domingo, fevereiro 24, 2019

Infiltrado na Klan (Spike Lee, 2018)


Daqui a pouco começa a festa do Oscar. Embora já faça uns bons anos que não consigo assistir a todos os filmes indicados anteriormente a noite da premiação, persisto posteriormente para tentar preencher essa “lacuna”. Do ano passado ainda me faltam Me Chame pelo Seu Nome (Luca Guadagnino, 2017) e Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017).

Confesso que esse ano eu tive a oportunidade de assistir a todos os indicados com antecedência, mas me faltou apetite para abraçar todas as propostas apresentadas. O único que me chamou a atenção e honestamente não sei como foi parar por lá foi o Infiltrado na Klan, de Spike Lee. Faz duas semanas que o vi no cinema e digo que valeu a espera.

A história é tão bizarra que é difícil encará-la a sério. Spike Lee sabia disso. Tanto que ele nunca abandona o tom de deboche da proposta, como se o próprio ato de filmá-la fosse encarado como uma represália histórica regozijante, uma espécie de triunfo folclórico tardio. A recriação do episódio é a oportunidade de fazê-lo com a segurança de se lambuzar sem se envolver com o perigo real da missão, assumida por completo pelo personagem judeu de Adam Driver que se expõe de forma visceral. Ciente dessa linha tênue de abordagem, da qual ele sempre foi muito crítico, e sua própria filmografia é a prova cabal dessa postura, ele termina o filme com as imagens devastadoras do episódio de Charlottesville em 2017, pra colocar uma pá de cal no assunto e deixar bem claro que a questão está mais presente do que nunca.

A Mula (2018) é outro exemplar magnífico de Clint Eastwood que continua me surpreendendo com a sua fluidez narrativa de dar inveja. Alguns dias antes da minha sessão eu assisti a Golpe de Misericórdia (1949), de Raoul Walsh, que é uma das fontes inesgotáveis de inspiração do veterano diretor. Os heróis esquecidos de Walsh tem a mesma vitalidade dos personagens de Clint Eastwood e flertam com a mesma intensidade com a morte. Duarte Mata, do ótimo site português À Pala de Walsh, escreveu o que eu gostaria sobre o filme: “de uma maneira ou de outra, filmes anteriores de Eastwood são aqui reunidos numa obra que acarreta toda a aura de um filme-testamento, e o tráfico de drogas tem tanta importância em A Mula como o boxe tinha em Menina de Ouro: quase nenhuma, antes o de ser um mero pretexto para falar sobre dois temas pessoais que são o que interessam verdadeiramente a Eastwood, a família e a redenção”.

O Pecado de Todos Nós (John Huston, 1967)



Maj. Weldon Penderton (Marlon Brando): I'm sorry, Leonora. It's just all this clutter is...

Leonora (Elisabeth Taylor): What's the matter with clutter? I like it.

Maj. Weldon Penderton: I'd rather live without it. Bare floors. Plain white walls. No window curtains. Nothing but essentials.

Leonora: If that's the way you feel about it, why don't you resign your commission and start all over again as an enlisted man?

Maj. Weldon Penderton: Of course you're laughing at it, but there's much to be said for the life of men among men... with no... luxuries, no ornamentation. Utter simplicity. It's rough and it's coarse, perhaps, but it's also clean - it's clean as a rifle. There's no speck of dust inside or out... and it's immaculate in its hard young fitness... its chivalry. They're seldom out of one another's sight. They eat, and they train, and they shower, and they play jokes... and go to the brothel together. They sleep side by side. The barracks room offers many a lesson in courtesy and how not to give offense. They guard the next man's privacy as though it was their own. And the friendships, my lord. There are friendships formed that are stronger than... stronger than the fear of death. And - they're never lonely. They're never lonely. And sometimes I envy them... well, good night.

domingo, janeiro 20, 2019

Malcom X (Spike Lee, 1992)



Eu achei que conhecia alguma coisa de Malcom X antes de assistir a cinebiografia de um dos maiores defensores do Nacionalismo Negro nos EUA. Anos de leituras superficiais a respeito do assunto, especialmente as que enfatizam as diferenças de abordagem com Martin Luther King no que diz respeito ao enfrentamento da segregação racial, foram o combustível que nutriu o meu parco conhecimento sobre ele. Em algum momento dessa trajetória, e não faz tanto tempo assim, essa superficialidade atingiu o ápice da banalidade quando me foi feita a aproximação do personagem em quadrinhos Charles Xavier com Martin Luther King e de Magneto com Malcom X, ambos do X-Men. Nada contra as criações artísticas, elas restringem-se apenas à representação de ideias.

O filme de Spike Lee, adaptado do livro A Autobiografia de Malcom X, de Alex Haley, serviu para me apresentar à complexa personalidade de Malcom, de cabo a rabo, desde a infância até o episódio do seu assassinato, e reafirmar a grandiosidade de um dos grandes diretores norte-americanos em atividade. Eu não esperava testemunhar um “cabo de guerra” entre negros na briga por poder. As duas imagens que ilustram esse post me surgiram enquanto eu assistia ao filme. Charles Foster Kane (Orson Welles) e Elijah Muhammad (Al Freeman Jr.) são dois líderes vaidosos que exercem enorme influência, recorrendo a atitudes reprováveis quando veem seus impérios ameaçados. O primeiro é um magnata das comunicações, dono das principais mídias existentes na época (década de 1940), manipulador astuto; o segundo é um líder religioso (Islã), pregador habilidoso, defensor dos negócios afro-americanos. Não seria improvável acreditar que o palanque de Elijah Mohammed foi construído tendo Cidadão Kane como modelo (a materialização de “a vida imita a arte”).

A trajetória de Malcom X se assemelha a de outros personagens ficcionais, dois dos quais explorados por Elia Kazan em Viva Zapata (1952) e Um Rosto na Multidão (1957), e um terceiro por David Lean em Lawrence da Arábia (1962). Todos se comportam como marionetes (puppets) num cenário político de interesses bem mais amplo/complexo do que eles são capazes de enxergar. Ao comunicar ideias revolucionárias, cuja evolução caminha progressivamente contrária ao establishment que os projetou, todos acabam pagando com as suas vidas. Quando essas figuras enfrentam essas “instituições”, tornando-se maiores do que elas, a luz de todos eles se apaga (diferentemente dos seus legados).

segunda-feira, dezembro 31, 2018

A Guerra do Vietnã (Ken Burns & Lynn Novick, 2017)




Só Deus sabe o que faríamos quando entrássemos naquele prédio. Algumas pessoas, os hippies, diriam que iriam fazer o prédio levitar. Outras pessoas queriam vandalizar o prédio. Outros queriam distribuir textos antiguerra no prédio, conversar com as pessoas. Só a ideia de entrar na sede dos militares dos Estados Unidos... foi a primeira vez que protestos antiguerra confrontaram pessoal em serviço militar. Não os considerávamos inimigos. Nós os considerávamos vítimas de guerra. Mas começamos a ver o nosso próprio governo como inimigo.
BILL ZIMMERMANN

O fim dos anos 60 pareceu a confluência de vários riachos. Havia o próprio movimento antiguerra, o movimento de igualdade racial, do meio ambiente, do papel das mulheres... e os hinos daquela contracultura eram feitos pelo rock n´ roll mais incrível que você possa imaginar. Não sei como poderíamos existir hoje como país sem aquela experiência. Com todos os defeitos, altos e baixos, aquilo gerou os EUA que temos hoje, somos melhores por isso. Eu me senti assim no Vietnã. Eu apoiava todas essas coisas. Aquilo representava o que eu tentava defender.
GENERAL MERRIL McPEAK


Minha memória bélica é totalmente moldada pela experiência cinematográfica. Tudo o que “aprendi” a respeito da Guerra do Vietnã foi assistindo Platoon (Oliver Stone, 1986), Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979), Nascido para Matar (Stanley Kubrick, 1987), Nascido em 4 de Julho (Oliver Stone, 1989), O Franco Atirador (Michael Cimino, 1978), Rambo: Programado para Matar (Ted Kotcheff, 1982), Rambo II: A Missão (George P. Cosmatos, 1985), etc. Outros filmes como O Sobrevivente (Werner Herzog, 2006), Bom dia Vietnã (Barry Levinson, 1987), Pecados de Guerra (Brian de Palma, 1989) e Southern Comfort (Walter Hill, 1981) vieram depois. Mesmo que alguns destes houvessem sido lançados junto com a primeira leva, o estrago já havia sido feito. Dos primeiros, assisti quase todos próximos de seus lançamentos, no calor da hora, exceto aqueles que foram lançados na década de 70.

Todos eles abordam um recorte do período da guerra que se estendeu por pelo menos 15 anos. Alguns deles nos colocam no front de guerra, outros nos bastidores; uns nos momentos que antecedem a convocação, outros no período de retorno à pátria; uns exploram o treinamento, outros o corpo a corpo; uns se voltam para os soldados, outros para as patentes mais elevadas. Todo esse pequeno arsenal de produções provocam no espectador reações de revolta, incerteza, injustiça, insegurança, loucura, insensatez, medo, etc.

Nenhuma dessas produções me preparou para o monumento cinematográfico que foi assistir às 18 horas de A Guerra do Vietnã. Todo o contexto político que antecedeu a guerra, os presidentes envolvidos e seus dilemas, a efervescência cultural dos anos 60, o movimento de contracultura, o movimento dos direitos civis, o rock n´roll, as drogas, o papel da televisão, o embate ideológico travado entre comunismo e capitalismo, a guerra fria..., está tudo lá, absolutamente tudo. Embora já faça uns 4 meses que terminei o documentário, o fantasma do seu conteúdo me atormenta até hoje. Passei a enxergar a influência do confronto em esferas que antes me pareciam mais desconexas, mais distantes. O legado é imenso e parece que foi devidamente documentado. Este foi certamente o melhor filme que vi em 2018.

sexta-feira, dezembro 28, 2018

Beau Travail (Claire Denis, 1999)



Eu flerto com Beau Travail já faz uns bons anos, pelo menos desde a descoberta de Denis Lavant dos filmes de Leos Carax. Antes da sessão dele, vieram outros trabalhos de Claire Denis, sendo Nanette e Boni (1996) o único anterior na cronologia da sua filmografia. Tenho pouca familiaridade com a carreira dela, embora eu conheça relativamente bem dois dos seus renomados “mentores”: Jim Jarmusch e Wim Wenders.

Denis não é exatamente uma adepta da escola narrativa (no sentido de contar uma história com início, meio e fim), seu cinema é mais guiado pelas emoções ou pela experiência física dos seus personagens, cuja forma se constrói basicamente na sala de edição. Por mais que todo filme respeite essa lógica, em Claire Denis essa questão é mais orgânica - diálogos escassos e câmera colada nos personagens.

Ainda que meu conhecimento a respeito da sua carreira seja pouco aprofundado, ele foi suficiente pra orientar minha expectativa de forma apropriada. O que significa dizer, especificamente, que o cinema clássico norte americano não seria o modelo estrutural adotado, embora o filme seja uma adaptação livre de Billy Budd, um clássico da literatura mundial, de Herman Melville.

Seus soldados da Legião Estrangeira Francesa me trazem à lembrança outros filmes que também exploram combatentes em permanente treinamento para enfrentar a guerra que nunca acontece, enquanto experimentam um misto de ansiedade e tédio. A referência máxima seria O Deserto dos Tártaros (1976), de Valério Zurlini, embora ele seja mais elitista (envolve o alto escalão) e quase metafísico na relação estabelecida como o tempo; em Beau Travail os soldados são rasos e o tempo não recebe um tratamento metafórico.

Os soldados de Beau Travail estão mais para deuses gregos de corpos majestosos, laborando incessantemente sob o sol escaldante litorâneo, enquanto encenam involuntariamente para colonos africanos que os observam num misto de admiração e indiferença. A experiência militar, comumente associada à destruição e ao extermínio, encontra em Denis uma abordagem renovada, de rara beleza plástica, sem cair na armadilha do discurso anti-militarista entremeado pelo próprio espetáculo (imagético) da guerra.

A enigmática cena final, em que Denis Lavant dança ao ritmo de “The Rhythm of the Night” do Corona, reforça a ambiguidade dos relacionamentos explorados até então. É certo que o ato que promoveu o seu desligamento da Legião gerou um impacto emocional, só não sabemos ao certo qual foi. Sua espontaneidade corporal desperta no espectador um sentimento contraditório de exaltação e desolação: a fluência e a elasticidade natural do seu corpo parecem ter sido abafadas pela disciplina e o rigor do treinamento militar. O toque de Claire Denis repousa nessa capacidade de extrair sensibilidade e beleza de um material que é, por natureza, bruto.

sábado, dezembro 01, 2018

República dos Assassinos (Miguel Faria Jr., 1979)


Tarcísio Meira (Mateus Romeiro): Querem me fazer pagar pelos erros de todos. Eu sou um policial Dr. Clemente. Acima de tudo eu sou um policial. Não é justo depois de tudo que eu fiz que me deixem apodrecer aqui dentro da cadeia. Foi por isso que eu mandei chamar o senhor aqui. Eu tenho que sair daqui.
Ítalo Rossi (Dr. Clemente): Você está nas mãos da justiça. Só ela pode....
Tarcísio Meira: A justiça não decide coisa nenhuma Dr. Clemente, o senhor sabe disso. Nós agimos antes da justiça. Só o que eu preciso é da ajuda dos bons amigos que eu tenho. Eu tenho bons amigos. O senhor, por exemplo, é ou não é meu amigo?
Ítalo Rossi: Vocês me traíram... traíram a minha confiança. Estão sabendo de tudo... até o Alcindo quer abrir o bico e falar com o promotor. Sei lá que histórias ele vai inventar....
Tarcísio Meira: O senhor sabe das histórias todas, sempre soube. Tá certo, o Alcindo é um bobo por querer abrir o bico, mas eu compreendo como ele está se sentindo. Engaiolado feito um bicho, um marginal qualquer, eu mesmo já tive vontade de mandar chamar esse promotor...
Ítalo Rossi: O quê?
Tarcísio Meira: Mas aí eu me lembrei dos bons amigos que eu tenho, e pensei... a minha obrigação é proteger os bons amigos. Porque mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, eles vão me tirar da cadeia. A minha prisão foi um erro Dr. Clemente. Eu não devia estar aqui. Se não fosse aquela putinha, filha do seu amigo...
Ítalo Rossi: A moça está enganada, disse que você a sequestrou... foi isso o que ela contou para o pai.
Tarcísio Meira: Os dois são da mesma raça... não tenho dúvida disso. Ele vai ganhar uma cadeira no Senado e ela vai conseguir um babaca qualquer pra se casar com ela. Quanto a mim, eu não fico aqui... nem mais um dia. Pense bem sobre o assunto... o senhor é ou não é meu amigo?

quinta-feira, novembro 01, 2018

Chazelle, Mizoguchi, Muylaert, Lee e Huston


O Primeiro Homem (Damien Chazelle, 2018) – o jovem diretor parece interessado em construir sua “autoria” investindo na trajetória de artistas, sejam eles músicos, escritores ou astronautas, que suam suas camisas em busca do estrelato. Para ele, esse processo não tem nada de glamoroso. São sangue, suor e lágrimas. Chama-me a atenção o esforço que ele faz para encontrar uma conexão emocional junto ao público. Aproveitei para ver Os Eleitos (Phillip Kaufman, 1983) por ocasião da estreia acima. Imagino o impacto que o filme deve ter causado no seu lançamento, ainda que os relatos sejam de que ele foi bem mal de bilheteria. É uma grande produção que trata o assunto com leveza (as mortes são despachadas como nota de rodapé), sobressaindo a visão irônica da prosa de Tom Wolfe, responsável pelos momentos inspirados de humor. A narrativa que intercala as missões dos astronautas com a agonia doméstica das esposas virou modelo para as produções que vieram depois.



Rua da Vergonha (Kenji Mizoguchi, 1956) – o post de Sérgio Alpendre, intitulado “hierarquia mizoguchiana”, adiantou a minha sessão do filme, já que pretendia encarar a carreira do diretor de forma cronológica (com as produções que tenho disponíveis), mesmo tendo encaixado Contos da Lua Vaga (1953) e O Intendente Sancho (1954) sem respeitar esse critério. Sendo assim, fui involuntariamente direto para o seu canto do cisne. É um filme muito duro, quase documental, retratando a vida num bordel do pós-guerra japonês. Quem o assiste, o adota como referência. Mesmo certo de que as gueixas haviam comido o pão que o diabo amassou, as histórias individuais delas ainda ressoam por dias a fio. Mizoguchi não investe no sentimentalismo barato. Suas mulheres não são fragilizadas como reflexo da condição exploratória que assumem, tendo algumas delas, inclusive, se fortalecido pela experiência. Não é um filme agradável, embora seja obrigatório.



Mãe só há uma (Anna Muylaert, 2016) – os últimos filmes da diretora, incluindo esse, nos convidam a reflexão. Desta vez, acho que a construção dramática foi mais convincente do que em Que horas ela volta? (2015). Começa dando indícios de que vai partir para uma exploração do ambiente juvenil, centrado no personagem de Pierre, aparentemente indeciso sobre a sua inclinação sexual. A guinada se dá cedo, quando os pais biológicos de Pierre (Naomi Nero) o encontram, assumindo as rédeas da sua vida, justamente no momento em que seu desabrochar sexual parecia conduzi-lo para uma saída do armário. A abordagem é mais sensível do que o meu relato. O choque proporcionado por esse convívio forçado e totalmente inoportuno (do ponto de vista dele) proporciona momentos dramáticos bastante fortes. O jovem usa o figurino como objeto de resistência, identidade e protesto.



Rodney King (Spike Lee, 2017) – à espera do que pode vir a ser um dos grandes filmes do ano, Infiltrado na Klan (Spike Lee, 2018), nos resta essa produção curta de Spike Lee, apenas 52 minutos, disponível na Netflix. Uma espécie de versão cinematográfica de Hurricane, a obra prima musical de Bob Dylan. Performance magistral de Roger Guenveur Smith: corpo, voz e luz.




Á Sombra do Vulcão (John Huston, 1984) - o que é a interpretação de Albert Finney? Tornou-se a minha referência para o retrato de um alcoólatra. A carreira do diretor costuma ser celebrada por outras produções, deixando essa pérola de lado, em escanteio, o que é um desperdício. Imagens do grande fotógrafo Gabriel Figueroa, que valoriza as cores do seu México. O filme explora a agonia da liberdade que não pode ser gozada. Nas palavras de Geoffrey Firmin (Albert Finney), “Sobriety, I´m afraid. Too much moderation. I need drink desperatly to get my balance on”.

quarta-feira, outubro 17, 2018

O Cidadão Ilustre (Gáston Duprat e Mariano Cohn, 2016)


Há algum tempo atrás eu me posicionei a respeito da idolatria que a brasileirada costuma prestar aos filmes produzidos na Argentina. Sem contestar a sua perceptível qualidade, ainda não me convence raciocinar que a produção artística deles seja melhor que a nossa. Parece irônico que alguém que escreve essas linhas no início da postagem emende dois textos seguidos com filmes argentinos. Se eu escrevesse com mais frequência talvez até fosse possível rebater essa questão, mas no ritmo que venho me dedicando a este espaço fica difícil convencer quem quer que seja.

Pra colocar uma pá de cal no assunto, escrevo para registrar o meu entusiasmo com O Cidadão Ilustre. Acho que encontrei meu filme argentino pra levar para uma ilha deserta. O filme anterior da dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn, O Homem ao Lado (2009), já havia sido muito bem recebido pela crítica, mas, honestamente, ele só reforçava pra mim a insensatez das comparações entre as produções artísticas dos dois países. Eu encarava os elogios demasiadamente forçados, sem que o filme merecesse tamanho reconhecimento. Pode ser que ao revê-lo, eu encontre aquilo que não fui capaz de enxergar anteriormente.

Sem mais delongas, vou direto ao ponto: O Cidadão Ilustre é um filmaço. Resumido em poucas linhas é a história de um escritor argentino (Oscar Martínez), radicado há 40 anos na Europa, vencedor do prêmio Nobel de Literatura, cujos personagens de seus livros premiados foram inspirados pelas memórias cultivadas em sua terra natal. O filme abre com a cerimônia de premiação do Nobel, cujo discurso de aceitação já antecipa o temperamento do personagem que será escaneado até a última cena. Do seu calendário repleto de convocações para cerimoniais inócuos ao redor do planeta, surge o convite, a priori rechaçado, para uma visita a sua cidade natal a fim de receber o tal título de Cidadão Ilustre.

A partir do aceite, o eixo da narrativa se desloca definitivamente da modernidade da cidade grande para o conservadorismo campestre, retrógrado e antiquado. Logo que ele desembarca em território argentino, sucedem-se situações que evidenciam a precariedade dos meios, familiar a qualquer cidadão sul americano (as cenas são bastante inspiradas). A recepção calorosa, dotada de uma falsa sensação de hospitalidade, em contraste com a solenidade da cerimônia de premiação do Nobel, aos poucos começa a escancarar a sordidez que rege as relações entre os habitantes da cidade. A rispidez e a falta de tato no trato com as pessoas por parte do Cidadão Ilustre só fazem aumentar o abismo existente entre eles, levando parte dos cidadãos a se rebelar contra o figurão, acusado de abandonar suas raízes para explorar seus conterrâneos por meio dos personagens de suas publicações.

Quanto mais o Cidadão Ilustre interage com as pessoas, maior o desconforto gerado pela sua presença. Mesmo quando ele encontra antigos amigos, existe um ressentimento que paira no ar, dificultando a comunicação entre as partes. O não dito é sobrecarregado de mágoas e rancor, ainda que as aparências sugiram o contrário. À medida que a produção avança para o seu desfecho, a integridade de Oscar Martínez exerce um contraponto de resistência à corrupção latente dos habitantes da cidade de Sales. A criação artística, maltratada por àqueles que ditam as regras no município, é manipulada para promover o status quo, empurrando para baixo do tapete os talentos genuínos, sufocados pela mediocridade vigente. A cena final provoca uma reflexão ao sugerir uma nova interpretação para os fatos narrados. O cinema assume a condição de arte, ancorado na ambiguidade do discurso.

sexta-feira, setembro 28, 2018

Pizza, Cerveja, Cigarro (Israel Adrián Caetano e Bruno Stagnaro, 1998)


Pizza, Cerveja, Cigarro me foi dado de presente por um amigo em viagem a Buenos Aires há uns bons anos atrás. Na época do seu lançamento, 1998, meu interesse passava longe do cinema latino americano, inclusive o brasileiro. O filme é praticamente o marco inicial do cinema argentino que conhecemos hoje. Acho que consigo imaginar o impacto que ele causou quando do seu lançamento. Passados vinte anos, ele ainda se sustenta muito bem. Tem a crueza/secura dos cineastas que arriscam tudo em início de carreira, como forma de transpor a habitual escassez de recursos.

Uma sequência próxima do final do filme me chamou bastante a atenção. Ela é basicamente uma reencenação do mesmo golpe dado pelos protagonistas em parceria com o motorista de táxi durante a exibição dos créditos, só que dessa vez a vítima é uma senhora, único ser humano capaz de despertar a sensibilidade dos jovens delinquentes. A personagem é um presente para a atriz Elena Cánepa, inspirada e improvável na mesma medida, que representa uma ilha de integridade num ambiente dominado pela falência das relações humanas. A sequência carrega uma leveza que destoa do restante da produção, muito embora o contexto seja conflituoso, dominado pela absoluta falta de perspectiva.

Embora ela seja a vítima do assalto, é a única pessoa que trata os meninos com dignidade, como se fossem os filhos que não foi capaz de ter. O diálogo que ela estabelece com os jovens é tão honesto e sereno, na contramão do ritmo acelerado do filme, que emerge um ambiente de aproximação e respeito, um respiro de decência e sanidade, proporcionando ao espectador uma empatia instantânea. A cena confronta a juventude e a velhice, a vida na cidade e a vida no interior e os valores morais antiquados e vigentes de forma sugestiva, sem fazer do discurso um palanque para julgamentos apressados. Da compreensão e da solidariedade surge o antídoto para o combate da estupidez e da ignorância.

sábado, julho 28, 2018

Mulheres Diabólicas (Claude Chabrol, 1995)


Não deve fazer dois anos que eu confessei meu desentendimento com a obra de Chabrol, sobretudo a fase da parceria com Isabelle Huppert. Na ocasião estava maravilhado com Uma Garota dividida em Dois (2007). Novamente faço uma mea culpa tardia, certo de que me precipitei no julgamento. Dessa vez, não só gostei muito do filme que intitula essa postagem, como acredito que o mesmo funcione por causa de presença enigmática de Huppert.

Mulheres Diabólicas (1995), que não é uma tradução muito feliz para La Ceremonie, é muito foda. Chabrol conduz a produção com a fina ironia que lhe é característica, construindo a personagem de Sandrine Bonnaire, uma empregada doméstica de luxo, cercada por um véu opaco de mistério, legando ao espectador a desconfiança das suas verdadeiras motivações.

Isabelle Huppert representa a caipira francesa frustrada, insatisfeita com a condição social que lhe foi reservada, mas dotada de uma energia extenuante, canalizada ao esfacelamento dos patrões burgueses de Bonnaire. Sua função é fazer a energia deles drenar até secar. Mesmo desempenhando um papel não condizente com a sua elegância, Huppert sobra na pele da funcionária dos correios. Filipe Furtado já havia feito a comparação de Elle (2015, Paul Verhoeven) com as produções de Chabrol, e esse filme é a constatação mais precisa dessa aproximação.

A química entre as duas personagens gera combustão na tela. A colisão entre os dois extratos sociais é inevitável, mas o filme nunca assume o papel panfletário que poderia resultar dessa combinação explosiva. É uma comédia de costumes de humor negro, refinada pela classe dos nomes envolvidos (Jean-Pierre Cassel, Jacqueline Bisset e Virgine Ledoyen). Minha próxima investida será Um Assunto de Mulheres (1988), também da parceria Chabrol-Huppert.