quinta-feira, novembro 01, 2018

Chazelle, Mizoguchi, Muylaert, Lee e Huston


O Primeiro Homem (Damien Chezelle, 2018) – o jovem diretor parece interessado em construir sua “autoria” investindo na trajetória de artistas, sejam eles músicos, escritores ou astronautas, que suam suas camisas em busca do estrelato. Para ele, esse processo não tem nada de glamoroso. São sangue, suor e lágrimas. Chama-me a atenção o esforço que ele faz para encontrar uma conexão emocional junto ao público. Aproveitei para ver Os Eleitos (Phillip Kaufman, 1983) por ocasião da estreia acima. Imagino o impacto que o filme deve ter causado no seu lançamento, ainda que os relatos sejam de que ele foi bem mal de bilheteria. É uma grande produção que trata o assunto com leveza (as mortes são despachadas como nota de rodapé), sobressaindo a visão irônica da prosa de Tom Wolfe, responsável pelos momentos inspirados de humor. A narrativa que intercala as missões dos astronautas com a agonia doméstica das esposas virou modelo para as produções que vieram depois.



Rua da Vergonha (Kenji Mizoguchi, 1956) – o post de Sérgio Alpendre, intitulado “hierarquia mizoguchiana”, adiantou a minha sessão do filme, já que pretendia encarar a carreira do diretor de forma cronológica (com as produções que tenho disponíveis), mesmo tendo encaixado Contos da Lua Vaga (1953) e O Intendente Sancho (1954) sem respeitar esse critério. Sendo assim, fui involuntariamente direto para o seu canto do cisne. É um filme muito duro, quase documental, retratando a vida num bordel do pós-guerra japonês. Quem o assiste, o adota como referência. Mesmo certo de que as gueixas haviam comido o pão que o diabo amassou, as histórias individuais delas ainda ressoam por dias a fio. Mizoguchi não investe no sentimentalismo barato. Suas mulheres não são fragilizadas como reflexo da condição exploratória que assumem, tendo algumas delas, inclusive, se fortalecido pela experiência. Não é um filme agradável, embora seja obrigatório.



Mãe só há uma (Anna Muylaert, 2016) – os últimos filmes da diretora, incluindo esse, nos convidam a reflexão. Desta vez, acho que a construção dramática foi mais convincente do que em Que horas ela volta? (2015). Começa dando indícios de que vai partir para uma exploração do ambiente juvenil, centrado no personagem de Pierre, aparentemente indeciso sobre a sua inclinação sexual. A guinada se dá cedo, quando os pais biológicos de Pierre (Naomi Nero) o encontram, assumindo as rédeas da sua vida, justamente no momento em que seu desabrochar sexual parecia conduzi-lo para uma saída do armário. A abordagem é mais sensível do que o meu relato. O choque proporcionado por esse convívio forçado e totalmente inoportuno (do ponto de vista dele) proporciona momentos dramáticos bastante fortes. O jovem usa o figurino como objeto de resistência, identidade e protesto.



Rodney King (Spike Lee, 2017) – à espera do que pode vir a ser um dos grandes filmes do ano, Infiltrado na Klan (Spike Lee, 2018), nos resta essa produção curta de Spike Lee, apenas 52 minutos, disponível na Netflix. Uma espécie de versão cinematográfica de Hurricane, a obra prima musical de Bob Dylan. Performance magistral de Roger Guenveur Smith: corpo, voz e luz.




Á Sombra do Vulcão (John Huston, 1984) - o que é a interpretação de Albert Finney? Tornou-se a minha referência para o retrato de um alcoólatra. A carreira do diretor costuma ser celebrada por outras produções, deixando essa pérola de lado, em escanteio, o que é um desperdício. Imagens do grande fotógrafo Gabriel Figueroa, que valoriza as cores do seu México. O filme explora a agonia da liberdade que não pode ser gozada. Nas palavras de Geoffrey Firmin (Albert Finney), “Sobriety, I´m afraid. Too much moderation. I need drink desperatly to get my balance on”.

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