segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Argo (Ben Affleck, 2012)



Não fosse Argo um dos principais concorrentes da temporada de premiações, dificilmente eu teria tido a chance de vê-lo na tela grande. Quando o filme estreou no circuito comercial nacional no início de novembro, em meio aos Crepúsculos e 007s, nenhuma exibidora de Ribeirão se arriscou a trazê-lo pra cá. Mesmo numa rara ida a São Paulo em meados de dezembro, com o filme ainda em cartaz, acabei optando por produções que talvez nem tivessem assegurados seus lançamentos em DVD, Holy Motors (Leos Carax, 2012) e Um Alguém Apaixonado (Abbas Kiarostami, 2012). Por sorte, na semana que o filme foi premiado pelo Globo de Ouro, seguido da indicação ao Oscar, o filme debutou em uma sala do Cinépolis de Ribeirão com duas sessões noturnas apenas. O prestígio da temporada de premiações garantiu a sua exibição por essas bandas.

O que distingue esse thriller das produções setentistas com as quais ele tem sido comparado é a espirituosa contribuição de Hollywood à trama, cujo emprego costuma vir associado a um caráter bem mais pejorativo que construtivo. O charmoso distrito da cidade de Los Angeles já serviu de mote a inúmeras produções, com destaque normalmente voltado para o aspecto sórdido das negociatas que sustentam suas atividades. Em Argo, essa particular circunstância recheia os diálogos do produtor Lester Siegel (Alan Arkin) e o maquiador oscarizado John Chambers (John Goodman) de pérolas, bem fiel ao espírito cínico que lhe fez a fama, embora, aqui, o seu emprego esteja mais voltado para valorizar a astúcia da empreitada do que propriamente ridicularizá-la: seis funcionários da diplomacia norte-americana refugiados na embaixada canadense do Irã de Khomeini, em 1979, só serão resgatados pela CIA por meio de um plano inusitado, elaborado com a ajuda da indústria cinematográfica de Hollywood, ao torná-los parte integrante da equipe de filmagens de uma produção científica fake que busca locações no deserto iraniano.

Joe Stafford: You really believe your little story´s gonna make a difference when there´s a gun to our heads?

Tony Mendez: I think my story´s the only thing between you and a gun to your head.

É uma pena que o roteiro de Chris Terrio não saiba muito bem o que fazer com os personagens de Alan Arkin e Jonh Goodman depois que o funcionário da CIA, Tony Mendez (Ben Affleck), é enviado a Teerã para colocar em prática o plano de retirada. A partir daí, as cenas reservadas a esses personagens são por vezes constrangedoras, ainda que bastante divertidas. Por mais forçado que resulte a tensão na sequência do aeroporto, a ponto de quase colocar toda a consistência do drama a perder, ela ainda é capaz de sustentar o interesse pela escapada dos refugiados. Mesmo enfraquecida pela opção narrativa do thriller, que alonga propositalmente o tempo para construir um suspense pouco consistente, é nela que se encontra a melhor cena do longa: quando um dos refugiados, Joe Stafford (Scoot McNairy), interpretando o papel de diretor da produção fake, tem de explicar a um grupo armado do governo iraniano do que se trata o filme, ele se vale dos storyboards elaborados pela equipe de produção de Siegel e Chambers para convencer esses burocratas da veracidade da missão a que eles se prestavam. Uma verdadeira homenagem ao encanto proporcionado pelo Cinema, semelhante à cena que Martin Scorsese fez em A Invenção de Hugo Cabret (2011), quando expõe ao público os storyboards de George Méliès esquecidos em um imenso baú. Enquanto o YouTube não disponibiliza a sequência de Argo, fiquemos com a de Hugo Cabret.



Partindo do principio de que o filme “documenta” uma situação verídica em que Hollywood contribuiu de fato para solucionar uma delicada questão diplomática, faz todo o sentido que Argo seja o grande premiado na noite do Oscar do próximo final de semana.

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