domingo, fevereiro 25, 2018

The Post (Steven Spielberg, 2017)


Escrevo sobre o filme depois que todo mundo já o fez e passadas umas três semanas da minha sessão. A Forma da Água (Guillermo Del Toro, 2017) e Três Anúncios para um Crime (Martin McDonagh, 2017), pra ficar no Oscar, também foram vistos no período, mas não despertaram o meu entusiasmo. Spielberg tem o meu voto de confiança. O filme abre com uma cena na Guerra do Vietnã, totalmente descolada do restante da proposta (parece ter sido inserida pra atender exigências de metragem), mas não tarda para entrar logo no eixo. O esforço de lição cívica que já justificou outros projetos recentes do diretor fica evidente (Lincoln e Ponte dos Espiões), agora embalado pela defesa da liberdade de imprensa, protagonizado por uma mulher.

Aparte essa urgências temáticas do nosso tempo, o que mais me chamou a atenção no filme foi a exploração da relação entre a dona do jornal (Meryl Streep) e a cúpula do governo norte americano. Não me recordo de ver isso representado na tela em outras produções. O jornal Washington Post só se torna “grande” quando deixa de ser conivente com o jogo político engendrado pelo governo (no caso o governo Nixon), cessando de preocupar-se com a cobertura das festas promovidas na Casa Branca em plena crise de imagem do Estado, e passando a prestar um serviço de esclarecimento para a sociedade. Mas isso só vem com a “libertação de consciência” da sua proprietária, herdeira involuntária do jornal, criada no seio do meio político, convivendo desde sempre com os chefes de Estado em sua propriedade, confiando às relações estabelecidas entre as partes o status de amizade. Essa amarra emocional configura, a meu ver, o ponto forte do filme. Ela não enxerga conflito ideológico na conduta suspeita do seu amigo de longa data e a sua postura de preservá-lo da denúncia. A amizade se estende, por consequência, ao corpo editorial do jornal.

É muito boa a cena em que ela se desvencilha de Robert McNamara (Bruce Greenwood), um dos principais envolvidos no “escândalo dos papéis publicados”, a quem considera amigo de verdade. A relação estabelecida entre ambos me fez lembrar o pensamento do sociólogo e pesquisador Mark Granovetter, ao argumentar que a visão neoclássica da ação econômica, que separava a economia da sociedade e da cultura, promovia uma atomização do comportamento humano. Segundo ele, “as pessoas não se comportam ou decidem como átomos fora de um contexto social, nem aderem servilmente a um roteiro escrito para elas pela interseção particular de categorias sociais que elas ocupam. Suas tentativas de ação intencional são embutidas/inseridas (embedded) em sistemas concretos e contínuos de relações sociais.”

Só pra finalizar, o entusiasmo do personagem de Tom Hanks me contagia, especialmente na longa cena que se passa em sua casa - a melhor do filme. Por mais romântica que tenha sido a sua concepção, chama a atenção aquele ambiente de trabalho improvisado tomado pelos tais “papéis” - a energia envolvida nela é muito orgânica. O seu personagem também convive com a mesma crise de consciência que acometeu a sua chefa, na relação próxima que ele e sua esposa nutriam com a família Kennedy. Em verdade, todos nós fomentamos relações desse tipo, em maior ou menor grau, em algum ponto de nossas vidas.

PS: O fechamento, com a “documentação” do processo da escrita impressa, é um achado, sobretudo pra quem nunca teve a oportunidade de presenciá-lo. Fazer a informação chegar ao público era um parto; o gigantismo da operação é de encher os olhos.

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