sábado, julho 27, 2019

Shampoo (Hal Ashby, 1975) e Regras Não Se Aplicam (Warren Beatty, 2016)


As filmagens de Shampoo começaram em janeiro de 1974. Se Shampoo era o trabalho autoral de alguém, esse alguém é provavelmente Beatty. Ashby estava em desvantagem desde o começo. Beatty tinha colocado pessoas de sua confiança em todos os postos-chave da equipe e Hal não tinha aliados, somente o montador Bob Jones. “Hal odiava autoridade e nesse filme Warren representava a autoridade”, diz Charles Mulvehill (produtor executivo). “Era o filme dele. Hal era um maníaco por controle, só que sem controle.”
Como a Geração Sexo, Drogas e Rock n´Roll Salvou Hollywood, Peter Biskind (pg. 202)

Foi coincidência enfileirar dois filmes de Warren Beatty (embora Shampoo seja dirigido por Hal Ashby, a sombra de Warren Beatty se faz muito presente na produção – a introdução do post explora um pouco essa questão). Primeiro veio Regras Não Se Aplicam, uma semana depois Shampoo – involuntariamente inverti a ordem das coisas. Duas produções separadas por aproximadamente 40 anos que, curiosamente, proporcionam uma avaliação crítica da misoginia em suas respectivas épocas. E, no que diz respeito a elas, refiro-me ao zeitgeist de suas produções, não ao período em que se passam as suas respectivas narrativas. Sendo assim, Regras Não Se Aplicam vale para o ano de 2016 e adjacências, não para a década de 1940. Shampoo se passa no crepúsculo do governo de Richard Nixon, justamente quando o filme estava sendo produzido – espírito da época da produção coincide com o da narrativa.

Naturalmente, os filmes não se prestam apenas a isso. Eles valem mais do que essa observação a que me dedico fazer alguns comentários.

Warren Beatty (diretor) explora a misoginia de Howard Hughes em Regras Não Se Aplicam pela via mais branda, retratando o milionário empresário/produtor/aviador/industrial como um homem pitoresco, infantil, difícil, ainda que divertido, absolutamente suavizado pela caracterização impagável de Warren Beatty (ator). As excentricidades do personagem não são exatamente negativas, são elas que proporcionam os momentos de alívio cômico da produção, mesmo em situações mais graves (spoiler) - como na gravidez indesejada de uma personagem importante na trama. Esse distanciamento temporal da narrativa com o tempo presente permite a Warren Beatty “brincar” com a questão sem se ver “envolvido” com ela.

Shampoo chama a atenção pela forma escancarada com que o personagem de Warren Beatty, principalmente, e o personagem de Jack Warden, da mesma forma, manifestam sua indiferença pelas mulheres. A narrativa do filme busca uma possível encenação para dar conta dos tempos sombrios que se avizinhavam (a eleição de Richard Nixon no plano narrativo e o exercício do seu mandato no momento da produção, já desgastado pelo escândalo de Waltergate), ao mesmo tempo em que joga uma pá de cal no movimento de contracultura e liberação sexual, vivenciados em sua plenitude na década anterior. Essa sensação de reprovação experimentada hoje, de abuso da condição patriarcal, teve nos anos 70 o auge do seu exercício. Existe uma tensão curiosa que se manifesta “fora” do filme, e de certa forma enriquece a sua fruição, que diz respeito ao próprio Warren Beatty: o narcisismo do ator que encomendou o projeto, se divertindo com as mulheres à custa de seu personagem (embora o “discurso da produção” vá em direção contrária a essa postura, ou pelo menos sugere ir). Documento comportamental precioso de uma época que estabeleceu o apogeu criativo de uma geração de cineastas.

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Involuntariamente, sem me dar conta dessas conexões, emendei uma semana depois o Corações Loucos (1971), do Bertrand Blier. Aí o bicho pega! Que filmaço, gostei demais. A liberdade, tão almejada e valorizada em sua escassez, se veste de desconcertante e perturbadora quando em abundância. Interpretação antológica de Gérard Depardieu, em estado de graça, que estabeleceu o seu lugar junto aos grandes atores franceses. Embora o seu personagem e o de Patrick Dewaere sejam misóginos, estúpidos, o entorno deles não oferece salvação/redenção alguma. O isolamento e a alienação são experimentados por todos os personagens, embora essa percepção só amadureça da metade do filme pra frente. A cena da amamentação no trem chega a ser deprimente por isso e a empatia do espectador em relação à mãe parte da indignação, num primeiro momento, para a piedade/compaixão, num segundo momento. Esse pêndulo emocional perpassa toda a narrativa, de um impacto inicial intenso, acentuado, para uma atenuação gradativa da ira, da inconformação.

Duas gigantes atrizes habitam o filme: Jeanne Moreau, enigmática como de hábito, em clima de despedida, provoca uma espécie de relaxamento nos personagens do filme, um apaziguamento do ímpeto libertário exacerbado (sua marca registada de outrora), oposto ao efeito lesivo despertado em sua personagem; Isabelle Huppert, em início de carreira, já carregava o gene da transgressão.

domingo, julho 07, 2019

Results (Andrew Bujalski, 2015)




Levei um tempo para entrar no clima de Results. O filme não se entrega tão facilmente ao espectador. Leva mais de hora para entendermos que se trata de uma comédia (romântica???); o transtorno comportamental do personagem de Kevin Corrigan e a rigidez da personagem de Cobie Smulders reforçam a impressão de um drama, dissipada apenas pelo otimismo exasperado do personagem de Guy Pearce. Porém, pouco a pouco, o arranjo de relacionamentos proposto por Andrew Bujalski começa a tomar forma, reservando uma grata surpresa após a outra, ao optar por caminhos narrativos absolutamente inesperados.

Os atores abraçam a proposta com tanta paixão e desenvoltura que, findada a sessão, já estava eu buscando outras produções de Kevin Corrigan e Cobie Smulders, tamanha a minha admiração pelo trabalho dos dois e a vontade de acompanhar a evolução de suas carreiras. Guy Pearce não fica atrás, mas a sua trajetória já goza de uma exposição midiática mais ampla. Esse foi o meu primeiro filme de Andrew Bujalski, que já entrou no meu radar de prioridades da mesma forma.

Os três personagens exibem logo de cara as suas fraquezas, expondo de forma transparente os conflitos gerados pela sua interação. Essa opção reforça no espectador a representação estereotipada dos mesmos, de forma que algumas das suas ações tendem a ser vistas pelo lado grotesco (em algum ponto entre o mau gosto e o constrangedor). Quando a corda rompe de vez, em razão da dificuldade de relacionamento entre as partes (todas as relações são mediadas por contratos: trabalhista; usuário x prestador de serviços; cliente x fornecedor), o filme quase sai dos trilhos. Só posteriormente percebemos o quanto Andrew Bujalski estava no controle de toda a situação.

No final das contas, os personagens só existem por suas imperfeições. O pay off dessas diferenças não vem de súbito, como uma espécie de revelação bombástica, ele vai sendo gestado aos poucos num nó que leva tempo para desatar. Em nenhum momento Bujalski vende o que não consegue entregar: não esqueçamos que se trata de um filme, não da vida real; uma criação artística que necessita “dialogar” com o público o tempo todo a fim de não perdê-lo. Mas ninguém pode acusá-lo de covardia, Bujalski aposta alto, explora as convenções do gênero de forma inusitada, para no fim chegar ao mesmo ponto (ou, alcançar o mesmo resultado). Aqui, o caminho alternativo é que faz a diferença!

sábado, junho 29, 2019

Batman Returns (Tim Burton, 1992)





Selina Kyle (Michelle Pfeiffer): Honey, I´m home!!!... Oh, I forgot I´m not married!


Embora eu me divirta com os filmes de super-heróis que estreiam às pencas nos cinemas, nunca fui um verdadeiro entusiasta do “gênero cinematográfico”, nem tampouco um leitor voraz dos gibis que o originaram. Minha via de acesso ao universo dos super-heróis foi por meio do cinema, filtrado pelos desenhos animados que se intercalavam na programação matinal da TV aberta nas décadas de 80 e 90. Sendo assim, meu conhecimento a respeito do assunto é parco, nem um pouco aprofundado, o que caracteriza o meu viés de análise preponderantemente pela ótica cinematográfica – em detrimento do repertório original construído em torno das publicações das revistas em quadrinhos.

Ainda que eu já flertasse com a ideia de escrever um post dedicado a esse “gênero”, confesso que as produções contemporâneas não me instigavam suficientemente a ponto de me entusiasmar a fazê-lo. Foi a pequena matéria de Brian Tallerico para o site de Roger Ebert, cobrindo o lançamento da primeira leva dos filmes do Batman em 4K (Batman, Batman Returns, Batman Forever e Batman & Robin), que serviu de desculpa para eu explorar as minhas preferências relacionadas a esse universo. Mesmo com todo o aparato tecnológico a serviço dos estúdios hoje em dia, foram as produções anteriores ao boom do “gênero”, cujo divisor de águas é X-Men: O filme (Bryan Singer, 2000), que moldaram a minha percepção do “filme de super-heróis”.

Se tivesse que levar alguns filmes dessa leva para uma ilha deserta seriam Superman (Richard Donner, 1978), Darkman: Vingança sem Rosto (Sam Raimi, 1990), Batman Returns (Tim Burton, 1992) e o tardio Homem-Aranha 2 (Sam Raimi, 2004). Mas o filme que encabeçaria essa lista seria Batman Returns. Por mais que as cenas de ação sejam indissociáveis desse universo (talvez seja o que realmente resta de notável nas produções contemporâneas), é curioso como a minha memória afetiva se nutre, sobretudo, da construção dos personagens nessas produções. A economia narrativa e de recursos com que a personagem de Michelle Pfeiffer (Selina Kyle) passa de secretária executiva do alto escalão político a Mulher Gato é absolutamente genial: um apartamento com production design impecável (o cuidado com o espaço: as cores, a luz, o detalhe dos objetos que compõem o quadro), a atriz perfeita para interpretá-la (a lucidez estrambelhada do antes em contraste com a determinação insana do depois, turbinada pela sensualidade imbatível da atriz e seu figurino) e a edição e direção que constróem em timing perfeito a transformação puramente imagética da famosa figura felina. Meow!!!

O parágrafo destinado a Batman Returns no texto de Brian Tellerico é relativamente curto, mas resume com precisão a contribuição deste exemplar para o panteão de obras que exploram o universo (cinematográfico) dos quadrinhos.

Por Brian Tellerico

Speaking of bonkers, it is still hard to believe that “Batman Returns” got made. Controversial at the time and relatively unsuccessful, it is now viewed by many as the best of this era of Batman films and one of Burton’s best. But from the very beginning, Burton’s vision feels more daring and confident than in the first film, and he gets more than he could have dreamed of getting out of Michelle Pfeiffer as Catwoman and Danny DeVito as The Penguin. Watching it now reminds one how few auteur-driven films we get in the modern superhero era. This is undeniably a Tim Burton movie, full of his influences and vision in every frame. With the occasional exception (“Black Panther,” “Wonder Woman”), superhero movies today feel like the product of a committee more than an artist. What scared people about “Batman Returns” in 1992 is what makes it so revelatory today. It’s one of the best and strangest movies of its kind ever made.

domingo, junho 09, 2019

The Heartbreak Kid (Elaine May, 1972)




Optei pelo nome original já que dependendo da fonte escolhida a tradução pode variar bastante, Corações em Alta, O Rapaz que Partia Corações, etc.

Na postagem de A Guerra do Vietnã comentei do legado proporcionado pelo evento na esfera cinematográfica que, antes de assistir ao documentário, muitas vezes me pareciam desconexos, frouxos, ou difíceis de serem sustentados. Esse filme é um exemplo prático da transformação empreendida: ganhou uma complexidade extra a partir do melhor entendimento do contexto em que fora produzido. A aproximação que o texto de Adrian Martin faz com A Primeira Noite de um Homem (Mike Nichols, 1967) é muito apropriada.

Por Adrian Martin

Elaine May é a diretora mais subestimada do cinema americano. The heartbreak kid é o mais próximo que já chegou do sucesso de grande público, mas ela se mantém verdadeira quanto à sua visão corrosiva e inflexível. Embora permaneça essencialmente fiel ao roteiro de Neil Simon (com ecos do filme de 1967, A primeira noite de um homem), Elaine consegue massacrar a aura sentimental e imbuída de uma sensação de felicidade presente na contribuição nociva daquele escritor de filmes populares. Ela faz essa passagem acentuando atos desagradáveis de crueldade, humilhação e constrangimento.

A comédia negra, aqui, possui uma face mundana. Lenny (Charles Grodin em seu melhor papel), um vendedor imbecil, está em lua-de-mel com a horrenda mas generosa Lila (Jeannie Berlin – há alguma outra mãe que tenha dirigido a sua filha em um papel tão valente e radical?). Sentindo-se aprisionado e sufocado, as fantasias bastante superficiais de Lenny se viram para o sonho americano da garota ideal, Kelly (Cybill Shepherd). Cada consequência desse triângulo é um desastre.

Poucos filmes nos fazem mergulhar tão impiedosamente na vulgaridade dos sonhos românticos e sexuais. O foco de May neste material é puro John Cassavetes: uma documentação inflexível do desconforto; a dor verdadeira mostrada em tempo real. Nossa risada, tão brilhantemente provocada pela atuação de Elaine, torna-se histérica no sentido psicanalítico do termo: um caminho para fugir temporariamente do horror.

segunda-feira, abril 08, 2019

Nas Garras da Ambição (Raoul Walsh, 1955) e Meu Pecado foi Nascer (Raoul Walsh, 1957)


Nathan Stark (Robert Ryan sobre Ben Allison, personagem de Clark Gable): There goes the only man I ever respected. He's what every boy thinks he's going to be when he grows up and wishes he had been when he's an old man.

Em virtude do lançamento de A Mula (Clint Eastwood, 2018), resolvi enfileirar alguns filmes de Raoul Walsh para desfrutar do prazer da mise-em-scène de um dos grandes artesãos do cinema clássico norte-americano. Meu Pecado foi Nascer foi visto na semana passada e Nas Garras da Ambição foi visto ontem. Ambos são protagonizados por Clark Gable, numa ótima parceria que poderia ter rendido mais filmes além do terceiro faltante da lista, Esse homem é meu (1955); a virilidade do ator é compensada pelo seu charme e carisma característicos, elementos apoiadores da sensibilidade dos personagens por ele interpretados, habitualmente errantes em busca de um último instante de adrenalina, antes do apaziguamento físico e moral desejado quando serão coroados pela serenidade e companhia de uma linda mulher (Yvonne de Carlo e Jane Russell).

A reflexão gerada pela abordagem do preconceito em Meu Pecado foi Nascer foi mais profunda do que em muitos filmes que empunham a bandeira da tolerância com unhas e dentes. A transformação do personagem de Sidney Poitier é reveladora dessa complexidade, quando ele se vê desarmado pelo discurso de Clark Gable, marcante a ponto de fazê-lo enxergar o ser humano por trás do ganancioso mercador de negros, que faz uso da sua posição social para proteger ele e outros escravos dos maus tratos e abusos de outros coronéis. Na verdade, ninguém é mocinho na história. Essa ambivalência do discurso preserva a complexidade do tema, nem sempre tratado com a devida consideração. O filme é entretenimento de altíssimo nível, sem menosprezar a inteligência do espectador.

Nas Garras da Ambição merece ser visto em tela grande, sobretudo pela segunda parte quando os protagonistas partem do Texas rumo a Montana conduzindo um rebanho de milhares de cabeças de gados e cavalos. Não me recordo de ver um western tão arrojado e dispendioso no trato de figurantes, especificamente, uma horda de animais em deslocamento contínuo - a minha memória clama pelo resgate de Rio Vermelho (1948, Howard Hawks). O trajeto é tão acidentado que rola até um arriamento de carroça por cordas que é algo inédito pra minha ignorância. Toda essa grandeza serve perfeitamente ao embate moral e psicológico travado pelos personagens de Clark Gable e Robert Ryan, interposto pela personagem de Jane Russell. Não vejo toda essa beleza na atriz, que supostamente desperta o desejo dos dois machões, embora lhe sobre sensualidade. É um filmaço!

domingo, fevereiro 24, 2019

Infiltrado na Klan (Spike Lee, 2018)


Daqui a pouco começa a festa do Oscar. Embora já faça uns bons anos que não consigo assistir a todos os filmes indicados anteriormente a noite da premiação, persisto posteriormente para tentar preencher essa “lacuna”. Do ano passado ainda me faltam Me Chame pelo Seu Nome (Luca Guadagnino, 2017) e Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017).

Confesso que esse ano eu tive a oportunidade de assistir a todos os indicados com antecedência, mas me faltou apetite para abraçar todas as propostas apresentadas. O único que me chamou a atenção e honestamente não sei como foi parar por lá foi o Infiltrado na Klan, de Spike Lee. Faz duas semanas que o vi no cinema e digo que valeu a espera.

A história é tão bizarra que é difícil encará-la a sério. Spike Lee sabia disso. Tanto que ele nunca abandona o tom de deboche da proposta, como se o próprio ato de filmá-la fosse encarado como uma represália histórica regozijante, uma espécie de triunfo folclórico tardio. A recriação do episódio é a oportunidade de fazê-lo com a segurança de se lambuzar sem se envolver com o perigo real da missão, assumida por completo pelo personagem judeu de Adam Driver que se expõe de forma visceral. Ciente dessa linha tênue de abordagem, da qual ele sempre foi muito crítico, e sua própria filmografia é a prova cabal dessa postura, ele termina o filme com as imagens devastadoras do episódio de Charlottesville em 2017, pra colocar uma pá de cal no assunto e deixar bem claro que a questão está mais presente do que nunca.

A Mula (2018) é outro exemplar magnífico de Clint Eastwood que continua me surpreendendo com a sua fluidez narrativa de dar inveja. Alguns dias antes da minha sessão eu assisti a Golpe de Misericórdia (1949), de Raoul Walsh, que é uma das fontes inesgotáveis de inspiração do veterano diretor. Os heróis esquecidos de Walsh tem a mesma vitalidade dos personagens de Clint Eastwood e flertam com a mesma intensidade com a morte. Duarte Mata, do ótimo site português À Pala de Walsh, escreveu o que eu gostaria sobre o filme: “de uma maneira ou de outra, filmes anteriores de Eastwood são aqui reunidos numa obra que acarreta toda a aura de um filme-testamento, e o tráfico de drogas tem tanta importância em A Mula como o boxe tinha em Menina de Ouro: quase nenhuma, antes o de ser um mero pretexto para falar sobre dois temas pessoais que são o que interessam verdadeiramente a Eastwood, a família e a redenção”.

O Pecado de Todos Nós (John Huston, 1967)



Maj. Weldon Penderton (Marlon Brando): I'm sorry, Leonora. It's just all this clutter is...

Leonora (Elisabeth Taylor): What's the matter with clutter? I like it.

Maj. Weldon Penderton: I'd rather live without it. Bare floors. Plain white walls. No window curtains. Nothing but essentials.

Leonora: If that's the way you feel about it, why don't you resign your commission and start all over again as an enlisted man?

Maj. Weldon Penderton: Of course you're laughing at it, but there's much to be said for the life of men among men... with no... luxuries, no ornamentation. Utter simplicity. It's rough and it's coarse, perhaps, but it's also clean - it's clean as a rifle. There's no speck of dust inside or out... and it's immaculate in its hard young fitness... its chivalry. They're seldom out of one another's sight. They eat, and they train, and they shower, and they play jokes... and go to the brothel together. They sleep side by side. The barracks room offers many a lesson in courtesy and how not to give offense. They guard the next man's privacy as though it was their own. And the friendships, my lord. There are friendships formed that are stronger than... stronger than the fear of death. And - they're never lonely. They're never lonely. And sometimes I envy them... well, good night.

domingo, janeiro 20, 2019

Malcom X (Spike Lee, 1992)



Eu achei que conhecia alguma coisa de Malcom X antes de assistir a cinebiografia de um dos maiores defensores do Nacionalismo Negro nos EUA. Anos de leituras superficiais a respeito do assunto, especialmente as que enfatizam as diferenças de abordagem com Martin Luther King no que diz respeito ao enfrentamento da segregação racial, foram o combustível que nutriu o meu parco conhecimento sobre ele. Em algum momento dessa trajetória, e não faz tanto tempo assim, essa superficialidade atingiu o ápice da banalidade quando me foi feita a aproximação do personagem em quadrinhos Charles Xavier com Martin Luther King e de Magneto com Malcom X, ambos do X-Men. Nada contra as criações artísticas, elas restringem-se apenas à representação de ideias.

O filme de Spike Lee, adaptado do livro A Autobiografia de Malcom X, de Alex Haley, serviu para me apresentar à complexa personalidade de Malcom, de cabo a rabo, desde a infância até o episódio do seu assassinato, e reafirmar a grandiosidade de um dos grandes diretores norte-americanos em atividade. Eu não esperava testemunhar um “cabo de guerra” entre negros na briga por poder. As duas imagens que ilustram esse post me surgiram enquanto eu assistia ao filme. Charles Foster Kane (Orson Welles) e Elijah Muhammad (Al Freeman Jr.) são dois líderes vaidosos que exercem enorme influência, recorrendo a atitudes reprováveis quando veem seus impérios ameaçados. O primeiro é um magnata das comunicações, dono das principais mídias existentes na época (década de 1940), manipulador astuto; o segundo é um líder religioso (Islã), pregador habilidoso, defensor dos negócios afro-americanos. Não seria improvável acreditar que o palanque de Elijah Mohammed foi construído tendo Cidadão Kane como modelo (a materialização de “a vida imita a arte”).

A trajetória de Malcom X se assemelha a de outros personagens ficcionais, dois dos quais explorados por Elia Kazan em Viva Zapata (1952) e Um Rosto na Multidão (1957), e um terceiro por David Lean em Lawrence da Arábia (1962). Todos se comportam como marionetes (puppets) num cenário político de interesses bem mais amplo/complexo do que eles são capazes de enxergar. Ao comunicar ideias revolucionárias, cuja evolução caminha progressivamente contrária ao establishment que os projetou, todos acabam pagando com as suas vidas. Quando essas figuras enfrentam essas “instituições”, tornando-se maiores do que elas, a luz de todos eles se apaga (diferentemente dos seus legados).

segunda-feira, dezembro 31, 2018

A Guerra do Vietnã (Ken Burns & Lynn Novick, 2017)




Só Deus sabe o que faríamos quando entrássemos naquele prédio. Algumas pessoas, os hippies, diriam que iriam fazer o prédio levitar. Outras pessoas queriam vandalizar o prédio. Outros queriam distribuir textos antiguerra no prédio, conversar com as pessoas. Só a ideia de entrar na sede dos militares dos Estados Unidos... foi a primeira vez que protestos antiguerra confrontaram pessoal em serviço militar. Não os considerávamos inimigos. Nós os considerávamos vítimas de guerra. Mas começamos a ver o nosso próprio governo como inimigo.
BILL ZIMMERMANN

O fim dos anos 60 pareceu a confluência de vários riachos. Havia o próprio movimento antiguerra, o movimento de igualdade racial, do meio ambiente, do papel das mulheres... e os hinos daquela contracultura eram feitos pelo rock n´ roll mais incrível que você possa imaginar. Não sei como poderíamos existir hoje como país sem aquela experiência. Com todos os defeitos, altos e baixos, aquilo gerou os EUA que temos hoje, somos melhores por isso. Eu me senti assim no Vietnã. Eu apoiava todas essas coisas. Aquilo representava o que eu tentava defender.
GENERAL MERRIL McPEAK


Minha memória bélica é totalmente moldada pela experiência cinematográfica. Tudo o que “aprendi” a respeito da Guerra do Vietnã foi assistindo Platoon (Oliver Stone, 1986), Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979), Nascido para Matar (Stanley Kubrick, 1987), Nascido em 4 de Julho (Oliver Stone, 1989), O Franco Atirador (Michael Cimino, 1978), Rambo: Programado para Matar (Ted Kotcheff, 1982), Rambo II: A Missão (George P. Cosmatos, 1985), etc. Outros filmes como O Sobrevivente (Werner Herzog, 2006), Bom dia Vietnã (Barry Levinson, 1987), Pecados de Guerra (Brian de Palma, 1989) e Southern Comfort (Walter Hill, 1981) vieram depois. Mesmo que alguns destes houvessem sido lançados junto com a primeira leva, o estrago já havia sido feito. Dos primeiros, assisti quase todos próximos de seus lançamentos, no calor da hora, exceto aqueles que foram lançados na década de 70.

Todos eles abordam um recorte do período da guerra que se estendeu por pelo menos 15 anos. Alguns deles nos colocam no front de guerra, outros nos bastidores; uns nos momentos que antecedem a convocação, outros no período de retorno à pátria; uns exploram o treinamento, outros o corpo a corpo; uns se voltam para os soldados, outros para as patentes mais elevadas. Todo esse pequeno arsenal de produções provocam no espectador reações de revolta, incerteza, injustiça, insegurança, loucura, insensatez, medo, etc.

Nenhuma dessas produções me preparou para o monumento cinematográfico que foi assistir às 18 horas de A Guerra do Vietnã. Todo o contexto político que antecedeu a guerra, os presidentes envolvidos e seus dilemas, a efervescência cultural dos anos 60, o movimento de contracultura, o movimento dos direitos civis, o rock n´roll, as drogas, o papel da televisão, o embate ideológico travado entre comunismo e capitalismo, a guerra fria..., está tudo lá, absolutamente tudo. Embora já faça uns 4 meses que terminei o documentário, o fantasma do seu conteúdo me atormenta até hoje. Passei a enxergar a influência do confronto em esferas que antes me pareciam mais desconexas, mais distantes. O legado é imenso e parece que foi devidamente documentado. Este foi certamente o melhor filme que vi em 2018.