terça-feira, setembro 21, 2010

Polícia, Adjetivo (Corneliu Poromboiu, 2009)



A intenção incial era de escrever um post sobre a França, os imigrantes e os filmes, ideia que não foi ainda de todo descartada. Aproveitando o assunto, mas focado no outro lado da história, resolvi me atualizar na onda de cinema romeno que tomou de assalto as últimas edições do festival de Cannes e que tem apresentado filmes bem conceituados. Até então, havia visto apenas 4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007), de Cristian Mungiu.

Fiquei chapado com Polícia, Adjetivo (2009), de Corneliu Poromboiu. As longas tomadas, as longas esperas, o tom minimalista, a câmera estática, os tempos mortos, tudo isso possibilita ao diretor recriar com precisão o ritmo de vida do cidadão romeno. As famosas instituições estatais herdadas do tempo do comunismo caberiam perfeitamente em um romance de Kafka. Não são poucos os momentos em que nos perguntamos se não estamos diante de um documentário. O filme faz jus a grande tradição do cinema documental do leste europeu ao registrar a peregrinação do protagonista pela cidade romena em que habita à procura de evidências que possam incriminar um provável distribuidor de drogas. O enredo, sintetizado acima, soa como um típico filme policial norte americano.

Na realidade, são as escolhas do diretor para a elaboração do roteiro que enriquecem a experiência do filme. O que parece fortuito ao longo da projeção, que inclusive fornece ao espectador uma boa dose de pistas falsas - com alguns momentos cômicos despretensiosos - aos poucos começa a fazer sentido, se encaixar, até culminar na longa cena final dentro da sala do chefe de polícia. É nela que se concentra a força do filme: ali se encontram a palavra e seu significado, a Romênia comunista e a Romênia contemporânea, o homem-indivíduo e o homem-cidadão. A direção não nos prepara para o desfecho sublime que o roteiro nos reserva; na verdade, isso potencializa o seu impacto. Um dos melhores filmes que eu vi neste ano.

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