frase seguinte: “falar de animais, pássaros e macacos-fantasmas ao
invés de dizer o óbvio?”. Ok. O que é óbvio? Por que não se pode falar de
pássaros ou animais? Existe alguma lei proibindo? E o que há de errado com
macacos-fantasmas? Centenas de filmes nos trazem fantasmas, por que por uma vez
eles não poderiam ser macacos? O que tem contra macacos?
E será que a Fera de
“A Bela e a Fera” é tão diferente desse macaco? E será que o ogro do Shrek é
também incompreensível? Ou será que ele “diz o óbvio”? Ah, será que ele é
“apenas” uma fantasia? Ok. Mas porque o macaco-fantasma não pode ser? Por que
pode haver aparições em “Além da Vida”, digamos, mas não aqui? Um é “óbvio” e o
outro não? Bem, nesse caso, será “óbvio” o que acontece em “A Origem”, por
exemplo, tido e havido como o fenômeno intelectual do século pelos adeptos do
“dizer o óbvio”. Que dizer de pessoas que entram e saem de sonhos como se
sonhos fossem um supermercado? É “óbvio”? É mais compreensível do que um
macaco-fantasma, por exemplo?
O filme de Apichtapong lembra os de um outro embuste chamado Abbas
Kiarostami, um diretor chatíssimo mas com fama de “profundo”. E depois ainda
falam mal do cinemão de Hollywood…
Passemos pelo fato
de que Apichtapong não tem nada a ver com Kiarostami. O passo seguinte dessa
operação consiste em dizer: se eu não entendo esse objeto absurdo colocado à
minha frente, mais ninguém entende. Não é que me faltam elementos para
entendê-lo. É que ele só pode ser “um embuste”. Como o cara que diante do
quadro abstrato recusa-se a compreender que ali exista algum tipo de
raciocínio, de continuidade. Ele diz: o meu filho faz igual.
O passo seguinte
dessa operação mental consiste atribuir falsidade ao outro, ao leitor que
eventualmente sinta prazer diante desse objeto incompreensível, tortuoso,
portanto monstruoso, que deve ser objeto de destruição, não de entendimento –
já que embustes só podem ser entendidos como tal. É como dizer: se eu não senti
prazer diante disso, ninguém sentiu. Quem diz que sentiu está, claro, mentindo.
O Inácio mente, está constrangido de dizer isso ou aquilo, etc.
Aí entramos num
mundo conspiratório que envolve o festival de Cannes, o júri de Cannes, o
distribuidor do filme, os críticos e espectadores que gostaram do filme. Eles
formam uma corrente de pedantes que, como numa conspiração, parecem trocar
senhas, sinais secretos, apenas para desorientar o gosto pelo “óbvio”. Óbvio
que nem é tão óbvio assim, como a gente viu no caso de “A Origem”. Ou que pode
ver no caso de “Benjamin Button”: o que há de óbvio em alguém nascer centenário
e morrer nenê? Ou em… Enfim, talvez o mundo não seja tão óbvio assim.
Faltava a palavra
inevitável: chatíssimo. Essa espécie de condenação à morte simbólica. Há duas
maneiras de um filme ser chato: ou porque nós não o compreendemos ou porque o
compreendemos demais. Talvez o nosso amigo do óbvio se divirta à beça vendo,
digamos, “De Pernas para o Ar”. Lhe parecerá perfeitamente compreensível que
uma mulher frígida descubra a sexualidade não fazendo psicanálise ou procurando
um outro parceiro (o marido a abandonara, no mais): parece perfeitamente óbvio
que ela descubra a sexualidade com um vibrador, que se sinta realizada
abraçando um coelho movido a pilha etc. Isso lhe parece compreensível, assim
como os de “A Origem”, até porque são filmes que vêm com bula, sobretudo o
segundo, isso é, com essas explicações prévias que os estúdios destilam pela mídia.
E para esses
leitores o único conhecimento aceitável é o das bulas de remédio. E, como se
trata de fenômenos de conhecimento, é bem mais fácil imaginar que não existe
desconhecido, que não existem campos a desbravar. Apenas o óbvio. O mundo já
está decifrado. Quem não professa o óbvio é, obviamente, um impostor. O quê?
Freud com o inconsciente? Um impostor. Picasso? Não sabia pintar, era um
idiota, por isso pintava tudo torto. Godard? Nem se fala. Esse é tão óbvio que
é melhor nem falar. Beckett? Como não sabia desenvolver histórias, inventava
essas coisas que não vão nem pra frente nem pra trás. E todos esses, claro,
contam com o beneplácito dos intelectuais, dos críticos, esses parasitas
infatigáveis, sempre dispostos a dizer que se deleitaram com essas
monstruosidades, mas que elevam aos céus esses impostores tipo Manoel de
Oliveira, Antonioni, David Lynch… Que não compreendem que só queremos ver “uma
boa história”.
Ora, o que são boas
histórias? A do Homem-Aranha? Eu adoro. Mas não me parece nada “óbvio” um cara
que atravessa uma cidade pulando com sua teia. O que há de óbvio nisso?
Francamente, o macaco-fantasma do Apichtapong às vezes me parece bem mais
acessível. Ah, mas o Homem-Aranha é cheio de aventura, não é chato. Concordo.
Mas por que todo filme teria de ser cheio de incidentes, aventuras? Será que
não podemos admitir – já não digo apreciar, mas ao menos admitir – que existam
outras formas de narrar, outras histórias a contar que não aquelas “óbvias”,
isto é, que nos parecem familiares por uma razão ou outra?
Ou seja: por que
devemos exigir que o cinema nos traga sempre “o óbvio”, aquilo que já sabemos
ou pensamos saber previamente? É claro que isso também tem sua função. Mas o
mundo não pode ser feito apenas de faroestes, ou dramas, ou comédias. Ele
precisa ser feito de faroestes e dramas e comédias e muitas coisas mais.
E depois ainda falam mal do cinemão de Hollywood…
Quem fala mal,
cara-pálida? O fato de gostar de Godard ou Apichtapong ou Kiarostami não nos
impede de gostar de Hollywood, ou ao menos de James Cameron, de John Carpenter,
de Clint Eastwood, de Coppola (pai e filha), de George Romero, de Wes Craven,
de Brian de Palma, de Martin Scorsese, de Paul Schrader, de Joe Dante…
Porque esse é o último
estágio da operação (pode ser o primeiro): atribuir ao outro algo que não lhe
passa pela cabeça, para melhor poder delirar em cima disso.
Para quem,
sinceramente, pretende entender alguma coisa quando entra num cinema, que seja
adolescente ou inculto ou o que for, eu diria que o que não compreendemos é o
que ainda temos a compreender, a desbravar, a aprender. Ninguém nasce sabendo.
Vivemos para aprender. Não é vergonha procurar compreender as coisas.
Para esses arremates
de humanidade para quem a ignorância é o estágio máximo de humanidade, bem,
segue um boas festas e um “não tem papo” à moda do Jairo Ferreira.
Chega por enquanto.
Isso é uma introdução a duas ou três coisas que quero escrever a respeito de
“Os Residentes” e “Santos Dumont – Pré-cineasta”, exibidos em Tiradentes.
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